Publicado em: 03/06/2026 às 12:00hs
O Brasil está vivendo uma nova transformação no setor de biocombustíveis. Tradicionalmente sustentada pela cana-de-açúcar e, mais recentemente, pelo milho, a indústria nacional de etanol avança para uma fase marcada pela diversificação de matérias-primas, incorporando culturas como trigo, cevada, sorgo, soja, batata-doce, resíduos alimentares e até agave.
A chamada "terceira onda" dos biocombustíveis promete ampliar a oferta de energia renovável, gerar novas fontes de renda para produtores rurais e fortalecer a segurança energética do país em um cenário global marcado por volatilidade nos mercados de petróleo.
Com um mercado estimado em cerca de US$ 20 bilhões, o Brasil mantém a segunda maior indústria de etanol do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos. A expansão das alternativas produtivas surge em um momento estratégico para o setor.
Especialistas e empresas do setor avaliam que o futuro dos biocombustíveis dependerá da integração de diferentes fontes de biomassa, reduzindo a dependência de uma única cultura.
A proposta ganha relevância em meio ao aumento da demanda global por combustíveis renováveis e à necessidade de ampliar a produção sem comprometer a sustentabilidade do sistema agrícola.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) projeta que a produção brasileira de etanol alcançará aproximadamente 40 bilhões de litros em 2026. Desse total, cerca de 28,5 bilhões de litros deverão ser originados da cana-de-açúcar, enquanto mais de 11 bilhões de litros virão de outras matérias-primas, principalmente milho, mas também trigo, soja e outros cereais.
O Rio Grande do Sul desponta como protagonista da nova fase dos biocombustíveis. A empresa Be8 está investindo R$ 1,7 bilhão na construção da primeira biorrefinaria brasileira em larga escala voltada à produção de etanol a partir de trigo e grãos de inverno.
A unidade, localizada em Passo Fundo (RS), tem previsão de iniciar operações em março de 2027 e capacidade para produzir 220 milhões de litros de etanol por ano.
Além do combustível, a planta deverá gerar importantes coprodutos para a pecuária, incluindo 155 mil toneladas anuais de DDG (grãos secos de destilaria) e 27 mil toneladas de glúten de trigo, ampliando a rentabilidade da cadeia produtiva.
A iniciativa também cria novas perspectivas para culturas de inverno que historicamente enfrentam limitações de mercado, fortalecendo a diversificação agrícola no Sul do país.
A busca por eficiência econômica tem levado empresas a explorar matérias-primas antes pouco valorizadas para a produção de etanol.
No setor da soja, indústrias como Caramuru e CJ Selecta passaram a transformar o melaço gerado no processamento da oleaginosa em combustível renovável, agregando valor a um subproduto de baixa rentabilidade.
Já em São Paulo, produtores encontraram uma alternativa para aproveitar excedentes de batata-doce que frequentemente permaneciam no campo por falta de viabilidade comercial. A transformação do tubérculo em etanol e ração animal cria uma nova fonte de receita e reduz desperdícios na propriedade rural.
A tecnologia permite que volumes anteriormente descartados passem a integrar uma cadeia produtiva com valor agregado.
A economia circular também ganha espaço na indústria brasileira de biocombustíveis.
Empresas especializadas em gestão ambiental estão utilizando resíduos alimentares descartados por indústrias para produzir etanol. Xaropes de refrigerantes, alimentos vencidos e outros materiais orgânicos passaram a ser transformados em combustível renovável.
Embora ainda represente uma parcela pequena da produção nacional, essa alternativa demonstra o potencial de aproveitamento energético de resíduos que antes seriam destinados a aterros sanitários.
Outra aposta promissora vem do semiárido brasileiro. A Shell investe aproximadamente R$ 100 milhões em pesquisas para avaliar o potencial do agave como matéria-prima para a produção de etanol.
Conhecida internacionalmente por seu uso na fabricação de tequila e mezcal, a planta apresenta elevada resistência à seca e pode se tornar uma alternativa estratégica para regiões com restrições hídricas.
Caso os estudos confirmem sua viabilidade econômica, o cultivo poderá ampliar as oportunidades de produção de biocombustíveis em áreas atualmente pouco exploradas para esse fim.
Apesar do avanço das novas tecnologias, parte da indústria sucroenergética demonstra preocupação com a expansão acelerada da oferta de etanol, especialmente diante dos atuais desafios enfrentados pelo mercado de açúcar.
Por outro lado, representantes do setor acreditam que o aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina e a ampliação da infraestrutura de abastecimento devem sustentar o crescimento da demanda nos próximos anos.
A expectativa é que a mistura obrigatória de etanol na gasolina avance para 32%, o que poderá adicionar cerca de 1 bilhão de litros ao consumo anual do biocombustível no Brasil.
Especialistas projetam ainda que os combustíveis produzidos a partir de grãos possam representar entre 40% e 45% da produção nacional dentro dos próximos cinco a seis anos.
A expansão das matérias-primas para produção de etanol reforça uma das principais vantagens competitivas do agronegócio brasileiro: a capacidade de transformar diferentes culturas agrícolas e resíduos em energia renovável.
Com investimentos bilionários, inovação tecnológica e novas oportunidades para produtores rurais, a terceira onda dos biocombustíveis sinaliza uma profunda transformação no setor energético nacional, consolidando o Brasil como uma das principais referências globais na produção sustentável de combustíveis renováveis.
Fonte: Portal do Agronegócio
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