Canola e biodiesel podem ampliar renda no campo, mas Brasil precisa de planejamento, alerta APROBIO
Durante a Expointer 2026, Jerônimo Goergen defendeu a integração entre produtores, cerealistas e indústrias para transformar a safra de inverno em alimentos, energia renovável e desenvolvimento regional
Publicado em: 01/09/2026 às 10:35hs
O avanço da canola e dos biocombustíveis pode abrir uma nova frente de renda para o agronegócio brasileiro, desde que o país organize a cadeia produtiva e ofereça previsibilidade aos investimentos. A avaliação é de Jerônimo Goergen, presidente da Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil (APROBIO).
Durante o painel “Campo em Debate – Canola aquece safra de inverno”, realizado nesta segunda-feira (31), na Expointer 2026, em Esteio (RS), Goergen afirmou que o Brasil precisa planejar melhor a transformação de sua produção agrícola em renda, industrialização e energia renovável.
“O Brasil acaba sendo um lugar que perde oportunidades, pois não se planeja, apenas reage”, declarou o presidente da entidade.
Brasil precisa agregar valor à produção agrícola
Na avaliação de Goergen, o agronegócio brasileiro está deixando para trás um modelo concentrado apenas na comercialização de commodities. O próximo passo, segundo ele, é ampliar o processamento interno e conectar a produção agrícola à indústria, agregando valor antes da comercialização.
“Antes tínhamos o Brasil como um produtor de commodities. Você plantava e não se tinha planejamento para o resultado que aquilo teria. Hoje, estamos saindo de um cenário ruim como esse”, afirmou.
Nesse processo, a canola aparece como uma cultura estratégica por possibilitar a produção de alimentos, óleos vegetais, farelos e biocombustíveis. Para o presidente da APROBIO, essa característica amplia as alternativas de comercialização e reduz a dependência de uma única fonte de receita.
“A canola é um dos produtos no Brasil que nos possibilitam alimento e energia, e não alimento ou energia”, ressaltou.
Canola pode complementar o trigo na safra de inverno
O crescimento da canola não deve ser interpretado como uma ameaça ao cultivo de trigo no Sul do Brasil. Segundo Goergen, as duas culturas podem integrar um planejamento mais amplo para a safra de inverno, contribuindo para a diversificação produtiva e financeira das propriedades rurais.
“A canola não vem para ocupar o espaço do trigo, mas para complementar. Se planejarmos a cultura juntamente com outras opções de inverno, elas podem compensar perdas nessa época e até nas culturas de verão”, explicou.
Além de gerar receita em uma época tradicionalmente mais desafiadora, a diversificação pode melhorar o aproveitamento das áreas agrícolas, fortalecer a rotação de culturas e reduzir a exposição do produtor às oscilações de apenas um mercado.
Organização da cadeia é decisiva para gerar renda
Para que a expansão da canola resulte em retorno financeiro, a produção precisa estar conectada, desde o início, à armazenagem, comercialização e indústria processadora.
Goergen defendeu a construção de uma cadeia completa, envolvendo produtores rurais, cooperativas, empresas cerealistas, esmagadoras e fabricantes de biocombustíveis. Essa integração permitiria dimensionar a demanda, organizar contratos e oferecer maior segurança para quem pretende investir na cultura.
“A previsibilidade é fundamental para o agronegócio. É importante consolidar a produção da matéria-prima, mas também conectar isso às empresas cerealistas ou produtoras de biocombustível. Não vejo outro cenário para termos renda efetiva no campo”, afirmou.
Biodiesel cria demanda para soja e outras oleaginosas
O avanço da mistura obrigatória de biodiesel ao diesel fóssil representa uma importante fonte de demanda para as oleaginosas cultivadas no Brasil. De acordo com Goergen, cada ponto percentual adicional de biodiesel demanda aproximadamente 1,4 milhão de toneladas de soja, volume equivalente a cerca de 24 milhões de sacas.
Embora a soja permaneça como a principal matéria-prima do biodiesel brasileiro, a ampliação do mercado pode favorecer alternativas como canola, algodão, milho, gorduras animais e óleos residuais.
No caso da canola, a maior procura da indústria poderia oferecer ao agricultor uma nova opção para a safra de inverno e, ao mesmo tempo, ampliar a diversificação das matérias-primas utilizadas na produção nacional de biocombustíveis.
Capacidade ociosa pode permitir maior produção de biodiesel
Segundo o presidente da APROBIO, a indústria brasileira de biodiesel dispõe atualmente de capacidade ociosa que poderia ser aproveitada para elevar a produção e aumentar o processamento de oleaginosas.
