Publicidade
Etanol

Brasil pode precisar de 15,2 bilhões de litros extras de etanol até 2035, aponta CNI

Estudo projeta déficit de créditos de descarbonização e indica necessidade de investimentos; volume adicional considera cenário em que o etanol hidratado compensaria sozinho a insuficiência de CBIOs


Publicado em: 04/11/2026 às 09:30hs

Brasil pode precisar de 15,2 bilhões de litros extras de etanol até 2035, aponta CNI

O Brasil poderá precisar de 15,2 bilhões de litros adicionais de etanol em 2035, além do consumo projetado para aquele ano, para atender às metas indicativas de descarbonização dos combustíveis. A estimativa consta de estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que identifica risco de descompasso entre a geração de Créditos de Descarbonização (CBIOs) e a necessidade de aquisição desses certificados.

O volume não representa uma obrigação de produção já estabelecida. Trata-se de uma simulação na qual toda a diferença entre a oferta projetada de CBIOs e as metas seria compensada exclusivamente pela expansão do etanol hidratado.

O levantamento Combustíveis no Brasil: análise do mercado e perspectivas para a descarbonização, divulgado em 28 de outubro, aponta que ampliar a oferta dependerá de investimentos industriais, disponibilidade de matérias-primas e condições econômicas favoráveis à produção.

Consumo de etanol pode superar 61 bilhões de litros no cenário da CNI

Segundo as projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) apresentadas no estudo, o consumo brasileiro de etanol deverá passar de 34,4 bilhões de litros em 2025 para aproximadamente 46,2 bilhões em 2035, crescimento de cerca de 34%.

Esse avanço, entretanto, poderá não gerar créditos suficientes para acompanhar as metas indicativas do RenovaBio.

Na simulação em que apenas o etanol hidratado supriria a diferença, o consumo total chegaria a aproximadamente 61,3 bilhões de litros em 2035, volume cerca de 78% superior ao registrado em 2025.

O cenário dimensiona o esforço necessário caso outros biocombustíveis e ganhos na geração de créditos não contribuam para reduzir o desequilíbrio.

Déficit de CBIOs pode atingir 15,2 milhões de certificados

Os CBIOs são instrumentos do RenovaBio destinados a incentivar combustíveis de menor intensidade de carbono. Cada certificado corresponde a uma tonelada de dióxido de carbono equivalente cuja emissão é evitada pela substituição de combustíveis fósseis por biocombustíveis.

Os créditos são emitidos por produtores certificados e adquiridos pelas distribuidoras para cumprimento de suas metas anuais.

Conforme os números apresentados pela CNI, a necessidade de aquisição deverá subir de 48,09 milhões de CBIOs em 2026 para 73,45 milhões em 2035. A geração projetada, porém, poderá ficar abaixo dessa trajetória.

O estudo estima uma diferença de aproximadamente 4,7 milhões de certificados em 2027, com crescimento gradual até alcançar 15,2 milhões em 2035. Nesse último ano, a meta de aquisição seria cerca de 26% superior à oferta esperada.

Os cálculos consideram as projeções da EPE para etanol, biodiesel e biometano, utilizando como referência os fatores médios de emissão de CBIOs observados em 2025.

Por que o etanol hidratado aparece como alternativa

Embora diferentes biocombustíveis possam ampliar a geração de certificados, a CNI identifica o etanol hidratado como a principal alternativa para responder aos incentivos econômicos do RenovaBio.

O consumo de biodiesel e de etanol anidro está associado principalmente aos percentuais obrigatórios de mistura ao diesel e à gasolina. Já o hidratado disputa diretamente a preferência do consumidor com a gasolina.

Nesse contexto, uma valorização dos CBIOs pode melhorar a rentabilidade da produção de etanol hidratado, estimular sua oferta e contribuir para aumentar sua competitividade nos postos. Esse efeito, contudo, depende de a produção conseguir responder aos incentivos.

Capacidade autorizada não equivale à produção disponível

Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), reunidos pela CNI, indicam que o Brasil tinha capacidade instalada autorizada para produzir aproximadamente 103,5 bilhões de litros de etanol por ano em junho de 2026.

Pedidos de autorização para novas unidades e ampliações poderiam acrescentar cerca de 20,9 bilhões de litros anuais, levando a capacidade potencial para aproximadamente 124,5 bilhões de litros.

Apesar desses volumes, o estudo ressalta que a capacidade nominal não corresponde à produção efetivamente disponível durante o ano. A utilização média histórica permanece próxima de 35%, principalmente em razão da sazonalidade da cana-de-açúcar.

Mantido esse padrão, a produção correspondente à capacidade atual seria de aproximadamente 36,2 bilhões de litros anuais. Mesmo com todos os projetos adicionais em operação, chegaria a cerca de 43,6 bilhões de litros, abaixo do consumo projetado para 2035.

Sazonalidade da cana e mercado de açúcar limitam a oferta

Durante a entressafra da cana, a menor disponibilidade de matéria-prima reduz o funcionamento das usinas. Segundo o levantamento, algumas unidades podem interromper as atividades por até três meses.

Outro fator é a concorrência entre açúcar e etanol. Nas unidades que fabricam ambos, preços mais atrativos para o açúcar podem estimular o direcionamento de uma parcela maior da cana à commodity, restringindo a produção do combustível.

O etanol de milho oferece uma alternativa à sazonalidade, porque o grão pode ser armazenado e processado ao longo do ano. Sua expansão, porém, também exige matéria-prima disponível, viabilidade econômica e investimentos industriais.

Escassez de créditos pode pressionar custos dos combustíveis

A CNI alerta que metas de aquisição persistentemente superiores à geração de CBIOs podem provocar escassez prolongada e valorização dos certificados.

Como referência, o estudo cita 2022, quando a emissão ficou 4,54 milhões de créditos abaixo da meta. O preço médio do CBIO passou de aproximadamente R$ 36 em 2021 para R$ 101 em 2022 e R$ 113 em 2023.

Em 2024 e 2025, quando a geração superou as metas, os valores médios recuaram para R$ 88 e R$ 56, respectivamente.

O déficit estimado para 2035 seria mais de três vezes o registrado em 2022. Na avaliação da entidade, um desequilíbrio estrutural poderia elevar os custos das distribuidoras, com possibilidade de repasse parcial aos preços finais dos combustíveis.

Para a CNI, o desafio é assegurar que a expansão da produção e da geração de créditos acompanhe as metas de descarbonização, reduzindo o risco de escassez e de pressão sobre os custos da cadeia.

Fonte: Portal do Agronegócio

◄ Leia outras notícias