Preço do milho sobe quase 6% em agosto, mas queda em Chicago reforça alerta para proteção
Oferta restrita no Brasil, exportações firmes e menor disponibilidade global sustentam cotações, enquanto realização de lucros no exterior aumenta necessidade de vendas e compras escalonadas
Publicado em: 31/08/2026 às 11:50hs
O preço do milho continua avançando no mercado brasileiro, apesar da proximidade do fim da colheita da segunda safra e das estimativas de produção recorde. O Indicador ESALQ/BM&FBovespa, referente à região de Campinas (SP), acumula valorização de 5,8% em agosto até o dia 27, segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea).
A sustentação doméstica ocorre em um ambiente de menor disponibilidade imediata, vendas pontuais dos produtores e necessidade de recomposição dos estoques por parte dos compradores. No exterior, entretanto, os contratos futuros começaram a semana em queda na Bolsa de Chicago, pressionados pela desvalorização do trigo e pela realização de lucros após os fortes ganhos recentes.
A combinação entre preços firmes no Brasil e volatilidade internacional reforça a importância de estratégias de comercialização, hedge e compras escalonadas para produtores, cooperativas, cerealistas e indústrias consumidoras.
Oferta limitada sustenta preço do milho no Brasil
Mesmo com a colheita da segunda safra em fase final, produtores continuam restringindo as vendas à espera de preços mais elevados. As recentes valorizações nas bolsas internacionais e no mercado físico brasileiro aumentaram a disposição dos vendedores para aguardar novas oportunidades.
Do lado da demanda, compradores resistem aos valores pedidos, mas acabam aceitando preços mais altos quando precisam adquirir lotes para entrega imediata. Outra parcela das indústrias utiliza os estoques disponíveis para evitar compras em momentos de maior valorização.
Esse comportamento reduz a liquidez e mantém as negociações concentradas em operações pontuais. Ainda assim, a menor oferta imediata tem prevalecido sobre o potencial de produção recorde, impulsionando o Indicador do milho em Campinas.
Milho fecha semana em alta na B3
Os contratos futuros negociados na B3 encerraram a semana valorizados. O vencimento setembro de 2026 fechou cotado a R$ 71,50 por saca, com avanço de R$ 0,21 no dia e de R$ 0,20 na semana.
O contrato para novembro terminou em R$ 77,90 por saca, registrando alta diária de R$ 0,25 e valorização semanal de R$ 0,72. Janeiro de 2027 encerrou negociado a R$ 81 por saca.
No acumulado semanal, os futuros do milho avançaram 5,89% em Chicago, 1,88% em Paris e 0,92% na Argentina. No mesmo período, o dólar subiu 1%, enquanto o mercado físico brasileiro teve valorização média de 2,37%, conforme dados reunidos pela TF Agroeconômica.
A faixa entre R$ 68 e R$ 68,50 por saca permanece como referência técnica importante para a sustentação da tendência positiva no mercado brasileiro.
Chicago recua após fortes altas do milho e do trigo
Apesar dos ganhos acumulados na semana anterior, os contratos futuros do milho abriram esta segunda-feira (31) em queda na Bolsa de Chicago. Por volta das 9h44, no horário de Brasília, os principais vencimentos operavam no campo negativo.
O contrato setembro de 2026 era negociado a US$ 5,09 por bushel, com queda de 3 pontos. Dezembro de 2026 recuava 4,25 pontos, para US$ 5,32 por bushel, enquanto março de 2027 era cotado a US$ 5,46, também com baixa de 4,25 pontos. Maio de 2027 perdia 3,50 pontos, negociado a US$ 5,53 por bushel.
A pressão veio principalmente do mercado do trigo, que registrou forte realização de lucros depois de alcançar o maior patamar em três anos. As vendas técnicas no cereal acabaram contaminando as negociações do milho.
O trigo havia disparado após a região de Rostov, na Rússia, declarar estado de emergência em meio a ataques contra portos, navios e estruturas utilizadas para o transporte de grãos. Os conflitos entre Rússia e Ucrânia voltaram a aumentar a preocupação com a oferta agrícola na região do Mar Negro.
Depois das altas expressivas, investidores reduziram posições compradas e realizaram parte dos lucros, provocando uma correção nos contratos agrícolas.
Menor oferta global mantém mercado do milho sustentado
Apesar da queda pontual em Chicago, o cenário internacional ainda apresenta fatores favoráveis às cotações. Entre eles estão a perspectiva de menor oferta potencial nos Estados Unidos e na Europa, as dificuldades logísticas para a exportação de grãos ucranianos e o desempenho firme das vendas externas norte-americanas.
Esses elementos contribuíram para a valorização recente do milho e continuam oferecendo suporte ao mercado. Ao mesmo tempo, o movimento de correção mostra que os preços podem apresentar oscilações intensas após várias sessões consecutivas de alta.
