El Niño forte pode elevar IPCA em até 0,83 ponto percentual, aponta Rabobank
Estudo estima que os efeitos do fenômeno climático atinjam o pico em seis meses, pressionados inicialmente pelos alimentos in natura e, depois, pelos produtos semi-elaborados e industrializados
Publicado em: 20/08/2026 às 19:40hs
Um episódio forte de El Niño pode acrescentar aproximadamente 0,83 ponto percentual ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) após seis meses. A estimativa integra estudo especial do RaboResearch, do Rabobank, que avaliou os efeitos das alterações climáticas sobre a produção agropecuária e os preços dos alimentos no Brasil.
A análise mostra que o impacto começa no campo, com mudanças nos regimes de chuva e temperatura, e chega gradualmente ao consumidor. Os alimentos in natura são os primeiros e mais intensamente afetados, mas eventos climáticos mais severos também podem provocar aumentos nos preços dos produtos semi-elaborados e industrializados.
Elaborado pelos economistas Mauricio Une e Renan Alves, o estudo utilizou dados da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e do próprio Rabobank.
El Niño altera chuvas e afeta oferta agrícola
O El Niño-Oscilação Sul, conhecido pela sigla ENSO, é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. O fenômeno interfere na circulação atmosférica e pode modificar as condições de temperatura e precipitação em diferentes partes do mundo.
No Brasil, os episódios de El Niño costumam ser associados ao aumento das chuvas na Região Sul e a condições mais secas em áreas do Norte e Nordeste. Essas mudanças podem comprometer a produtividade das lavouras, a qualidade das safras e a disponibilidade de alimentos.
Com menor oferta ou dificuldades na produção e no abastecimento, os preços das commodities agrícolas e dos alimentos vendidos ao consumidor tendem a sofrer pressão.
Probabilidade de El Niño forte chega a 80% no fim do ano
O monitoramento da intensidade do fenômeno é realizado por meio do Índice Oceânico Niño, o ONI. O indicador considera as variações na temperatura da superfície do Oceano Pacífico Equatorial.
Valores superiores a 0,5 grau Celsius na média móvel trimestral indicam um episódio moderado. Quando a anomalia supera 1 grau Celsius, o evento é classificado como forte.
Conforme os dados da NOAA considerados no relatório, as probabilidades para agosto estavam distribuídas da seguinte maneira:
- 26% de possibilidade de El Niño moderado;
- 57% de probabilidade de El Niño forte;
- 16% de possibilidade de evento muito forte.
Para o fim do ano, o cenário apontado pelo estudo é mais preocupante: a possibilidade de ocorrência de um El Niño forte chega a aproximadamente 80%.
Alimentos in natura sentem primeiro os efeitos do clima
A transmissão dos choques climáticos não acontece de forma uniforme entre os diferentes grupos de alimentos. Frutas, legumes, verduras e outros produtos in natura respondem mais rapidamente às alterações na oferta porque dependem diretamente das condições observadas no campo.
Os alimentos semi-elaborados absorvem os efeitos de maneira mais gradual, principalmente por meio do aumento dos custos das matérias-primas agropecuárias.
Nos produtos industrializados, os repasses costumam ser mais moderados. Isso ocorre porque o preço final também incorpora despesas com processamento, embalagens, transporte, distribuição e comercialização.
A intensidade e a duração do impacto dependem ainda da severidade do El Niño, das condições de cada safra e do ambiente macroeconômico.
El Niño moderado pode elevar inflação dos in natura em 13,4 pontos
Para mensurar os efeitos sobre os preços, o Rabobank utilizou um modelo de projeção local não linear. A metodologia permite estimar tanto o impacto inicial do choque quanto sua propagação ao longo do tempo.
O modelo incorporou variáveis como o Índice de Preços ao Produtor Amplo Agropecuário, o nível de atividade econômica, a taxa Selic, o câmbio, as expectativas de inflação e o próprio indicador utilizado para acompanhar o ENSO.
Os resultados mostram que o impacto inflacionário tende a alcançar seu ponto máximo aproximadamente seis meses após o início do choque climático.
Em um evento moderado, a inflação acumulada em 12 meses dos alimentos in natura pode aumentar 13,4 pontos percentuais no sexto mês. Considerando o peso desse grupo no IPCA, a contribuição direta seria próxima de 0,36 ponto percentual.
Somados os efeitos sobre alimentos semi-elaborados e industrializados, o impacto estimado de um El Niño moderado sobre o IPCA cheio alcança aproximadamente 0,41 ponto percentual.
