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Etanol reage para R$ 2,20 por litro, mas excesso de oferta mantém mercado sob pressão

Biocombustível mantém ampla vantagem sobre a gasolina e nova mistura de 32% aumenta consumo de anidro; mercado precisa absorver cerca de 2 bilhões de litros por mês


Publicado em: 20/08/2026 às 18:40hs

Etanol reage para R$ 2,20 por litro, mas excesso de oferta mantém mercado sob pressão

O preço do etanol voltou a subir no início de agosto após atingir o menor valor nominal desde janeiro de 2024. A recuperação, entretanto, ainda depende de uma reação consistente do consumo doméstico, diante da oferta elevada e das dificuldades enfrentadas pelas exportações brasileiras.

A análise consta no Agro Mensal de agosto, relatório divulgado pela Consultoria Agro do Itaú BBA. Segundo o levantamento, a competitividade do etanol em relação à gasolina e o aumento da mistura obrigatória de anidro representam fatores positivos, mas o risco de acúmulo de estoques permanece elevado.

Etanol cai 9% e atinge R$ 2,05 por litro

O mercado brasileiro de etanol atravessou um período de forte desvalorização em julho.

O indicador semanal do etanol hidratado combustível recebido pelo produtor no Estado de São Paulo recuou 9% ao longo do mês, atingindo R$ 2,05 por litro.

O valor foi o menor em termos nominais desde janeiro de 2024. A queda excessiva desestimulou novos negócios e abriu espaço para uma correção das cotações durante agosto.

Os preços apresentados pelo levantamento são líquidos, sem impostos e fretes, e representam os valores recebidos pelos produtores paulistas.

Preço reage para perto de R$ 2,20 por litro

Ao final da primeira quinzena de agosto, o etanol hidratado voltou a ser negociado próximo de R$ 2,20 por litro no mercado paulista.

A recuperação foi favorecida pela valorização do açúcar, pelo comportamento do câmbio e pela expectativa de retomada da demanda por biocombustível.

O rally do açúcar tornou a produção da commodity mais atrativa para as usinas, reduzindo o incentivo para uma destinação ainda maior da cana ao etanol. Essa relação entre os dois produtos ajuda a equilibrar a oferta dentro do setor sucroenergético.

Apesar da reação, o Itaú BBA avalia que uma mudança consistente na trajetória dos preços dependerá principalmente do aumento do consumo.

Etanol custa menos de 60% do preço da gasolina em São Paulo

A relação entre os preços do etanol hidratado e da gasolina permanece amplamente favorável ao biocombustível.

Nos postos paulistas, a paridade média está abaixo de 60% desde o início de junho. Esse percentual coloca o etanol muito abaixo da referência tradicional de competitividade, geralmente próxima de 70%, embora a relação efetiva possa variar conforme o rendimento de cada veículo.

Com essa diferença, o consumidor abastecido por veículos flex encontra uma vantagem econômica significativa ao escolher o etanol.

Segundo o relatório, o biocombustível tornou-se mais vantajoso em dez estados, que juntos representam aproximadamente dois terços da demanda brasileira por combustíveis leves.

Agosto pode registrar recuperação do consumo

A expectativa é de uma reação mais consistente da demanda a partir de agosto.

Além da manutenção de preços competitivos por um período prolongado, o mês possui maior número de dias úteis para comercialização. Esse fator pode favorecer as vendas das distribuidoras e o consumo nos postos.

Julho costuma apresentar menor dinamismo no mercado de combustíveis, o que limitou a reação da demanda mesmo diante da elevada vantagem econômica do etanol.

A permanência da paridade abaixo de 60% tende a estimular uma migração mais intensa da gasolina para o hidratado ao longo dos próximos meses.

Mistura de etanol anidro sobe de 30% para 32%

Outro fator positivo para o setor foi o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina.

O percentual passou de 30% para 32% a partir de 1º de agosto, ampliando automaticamente a demanda pelo biocombustível.

A elevação da mistura cria um consumo adicional estrutural para as usinas e pode ajudar a reduzir o excesso de oferta no mercado interno.

O avanço também fortalece a participação dos combustíveis renováveis na matriz brasileira e aumenta a importância do etanol para a redução das emissões no transporte.

Mercado precisa absorver 2 bilhões de litros por mês

Mesmo com os estímulos à demanda, o mercado enfrenta um quadro de oferta abundante.

