Trigo sobe com guerra no Mar Negro e safra brasileira pode despencar 26% em 2026
Área plantada cai ao menor nível desde 2020 e produção é estimada em 5,8 milhões de toneladas; oferta restrita sustenta preços no Brasil, enquanto El Niño ameaça qualidade no Sul
Publicado em: 20/08/2026 às 19:20hs
O mercado do trigo ganhou força entre julho e agosto, impulsionado pelo agravamento das tensões entre Rússia e Ucrânia, pelas dificuldades logísticas no Mar Negro e pela redução da oferta disponível no Brasil. A perspectiva de uma safra brasileira 26% menor amplia a possibilidade de preços firmes nos próximos meses.
A análise consta no Agro Mensal de agosto, relatório divulgado pela Consultoria Agro do Itaú BBA. Segundo o levantamento, os estoques mais enxutos nos Estados Unidos, a menor produção europeia e os riscos climáticos no Sul do Brasil aumentam a sensibilidade do mercado a eventuais problemas de oferta.
Trigo sobe 15% em Kansas e 9% em Chicago
As cotações internacionais avançaram de forma expressiva entre 1º de julho e 10 de agosto.
O trigo soft negociado na Bolsa de Chicago subiu 9% no período, encerrando cotado a 643 centavos de dólar por bushel.
O trigo hard negociado em Kansas, referência para variedades com maior teor de proteína, avançou 15%, para 718,25 centavos de dólar por bushel.
Os contratos passaram a incorporar um prêmio de risco relacionado à capacidade de escoamento dos grãos produzidos na região do Mar Negro, uma das áreas mais importantes para o abastecimento mundial.
Guerra entre Rússia e Ucrânia ameaça exportações
A escalada do conflito entre Rússia e Ucrânia aumentou as preocupações com a infraestrutura portuária e com a circulação de navios carregados de grãos.
O fechamento da navegação no Mar de Azov prejudicou significativamente o fluxo das cargas russas durante julho. Segundo estimativas da consultoria SovEcon citadas no relatório, o país registrou o menor volume embarcado para o mês desde a temporada 2017/18.
Para agosto, as projeções também indicam exportações inferiores à média histórica. Entre os fatores que limitam os embarques estão:
- Restrições à navegação;
- Aumento dos custos dos fretes;
- Riscos para embarcações e tripulações;
- Dificuldades de acesso aos terminais;
- Possíveis danos à infraestrutura portuária.
Como uma parcela relevante das exportações russas depende das rotas do Mar Negro e do Mar de Azov, qualquer interrupção aumenta as preocupações dos importadores e oferece suporte às cotações internacionais.
Trigo chega a R$ 74,98 por saca no Paraná
No Brasil, os preços acompanharam a valorização internacional durante o período de entressafra.
No Paraná, a cotação média recebida pelo produtor alcançou R$ 74,98 por saca de 60 quilos, mantendo a trajetória de alta observada nas últimas semanas.
Os preços também permaneceram firmes no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. A sustentação foi provocada pela baixa disponibilidade de trigo da safra anterior, especialmente dos lotes com melhor qualidade para moagem.
Mesmo com a demanda industrial ainda limitada, a oferta restrita e a cautela dos vendedores impediram uma pressão mais intensa sobre as cotações.
Área de trigo recua 17% no Brasil
O plantio da safra brasileira foi concluído com aproximadamente 2,04 milhões de hectares semeados.
A área representa redução de 17% em comparação com a temporada anterior e é a menor destinada à cultura desde 2020.
Os principais ajustes ocorreram no Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina. A retração reflete as margens reduzidas enfrentadas pelos produtores, a concorrência com outras culturas de inverno e as incertezas relacionadas à comercialização.
A menor área aumenta a dependência brasileira do trigo importado e reduz a margem de segurança para absorver eventuais perdas climáticas durante o restante do ciclo.
Produção brasileira pode cair para 5,8 milhões de toneladas
Após a redução da área cultivada, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) passou a estimar a produção nacional em 5,8 milhões de toneladas.
O volume representa queda de 26% em relação à safra anterior.
Apesar da retração projetada, as lavouras apresentam condições relativamente favoráveis. O desempenho final dependerá principalmente do clima durante as fases de enchimento dos grãos, maturação e colheita.
Principais números da safra brasileira
- Área plantada: 2,04 milhões de hectares;
- Redução anual da área: 17%;
- Produção estimada: 5,8 milhões de toneladas;
- Queda esperada da produção: 26%;
- Menor área cultivada desde 2020.
