Preço do etanol volta a subir e demanda pode acelerar com maior vantagem sobre a gasolina
Etanol hidratado aproxima-se de R$ 2,20 por litro ao produtor, enquanto mistura obrigatória de 32% na gasolina amplia o consumo; oferta elevada e exportações limitadas ainda pressionam o mercado
Publicado em: 31/08/2026 às 10:30hs
O preço do etanol hidratado voltou a se aproximar de R$ 2,20 por litro ao produtor na primeira quinzena de agosto. A recuperação reflete a combinação entre valorização do açúcar, fortalecimento do real e expectativa de aumento do consumo do biocombustível no mercado brasileiro.
Os dados constam no Agro Mensal, relatório elaborado pela Consultoria Agro do Itaú BBA. A reação ocorre após um período de pressão sobre as cotações e em um momento decisivo para o setor, que ainda precisa absorver uma oferta elevada para impedir o crescimento dos estoques.
Apesar da melhora recente, a sustentação dos preços dependerá principalmente da resposta dos consumidores à maior competitividade do etanol diante da gasolina.
Etanol ganha competitividade nos postos brasileiros
A expectativa do Itaú BBA é de que a demanda por etanol avance a partir de agosto, favorecida pela vantagem econômica do biocombustível e pelo maior número de dias úteis para comercialização.
Nos postos de São Paulo, a paridade média entre o preço do etanol e o da gasolina permanece abaixo de 60% desde o início de junho. O percentual torna o abastecimento com o biocombustível mais vantajoso para os proprietários de veículos flex.
Em geral, o etanol é considerado competitivo quando seu preço corresponde a até 70% do valor da gasolina. Essa relação pode variar conforme a eficiência energética de cada veículo, mas o patamar abaixo de 60% amplia significativamente a atratividade econômica.
A vantagem não está restrita ao mercado paulista. Atualmente, o etanol apresenta maior competitividade em dez estados, responsáveis conjuntamente por cerca de dois terços da demanda brasileira por combustíveis leves.
Mistura de 32% na gasolina amplia consumo de etanol anidro
Outro fator de sustentação é o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, que passou de 30% para 32% em 1º de agosto.
A mudança eleva estruturalmente o consumo do biocombustível, independentemente da escolha feita pelo motorista no momento do abastecimento. Dessa maneira, o avanço da mistura oferece suporte adicional às usinas e pode contribuir para reduzir a disponibilidade acumulada no mercado interno.
O etanol hidratado é vendido diretamente nos postos para veículos flex, enquanto o anidro é adicionado obrigatoriamente à gasolina. A combinação entre maior procura pelo hidratado e aumento da mistura do anidro será determinante para o equilíbrio do setor.
Subvenção de até R$ 1,2 bilhão reforça proteção ao setor
A aprovação do Projeto de Lei Complementar nº 114/2026 pelo Congresso Nacional, em 12 de agosto, também ampliou a proteção à cadeia produtiva. A proposta prevê uma subvenção de até R$ 1,2 bilhão destinada ao etanol.
A medida surge em um cenário de custos financeiros elevados, estoques expressivos e dificuldades para ampliar as vendas externas. O apoio pode ajudar a reduzir parte das perdas enfrentadas pelos agentes do setor, embora o avanço consistente dos preços ainda dependa do crescimento efetivo da demanda.
Mercado precisa absorver 2 bilhões de litros por mês
Apesar dos sinais positivos, a oferta elevada continua sendo o principal desafio. Segundo a análise, o mercado precisa absorver aproximadamente 2 bilhões de litros de etanol por mês para evitar o acúmulo excessivo dos estoques de passagem.
A velocidade dessa absorção será decisiva para a formação das cotações nos próximos meses. Caso o consumo avance abaixo do necessário, a disponibilidade elevada poderá limitar novas valorizações.
O ambiente de juros altos aumenta a pressão porque encarece a manutenção dos estoques. Quanto maior o período de armazenamento, maior tende a ser o custo financeiro suportado pelas usinas e distribuidoras.
Esse cenário pode estimular vendas antecipadas e ampliar a oferta em determinados momentos, dificultando uma recuperação mais consistente dos preços.
Tarifa nos Estados Unidos limita exportações brasileiras
O mercado externo permanece com capacidade reduzida para absorver o excedente brasileiro. Desde 22 de julho, o etanol do Brasil está sujeito a uma tarifa de 37,5% nos Estados Unidos, medida que diminui a competitividade do produto no mercado norte-americano.
Ao mesmo tempo, o avanço das exportações de etanol produzido nos Estados Unidos para outros destinos amplia a concorrência internacional e restringe as oportunidades comerciais para as usinas brasileiras.
Com menor espaço no exterior, o crescimento do consumo doméstico ganha ainda mais importância para o equilíbrio entre oferta e demanda.
Recuperação do etanol ainda precisa se consolidar
Para Mariana Zechin, analista da Consultoria Agro do Itaú BBA, a recente valorização representa um primeiro sinal positivo, mas ainda não confirma uma mudança definitiva na trajetória do mercado.
“A recente recuperação dos preços é um primeiro sinal de melhora, mas ainda não representa uma mudança consolidada de cenário. Para que o mercado entre de fato em um novo ciclo de valorização, será fundamental que o aumento da competitividade do etanol se traduza em maior consumo e acelere a absorção dos estoques ao longo dos próximos meses”, afirma.
A perspectiva para o restante do ano dependerá, portanto, da combinação entre consumo nos postos, maior demanda por etanol anidro, ritmo de produção das usinas, comportamento dos estoques e possibilidades de exportação.
Se a vantagem sobre a gasolina estimular o abastecimento com etanol e a mistura obrigatória ampliar a procura pelo anidro, o mercado poderá entrar em uma fase de maior equilíbrio. Sem uma aceleração efetiva da demanda, porém, a oferta elevada continuará limitando novas altas.
Fonte: Portal do Agronegócio
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