Segundo o Itaú BBA, será necessária a absorção imediata de aproximadamente 2 bilhões de litros por mês para impedir o crescimento excessivo dos estoques.

Caso o consumo não responda, o excedente poderá elevar os estoques de passagem ao final da temporada. Esse cenário aumentaria a pressão sobre os preços e poderia prolongar o período de margens reduzidas para as usinas.

O problema é agravado pelos juros elevados, que encarecem o carregamento dos estoques e aumentam a necessidade de capital de giro das empresas.

Estoques elevados podem voltar a pressionar cotações

O armazenamento de grandes volumes representa um custo relevante para o setor sucroenergético.

Além das despesas operacionais, as usinas enfrentam custos financeiros para manter o produto estocado. Em um ambiente de juros elevados, esse carregamento torna-se ainda mais oneroso.

Caso as empresas precisem liberar espaço nos tanques ou levantar recursos, poderão aumentar as vendas e provocar nova pressão sobre as cotações.

Por isso, a reação da demanda durante agosto e setembro será decisiva para o equilíbrio do mercado.

Exportações brasileiras permanecem limitadas

O mercado externo oferece pouco espaço para absorver os excedentes brasileiros.

Entre abril e julho de 2026, as exportações de etanol somaram aproximadamente 314 milhões de litros. Desse total, apenas cerca de 36 milhões de litros foram destinados aos Estados Unidos.

No mesmo período de 2025, os embarques totais haviam alcançado aproximadamente 319 milhões de litros, com 124 milhões enviados ao mercado norte-americano.

Os números indicam estabilidade no volume total, mas uma forte redução das vendas para os Estados Unidos.

Exportações acumuladas entre abril e julho
  • Exportações totais em 2026: aproximadamente 314 milhões de litros;
  • Vendas aos Estados Unidos: cerca de 36 milhões de litros;
  • Exportações totais em 2025: aproximadamente 319 milhões de litros;
  • Vendas aos Estados Unidos em 2025: cerca de 124 milhões de litros.
Tarifa dos Estados Unidos reduz competitividade brasileira

As exportações foram prejudicadas pela tarifa de 37,5% aplicada pelos Estados Unidos ao etanol brasileiro a partir de 22 de julho, conforme o relatório.

A cobrança reduz a competitividade do produto nacional e limita o acesso a um dos principais mercados consumidores mundiais.

Ao mesmo tempo, o etanol norte-americano ampliou sua participação em diferentes destinos globais, aumentando a concorrência enfrentada pelos exportadores brasileiros.

Com o canal externo limitado, uma parcela maior da oferta precisa ser absorvida pelo mercado doméstico.

Aprovação de projeto representa avanço para o setor

O relatório também destaca como positiva a aprovação do Projeto de Lei Complementar nº 114/2026 pela Câmara dos Deputados e pelo Senado em 12 de agosto.

A iniciativa, somada ao aumento da mistura de anidro na gasolina, melhora as perspectivas para a demanda interna.

Os efeitos dessas medidas, entretanto, precisam ser acompanhados ao longo dos próximos meses para avaliar se serão suficientes para absorver a oferta disponível e reduzir os estoques.

Açúcar influencia decisão das usinas

A relação entre os preços do açúcar e do etanol continuará sendo determinante para a composição do mix das usinas.

Quando o açúcar oferece maior rentabilidade, as empresas tendem a direcionar uma parcela maior da cana para a produção da commodity. Quando o etanol se torna mais remunerador, cresce a fabricação do biocombustível.

A recente valorização do açúcar oferece algum suporte ao mercado de etanol porque reduz o risco de ampliação da produção do biocombustível em um momento de oferta já elevada.

O comportamento das cotações internacionais do açúcar, portanto, continuará influenciando diretamente o equilíbrio do etanol no Brasil.

Perspectiva depende da resposta do consumidor

O cenário para o etanol apresenta sinais positivos, mas ainda não confirma uma reversão definitiva da tendência de baixa.

A ampla vantagem em relação à gasolina, o aumento da mistura obrigatória e o maior número de dias úteis em agosto podem estimular o consumo. Por outro lado, a oferta abundante, os estoques elevados e as dificuldades para exportar limitam o potencial de valorização.

Para que os preços se sustentem acima de R$ 2,20 por litro, será necessário um crescimento efetivo das vendas nas distribuidoras e nos postos.

A resposta do consumidor será, portanto, o principal fator para o mercado brasileiro de etanol nos próximos meses.

Fonte: Portal do Agronegócio

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