“Temos uma ociosidade na nossa indústria de biodiesel, com capacidade de colocar 7% ou 8% a mais no diesel fóssil, que poderia estar esmagando mais canola, por exemplo”, declarou.
O aproveitamento dessa estrutura dependerá, entretanto, do cumprimento do cronograma regulatório e de regras capazes de garantir previsibilidade aos investimentos realizados por produtores e indústrias.
Cumprimento do Combustível do Futuro é considerado essencial
A discussão ocorreu na semana em que a Lei do Combustível do Futuro completa dois anos. Goergen, que participou da origem da legislação, defendeu o cumprimento das diretrizes estabelecidas para que os projetos ligados aos combustíveis renováveis possam avançar.
“Tenho a satisfação de estar na origem da criação da Lei do Combustível do Futuro. Porém, se não tivermos o cumprimento da lei, como faremos para que os projetos que estamos desenvolvendo se consolidem?”, questionou.
Na avaliação do dirigente, mudanças frequentes ou atrasos no cronograma reduzem a confiança dos investidores e impedem que o país aproveite plenamente suas vantagens agrícolas, industriais e energéticas.
Qualidade do biodiesel depende de armazenagem e transporte
Outro ponto discutido durante o painel foi a qualidade do biodiesel comercializado no Brasil. Para Goergen, eventuais problemas não devem ser atribuídos exclusivamente ao combustível produzido pelas usinas, pois a manutenção da qualidade depende de todas as etapas da cadeia.
“Nós não temos um problema de qualidade no biodiesel, mas temos um problema de cadeia, como estocagem, transporte e manuseio. Por isso, estamos trabalhando fortemente nesses pontos”, explicou.
O armazenamento inadequado, o contato com contaminantes, a presença de água e falhas no transporte podem comprometer as características do produto. Por isso, a APROBIO defende maior controle das operações realizadas após a saída do biodiesel das unidades produtoras.
Testes com B25 avançam e devem ser concluídos em 2027
Goergen também destacou a realização de testes destinados a avaliar o aumento do teor de biodiesel no diesel comercializado no país. Segundo ele, o Brasil conduz um dos maiores programas do mundo voltados à análise técnica desse combustível.
A previsão apresentada durante o encontro é de que o B25 — diesel com 25% de biodiesel — esteja completamente testado até fevereiro de 2027.
Os estudos são considerados importantes para avaliar desempenho, consumo, emissões, durabilidade dos motores e comportamento do combustível em diferentes condições de uso.
SAF abre nova oportunidade para a canola no Rio Grande do Sul
O combustível sustentável de aviação, conhecido pela sigla SAF, também foi apontado como uma futura fonte de demanda para matérias-primas renováveis.
Goergen afirmou que o avanço das exigências relacionadas ao SAF poderá beneficiar regiões capazes de produzir oleaginosas em escala, desenvolver estruturas de processamento e integrar produtores à indústria de energia.
“A partir do ano que vem, o SAF é mandatório. Temos que nos preparar para isso, e não vejo lugar melhor do que o Rio Grande do Sul para ocupar esse espaço”, disse.
O Estado reúne condições agrícolas favoráveis ao cultivo da canola, tradição na produção de grãos, cooperativas estruturadas e capacidade industrial. Esses fatores podem transformar a cultura em uma matéria-prima relevante tanto para o biodiesel quanto para o combustível sustentável de aviação.
Integração pode fortalecer a canola no Brasil
Na avaliação da APROBIO, a consolidação da canola dependerá de planejamento, assistência técnica, oferta de sementes, definição de mercados e contratos capazes de dar segurança ao produtor.
A expansão também exige coordenação entre agricultores, cooperativas, cerealistas, esmagadoras, indústrias de alimentos e empresas de biocombustíveis.
“Nós juntos, criando uma cadeia completa desde o produtor, é o que vai levar adiante o agronegócio brasileiro”, concluiu Goergen.
O painel na Expointer também reuniu Adriano Borghetti, presidente da FecoAgro-RS; Luiz Gustavo Floss, diretor de Relações Institucionais da Abrascanola; e Vantuir Scarantti, presidente da Abrascanola.
O encontro contou ainda com depoimentos de Emilio Figer, diretor da Celena Alimentos; Luiz Augusto Dumoncel, vice-presidente de Operações da 3tentos; e Philipp Herbst Minarelli, gerente de Canola e Carinata para Brasil e Paraguai da Nufarm.
Fonte: Portal do Agronegócio
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