Açúcar supera 16 centavos em Nova York com déficit global maior e queda da produção no Brasil
Itaú BBA eleva déficit mundial para 1,4 milhão de toneladas em 2026/27; menor qualidade da cana pode limitar produção do Centro-Sul a 39,4 milhões de toneladas
Publicado em: 20/08/2026 às 20:00hs
O mercado internacional de açúcar voltou a ganhar força em agosto, após um período de preços pressionados e demanda enfraquecida. A revisão do déficit global, os problemas climáticos na Europa e a queda da produção no Centro-Sul do Brasil levaram o contrato nº 11 da Bolsa de Nova York a superar 16 centavos de dólar por libra-peso.
A análise consta no Agro Mensal de agosto, relatório divulgado pela Consultoria Agro do Itaú BBA. Apesar da recuperação, a instituição recomenda cautela, uma vez que a demanda física continua fraca e os estoques permanecem confortáveis em importantes países consumidores.
Açúcar rompe barreira de 16 centavos em Nova York
Em julho, o contrato nº 11 com vencimento em outubro, o mais negociado na Bolsa de Nova York, aproximou-se de 15 centavos de dólar por libra-peso e chegou a superar pontualmente esse patamar.
A valorização acompanhou o avanço das commodities energéticas, mas perdeu força diante da ampla disponibilidade de açúcar no curto prazo, da recuperação das chuvas de monção na Ásia e da demanda internacional enfraquecida.
A reação mais consistente ocorreu em agosto, quando as cotações romperam a marca de 16 centavos de dólar por libra-peso.
Segundo o Itaú BBA, o avanço representa uma correção, já que preços inferiores a 15 centavos se mostravam incompatíveis com a perspectiva de déficit no balanço mundial da safra 2026/27.
Déficit global dobra para 1,4 milhão de toneladas
As sucessivas revisões do balanço mundial mudaram as expectativas para o mercado.
O Itaú BBA elevou sua estimativa de déficit global de açúcar em 2026/27 de 700 mil para 1,4 milhão de toneladas. A nova projeção representa o dobro do desequilíbrio esperado anteriormente.
A revisão foi motivada principalmente pela queda da produtividade da beterraba açucareira na Europa, atingida por uma onda de calor intenso e por chuvas abaixo do necessário.
Para a temporada 2027/28, a consultoria Czarnikow projeta déficit ainda maior, de 2,9 milhões de toneladas. Essa perspectiva adiciona suporte aos contratos de médio e longo prazos.
Calor e seca reduzem produção de açúcar na Europa
As condições climáticas adversas comprometeram o potencial produtivo da beterraba na União Europeia.
A estimativa do Itaú BBA aponta redução próxima de 3 milhões de toneladas na produção de açúcar do bloco. O impacto, entretanto, não deverá provocar um aumento proporcional das importações.
Os estoques europeus permanecem confortáveis. Até 31 de maio, o volume armazenado estava 12% acima do registrado no mesmo período de 2025.
O estoque de passagem projetado deverá ser o maior dos últimos cinco anos. Essa disponibilidade reduz a necessidade de compras externas e limita o potencial de valorização do mercado internacional.
Índia volta ao radar como possível importadora
Na Índia, a previsão de chuvas abaixo da média durante agosto e a maior intervenção do governo para conter a inflação dos alimentos reacenderam os rumores de importação de açúcar.
A possibilidade de o país entrar no mercado comprador oferece suporte às cotações, já que a Índia ocupa posição estratégica entre os maiores produtores, consumidores e exportadores mundiais.
O relatório, contudo, destaca que as importações ainda não são economicamente viáveis. O custo do açúcar estrangeiro, agravado pela desvalorização da rúpia, permanece superior ao preço praticado no mercado doméstico.
Produção indiana pode superar 29 milhões de toneladas
O Itaú BBA trabalha com uma estimativa de 29 milhões de toneladas de açúcar produzidas pela Índia na safra 2026/27.
A projeção apresenta possibilidade de revisão positiva, principalmente diante da expectativa de menor destinação de cana-de-açúcar para a fabricação de etanol.
Caso as usinas indianas direcionem uma parcela maior da matéria-prima para o açúcar, a oferta poderá superar as projeções atuais e reduzir a necessidade de importação.
Esse fator representa um risco de baixa para as cotações internacionais.
China projeta produção recorde de açúcar
A perspectiva de uma produção recorde na China também limita o potencial de valorização.
Uma safra chinesa maior reduz a dependência das importações e aumenta a disponibilidade interna em um dos principais mercados consumidores mundiais.
A combinação entre produção elevada na China, possibilidade de safra maior na Índia e estoques confortáveis na Europa ajuda a explicar por que o déficit global ainda não provocou uma alta mais intensa dos preços.