Em Chicago, a região entre 540 e 550 centavos de dólar por bushel representa uma faixa importante de atenção. Uma eventual queda abaixo dos 500 centavos poderá sinalizar perda de força e aumentar a necessidade de proteção das posições.
Preço do milho sobe no Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, as indicações estão entre R$ 58 e R$ 65 por saca, dependendo da região, da qualidade e das condições de entrega. A média estadual calculada pela Emater subiu 1,53%, alcançando R$ 60,23 por saca.
Ao mesmo tempo, o plantio da safra 2026/27 avança de maneira desigual. A evolução dos trabalhos depende da umidade disponível e da distribuição das chuvas, com maior progresso observado em áreas do Noroeste gaúcho.
A combinação entre comercialização restrita e incertezas durante o início da nova safra contribui para a postura cautelosa dos agentes.
Déficit de milho mantém Santa Catarina dependente de compras
Em Santa Catarina, as referências de venda permanecem próximas de R$ 60 por saca, enquanto a demanda indica valores ao redor de R$ 55.
O Estado consome aproximadamente 8,5 milhões de toneladas de milho por ano, principalmente para abastecer as cadeias de aves e suínos. A produção da safra 2025/26 foi estimada em 2,67 milhões de toneladas, resultando em déficit próximo de 6 milhões de toneladas.
A diferença entre produção e consumo mantém Santa Catarina dependente da compra de milho de outros Estados e países. Esse déficit estrutural tende a sustentar a procura e ampliar a busca por alternativas de abastecimento.
Preço do milho no Paraná sobe 11% em um ano
No Paraná, a colheita da segunda safra alcançou 83% da área, enquanto o plantio do ciclo 2026/27 chegou a 6%.
O preço recebido pelo produtor encerrou a semana em R$ 56,79 por saca, com alta de 7,8% em relação a julho e de 11% na comparação com agosto de 2025.
A valorização ocorre mesmo com a entrada do milho da segunda safra, refletindo a retenção dos vendedores e a recuperação das cotações internacionais.
Em Mato Grosso do Sul, os preços variam entre R$ 50 e R$ 55 por saca. A demanda da indústria de bioenergia, especialmente das usinas de etanol de milho, oferece suporte adicional ao mercado regional.
Produtor deve aproveitar alta sem vender todo o estoque
Diante da valorização recente, a orientação da TF Agroeconômica é que os produtores comercializem parcelas do milho disponível, preservando parte do estoque para participar de uma eventual continuidade da alta.
Para a produção futura, a recomendação é adotar proteção gradual. Uma das estratégias sugeridas consiste em fixar inicialmente 30% do volume por meio de hedge na B3, proteger outros 30% caso ocorram novas altas e manter o restante aberto.
O objetivo é transformar parte da valorização atual em margem protegida, reduzindo a exposição a possíveis correções sem retirar completamente o produtor do mercado.
Cooperativas e cerealistas precisam controlar risco dos estoques
Para as cooperativas, a recomendação é realizar vendas graduais e ampliar a proteção conforme as cotações avancem. A estratégia reduz o risco de carregar grandes estoques comprados a preços elevados durante uma eventual mudança de tendência.
Os cerealistas também devem evitar aquisições baseadas exclusivamente na expectativa de novas altas. Antes de fechar uma operação, é necessário calcular a margem de carregamento, considerando preço físico, cotação futura, frete, armazenagem, custo financeiro e despesas com hedge.
Em um mercado volátil, a valorização nominal do milho não garante rentabilidade quando os custos para manter o produto armazenado aumentam na mesma proporção.
Indústrias devem escalonar compras de milho
As fábricas de ração enfrentam uma alta simultânea do milho e do farelo de soja, dois dos principais componentes da alimentação animal. Nesse cenário, a estratégia indicada é ampliar a cobertura das necessidades imediatas, manter proteção intermediária para cerca de 60 dias e cobertura parcial para 90 dias.
Para as usinas de etanol de milho, a proteção deve considerar não apenas o custo do cereal, mas também os preços do etanol, do DDG, do óleo de milho e a margem industrial projetada.
Quando a relação entre matéria-prima e produtos finais assegurar rentabilidade, a fixação de parte das compras futuras pode reduzir a exposição a novas valorizações.
Mercado do milho permanece firme, mas sujeito a correções
A alta de 5,8% do Indicador do milho em agosto confirma a firmeza do mercado brasileiro. A restrição das vendas, a demanda pontual, o avanço das exportações e a valorização internacional compensam, até o momento, a pressão esperada com a produção recorde.
A queda registrada em Chicago no início da semana, porém, mostra que o mercado pode corrigir rapidamente após movimentos fortes. Para os diferentes agentes da cadeia, o cenário recomenda equilíbrio: aproveitar as oportunidades atuais, proteger margens e escalonar decisões de compra e venda.
Fonte: Portal do Agronegócio
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