Tarifa dos EUA sobre etanol brasileiro deve ter impacto limitado, mas acelera busca por novos mercados
Especialistas avaliam que sobretaxa de 25% anunciada pelos Estados Unidos tem forte componente político e deve afetar exportadores específicos, enquanto competitividade do Brasil mantém espaço para expansão internacional do biocombustível
Publicado em: 24/07/2026 às 10:10hs
A nova tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos ao etanol brasileiro deve provocar impactos pontuais sobre empresas exportadoras, mas tende a ter efeito limitado sobre o conjunto da cadeia produtiva nacional. A avaliação de especialistas é que a medida ocorre em um cenário de menor dependência do mercado norte-americano e reforça a necessidade de diversificação dos destinos internacionais para o biocombustível brasileiro.
Apesar de os Estados Unidos permanecerem entre os principais compradores do etanol produzido no Brasil, o mercado norte-americano representa atualmente menos de 16% do volume total exportado pelo país, segundo dados do setor.
A maior parte das vendas externas brasileiras já está direcionada para outros mercados, reduzindo a exposição da indústria nacional à decisão tarifária.
Exportações brasileiras de etanol têm baixa dependência dos EUA
Em 2025, o Brasil exportou aproximadamente 1,6 milhão de metros cúbicos de etanol, movimentando cerca de US$ 1 bilhão em receitas.
Desse total, os embarques destinados aos Estados Unidos somaram cerca de 253 mil metros cúbicos, equivalentes a aproximadamente US$ 163 milhões.
De acordo com a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), o mercado norte-americano respondeu por:
- menos de 16% do volume exportado;
- cerca de 17,5% da receita internacional do setor.
Na prática, mais de 84% do volume exportado pelo Brasil já possui outros destinos, demonstrando uma estrutura comercial mais diversificada.
Para especialistas, a tendência é que o setor continue buscando novos compradores internacionais, reduzindo riscos associados a mudanças repentinas na política comercial dos Estados Unidos.
Tarifa tem caráter político, avaliam especialistas
Para o professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Luiz Carlos Delorme Prado, a medida possui forte influência política e ocorre em um ambiente de pouca previsibilidade comercial.
Segundo o especialista, embora a perda de acesso ao mercado norte-americano represente um problema para algumas empresas, o impacto agregado sobre a economia brasileira tende a ser restrito.
A avaliação é que investimentos direcionados exclusivamente ao mercado dos Estados Unidos passaram a envolver maior risco diante das mudanças frequentes na política comercial do país.
Brasil mantém vantagem competitiva no mercado global de etanol
Mesmo diante das novas barreiras comerciais, o Brasil possui vantagens estruturais que fortalecem sua posição no mercado internacional de biocombustíveis.
Entre os principais diferenciais estão:
- menor custo de produção;
- maior produtividade agrícola;
- disponibilidade de matéria-prima;
- integração entre agricultura e pecuária;
- uso de biomassa para geração de energia nas usinas.
Segundo pesquisadores, essas características permitem ao país competir em diferentes mercados, especialmente diante da crescente demanda mundial por combustíveis renováveis.
Etanol de cana e milho amplia competitividade brasileira
O Brasil possui uma matriz produtiva diversificada de etanol. Atualmente, cerca de 75% da produção nacional tem origem na cana-de-açúcar, enquanto aproximadamente 25% vem do milho.
A produção de etanol de milho vem crescendo rapidamente e deve ganhar ainda mais participação nos próximos anos.
Segundo especialistas, a expansão ocorre principalmente pela possibilidade de realizar duas safras na mesma área agrícola, com soja no verão e milho na segunda safra.
Esse modelo aumenta a eficiência do uso da terra e amplia a competitividade da cadeia produtiva.
Etanol de milho fortalece integração entre agricultura e pecuária
Outro fator que favorece o crescimento do etanol de milho no Brasil é a integração com a produção pecuária.
O processo gera coprodutos utilizados na alimentação animal, como o farelo de milho, reduzindo custos e criando novas oportunidades econômicas para produtores rurais.
Além disso, a utilização da biomassa gerada pelas próprias usinas reduz a necessidade de compra externa de energia, diminuindo os custos industriais.
De acordo com pesquisadores, essa vantagem diferencia o modelo brasileiro do norte-americano, onde parte significativa da energia utilizada na produção depende de fontes externas.
Produtividade agrícola favorece Brasil frente aos EUA
A produtividade também é um dos principais diferenciais competitivos do etanol brasileiro.
Na produção a partir da cana-de-açúcar, o Brasil alcança aproximadamente 7 mil litros de etanol por hectare, enquanto a produtividade máxima estimada nos Estados Unidos, com base no milho, chega a cerca de 5 mil litros por hectare.
O clima brasileiro permite maior aproveitamento agrícola, especialmente pela possibilidade de produção em segunda safra, aumentando a eficiência do sistema.
Entidades do setor defendem diálogo comercial
A tarifa anunciada pelos Estados Unidos recebeu críticas de entidades representantes dos produtores brasileiros de etanol.
A Unica afirma que a política brasileira para o biocombustível segue as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e destaca que a redução das importações de etanol norte-americano pelo Brasil ocorreu principalmente pelo avanço da produção nacional de etanol de milho.
A União Nacional do Etanol de Milho (Unem) também avalia que o impacto direto da medida será limitado, mas alerta para os possíveis precedentes criados por novas barreiras comerciais.
Segundo a entidade, a expansão da produção brasileira e os ganhos de competitividade explicam a mudança no fluxo comercial, e não medidas discriminatórias contra produtos estrangeiros.
Setor aposta em novos mercados para o etanol brasileiro
Apesar das incertezas provocadas pela tarifa norte-americana, especialistas avaliam que o Brasil possui condições para ampliar sua presença no mercado internacional.
A busca por novos compradores, aliada à competitividade da produção nacional e ao avanço dos combustíveis renováveis, deve orientar os próximos movimentos da indústria.
Com vantagens em custo, produtividade e sustentabilidade, o etanol brasileiro segue como um dos principais produtos estratégicos da transição energética global.
Fonte: Portal do Agronegócio
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