Evento forte amplia pressão sobre diferentes alimentos
Em episódios classificados como fortes, o choque torna-se mais intenso e se dissemina por um número maior de componentes da alimentação no domicílio.
Segundo as estimativas do Rabobank, após seis meses, as contribuições para o IPCA seriam aproximadamente:
- 0,53 ponto percentual dos alimentos in natura;
- 0,20 ponto percentual dos alimentos semi-elaborados;
- 0,11 ponto percentual dos alimentos industrializados.
O impacto agregado pode chegar a cerca de 0,83 ponto percentual no IPCA. Os cálculos mostram que, quanto mais intenso o fenômeno, maior a possibilidade de o aumento inicial dos alimentos frescos chegar aos demais segmentos da cadeia.
Em horizontes mais longos, o modelo aponta uma reversão parcial dos efeitos. Esse movimento pode ocorrer com a normalização das condições climáticas e a recuperação da oferta agrícola.
Dessa forma, o impacto é considerado economicamente relevante, mas não necessariamente permanente.
Porto Alegre, Curitiba e São Paulo estão entre as áreas mais expostas
O estudo também identificou diferenças na velocidade e na intensidade dos impactos entre as regiões metropolitanas brasileiras.
Os efeitos de curto prazo mais elevados aparecem em:
- Porto Alegre;
- Curitiba;
- São Paulo;
- Rio de Janeiro;
- Goiânia;
- Brasília;
- Fortaleza;
- Belém.
Salvador e Recife apresentam respostas inicialmente menos intensas. Nessas localidades, entretanto, a pressão sobre os preços pode persistir por um período maior, indicando transmissão mais gradual do choque climático.
De forma geral, as regiões com maior exposição aos alimentos in natura tendem a registrar aumentos mais rápidos e intensos. Já as áreas onde outros produtos têm participação maior na cesta de consumo apresentam repasses mais lentos.
As diferenças também refletem as características das cadeias locais de produção, transporte e abastecimento.
Pico da inflação pode ocorrer entre três e seis meses
As projeções indicam que os efeitos de um El Niño forte sobre a inflação de alimentos tendem a atingir o pico entre três e seis meses depois do choque.
Nos eventos moderados, as variações são menores, embora ainda possam ser relevantes em determinadas regiões e categorias de alimentos.
A defasagem entre a mudança climática e o aumento dos preços ocorre porque o impacto percorre diferentes etapas. Primeiro, as condições adversas afetam a produção e a produtividade. Em seguida, surgem possíveis limitações na oferta, aumento dos custos e dificuldades logísticas. Por fim, esses efeitos chegam ao atacado e ao varejo.
Choque climático desafia condução da política monetária
O Rabobank destaca que parte da volatilidade da inflação dos alimentos decorre de choques de oferta, e não do crescimento da demanda.
Essa distinção é importante para a política monetária. A elevação dos juros pode reduzir o consumo e a atividade econômica, mas tem capacidade limitada para ampliar rapidamente a produção agrícola ou reverter perdas causadas por seca, excesso de chuva e temperaturas desfavoráveis.
Por isso, a análise deve considerar não apenas a ocorrência do fenômeno climático, mas também sua duração e seu potencial de disseminação para outros grupos do índice de preços.
Choques temporários e concentrados nos alimentos tendem a produzir efeitos mais limitados sobre a inflação geral. O risco aumenta quando a pressão persiste ou se espalha para produtos industrializados, serviços, expectativas inflacionárias e outros componentes do IPCA.
Nesse cenário, diferenciar movimentos transitórios de pressões persistentes será fundamental para as decisões da autoridade monetária.
El Niño reforça atenção sobre safras e preços dos alimentos
As estimativas confirmam que o clima permanece como uma variável decisiva para a inflação brasileira. A exposição do país à produção agropecuária e o peso dos alimentos no orçamento das famílias ampliam a importância do acompanhamento das condições meteorológicas.
A intensidade do El Niño, a distribuição regional das chuvas, o desempenho das safras e a capacidade de abastecimento definirão o alcance efetivo dos impactos.
Caso o fenômeno se confirme com força elevada, a pressão deverá começar pelos alimentos in natura e avançar gradualmente para outras categorias. Além dos riscos para a produção rural, o cenário poderá dificultar a desaceleração da inflação e exigir maior atenção do mercado e da política econômica nos meses seguintes.
Fonte: Portal do Agronegócio
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