Paraná mantém bom potencial produtivo
As lavouras paranaenses apresentam bom potencial de produtividade, beneficiadas pelas condições climáticas observadas durante as fases reprodutivas.
O estado ocupa posição estratégica no abastecimento dos moinhos brasileiros e concentra uma parcela relevante da produção de trigo com qualidade industrial.
A manutenção de condições favoráveis durante a fase final do ciclo será determinante para que o Paraná compense parcialmente a redução da área plantada.
Umidade aumenta pressão de doenças no Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, as lavouras apresentam desenvolvimento considerado satisfatório. A umidade elevada, porém, aumenta a pressão de doenças fúngicas.
O excesso de precipitações pode dificultar a entrada de máquinas, comprometer a aplicação de defensivos e favorecer problemas sanitários nas plantas.
Em Santa Catarina, as lavouras mantêm boas condições sanitárias, segundo o relatório. Mesmo assim, o estado também permanece exposto aos efeitos de chuvas excessivas durante a maturação e a colheita.
El Niño ameaça produtividade e qualidade do trigo
A possível intensificação do El Niño nos próximos meses representa um dos principais riscos para a safra brasileira.
O fenômeno costuma elevar o volume de chuvas na Região Sul. Caso as precipitações se intensifiquem, os produtores poderão enfrentar maior incidência de doenças e perdas de qualidade.
Chuvas durante a fase final de desenvolvimento e colheita podem provocar germinação dos grãos ainda nas espigas, redução do peso hectolítrico e perda de qualidade industrial.
O Rio Grande do Sul aparece como a região mais exposta. O impacto final dependerá da intensidade, da distribuição e do momento das precipitações.
Produção mundial é projetada em 819 milhões de toneladas
No mercado internacional, o relatório de agosto do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) apresentou novos ajustes negativos para a oferta global.
A produção mundial de trigo foi estimada em 819 milhões de toneladas. O balanço mais ajustado aumenta a influência de problemas logísticos e climáticos sobre os preços.
Embora não exista uma perspectiva imediata de escassez global, o mercado possui menor capacidade de absorver perdas inesperadas nos grandes produtores.
Estoques dos Estados Unidos caem 22%
Nos Estados Unidos, a produção de trigo para a temporada 2026/27 foi revisada para 41,7 milhões de toneladas.
Os estoques finais norte-americanos estão projetados em 19,5 milhões de toneladas, volume 22% inferior ao registrado na temporada anterior.
A redução dos estoques amplia a sensibilidade das bolsas norte-americanas a mudanças na demanda e a perdas de produção em outras regiões.
Qualquer aumento das exportações dos Estados Unidos poderá reduzir ainda mais a disponibilidade doméstica e fortalecer as cotações.
Rússia pode colher 89 milhões de toneladas
Apesar dos problemas logísticos, a Rússia continua projetando uma safra robusta de 89 milhões de toneladas.
O tamanho da produção russa representa um fator de equilíbrio para o mercado mundial. Entretanto, a disponibilidade física do cereal não garante que o produto chegará aos importadores sem dificuldades.
A capacidade de embarque, os custos dos fretes, a segurança da navegação e as condições dos portos serão tão relevantes quanto o tamanho da safra.
Menor produção europeia reforça cenário de preços firmes
A redução da produção na União Europeia também contribui para deixar o balanço mundial mais ajustado.
Com menor disponibilidade europeia, estoques norte-americanos em queda e dificuldades logísticas no Mar Negro, o mercado passa a depender ainda mais do funcionamento das exportações russas e ucranianas.
Essa combinação favorece uma perspectiva de preços internacionais firmes, apesar da safra elevada prevista para a Rússia.
Mercado brasileiro deve permanecer sustentado
No Brasil, a oferta restrita da safra passada deverá continuar sustentando os preços até que a nova produção chegue ao mercado.
A queda de 26% projetada para a colheita nacional reduz a possibilidade de pressão prolongada durante a entrada da safra. Ao mesmo tempo, o resultado dependerá da qualidade do trigo colhido.
Caso o El Niño provoque chuvas excessivas, poderá haver disponibilidade de volume, mas escassez de lotes adequados para moagem. Esse cenário aumentaria a necessidade de importação de trigo de melhor qualidade.
Para os produtores, o ambiente exige atenção às oportunidades de comercialização, à qualidade dos grãos e aos riscos climáticos. Para os moinhos, a gestão dos estoques e das compras externas deverá ganhar importância diante da perspectiva de menor oferta doméstica.
Fonte: Portal do Agronegócio
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