Produção de açúcar recua no Centro-Sul do Brasil
Os dados divulgados pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) e pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) mostraram redução na produção de açúcar do Centro-Sul.
A divulgação fortaleceu o movimento de alta na Bolsa de Nova York, uma vez que o Brasil é o maior produtor e exportador mundial da commodity.
O recuo está relacionado à menor moagem, à qualidade reduzida da cana e às limitações operacionais enfrentadas pelas usinas.
Mesmo com uma remuneração favorável ao açúcar, nem todas as unidades possuem flexibilidade suficiente para elevar rapidamente a participação do produto no mix.
Mix açucareiro cai de 52% para 44,2%
Até o final de julho, 44,2% da matéria-prima processada no Centro-Sul foi destinada à produção de açúcar, segundo os dados do Mapa citados pelo relatório.
No mesmo período de 2025, o mix açucareiro estava em 52%.
A diferença de 7,8 pontos percentuais evidencia a dificuldade das usinas para ampliar a fabricação da commodity, apesar dos incentivos econômicos.
A qualidade mais baixa da cana e as restrições industriais reduzem a capacidade de converter uma parcela maior do caldo em açúcar.
Centro-Sul pode produzir 39,4 milhões de toneladas
O Itaú BBA mantém sua projeção de moagem de 644,8 milhões de toneladas de cana para a região Centro-Sul na safra 2026/27.
Com um mix açucareiro estimado em 46,4%, a produção deverá alcançar 39,4 milhões de toneladas.
Projeções para o Centro-Sul em 2026/27
- Moagem de cana: 644,8 milhões de toneladas;
- Mix destinado ao açúcar: 46,4%;
- Produção de açúcar: 39,4 milhões de toneladas;
- Qualidade da matéria-prima: 138,3 quilos de ATR por tonelada;
- Mix observado até julho: 44,2%;
- Mix registrado no mesmo período de 2025: 52%.
Qualidade da cana pode provocar nova revisão
A qualidade da matéria-prima aparece como um dos principais riscos para a produção brasileira.
O relatório projeta 138,3 quilos de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR) por tonelada de cana. A estimativa, entretanto, apresenta forte possibilidade de revisão negativa.
Um ATR menor significa que cada tonelada de cana entrega menos açúcar e etanol, reduzindo a eficiência industrial e o volume final produzido.
Caso a qualidade permaneça abaixo do esperado, a produção de açúcar do Centro-Sul poderá ficar abaixo dos 39,4 milhões de toneladas projetadas.
Exportações brasileiras mostram perda de ritmo
Apesar do déficit esperado, a demanda física internacional permanece fraca.
O Itaú BBA aponta redução das exportações brasileiras, descontos relevantes nos preços FOB em Santos e baixa movimentação na programação de navios.
Esses sinais indicam menor disposição dos compradores para fechar novos negócios, limitando a sustentação do mercado.
A diferença entre a valorização dos contratos futuros e a fragilidade das negociações físicas recomenda cautela na interpretação do rally observado em Nova York.
Demanda fraca limita potencial de alta
O balanço mundial deficitário representa um fator positivo para os preços, mas não garante uma trajetória contínua de valorização.
Para que a alta se sustente, será necessário observar maior procura dos importadores, crescimento do line-up brasileiro e redução dos descontos nos portos.
Enquanto a demanda física permanecer enfraquecida, os fundos financeiros poderão impulsionar os contratos futuros, mas o mercado estará sujeito a correções e realização de lucros.
Relação com o etanol influencia produção
A paridade entre açúcar e etanol continuará determinante para as decisões das usinas brasileiras.
Quando o açúcar oferece maior retorno, cresce o incentivo para destinar mais cana à commodity. No entanto, o aumento da produção depende da qualidade da matéria-prima e da capacidade técnica de cada unidade.
O recente avanço do açúcar também oferece suporte indireto aos preços do etanol, pois reduz o incentivo para ampliar a oferta do biocombustível em um momento de estoques elevados.
Mercado do açúcar exige cautela
Os fundamentos de médio prazo ficaram mais positivos após a revisão do déficit global e os problemas climáticos na Europa. A menor produção brasileira e o risco de queda adicional na qualidade da cana também oferecem suporte às cotações.
Por outro lado, a demanda internacional fraca, os estoques elevados na Europa, a produção recorde esperada na China e a possibilidade de uma safra maior na Índia permanecem como fatores de pressão.
O cenário indica preços mais sustentados, mas com alta volatilidade. Para produtores e usinas, o acompanhamento das oportunidades de fixação será essencial diante das oscilações em Nova York, do câmbio e das mudanças no balanço mundial.
Fonte: Portal do Agronegócio
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