Tarifas de até 37,5% pressionam setor madeireiro e exportações de molduras caem 50%
Indústria brasileira enfrenta retração nos embarques aos Estados Unidos e cobra avanços em logística, produtividade, diversificação de mercados e construção com madeira
Publicado em: 16/09/2026 às 09:30hs
As novas barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos aumentaram a pressão sobre a indústria brasileira da madeira e reforçaram a necessidade de reduzir custos, elevar a produtividade e diversificar mercados. Em determinados produtos de madeira e móveis, a combinação das medidas tarifárias pode resultar em uma sobretaxa de até 37,5%.
Os impactos aparecem em diferentes segmentos. Entre janeiro e agosto de 2026, as exportações brasileiras de molduras caíram 50% em volume na comparação com o mesmo período de 2025. Os embarques de portas de madeira recuaram 24%, enquanto os de compensado de pinus diminuíram 14%.
A madeira serrada de pinus destoou desse movimento e registrou crescimento de 6% no volume exportado. Os números foram apresentados no episódio 30 do Podcast WoodFlow, que reuniu representantes da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) e da Malinovski para analisar os desafios e as perspectivas do setor.
Exportações de madeira perdem ritmo em agosto
A desaceleração também foi observada na comparação mensal. De julho para agosto, o volume exportado de madeira serrada de pinus recuou 6%, enquanto os embarques de compensado de pinus caíram 13%, conforme o levantamento apresentado no programa.
O desempenho desigual entre os produtos demonstra que os efeitos não ocorrem com a mesma intensidade em toda a cadeia. Segmentos mais dependentes do mercado norte-americano enfrentam maior dificuldade para redirecionar rapidamente seus volumes.
Na avaliação de Gustavo Milazzo, apresentador do podcast e CEO da WoodFlow, a diversificação é necessária, mas nenhum destino apresenta, isoladamente, capacidade para substituir a demanda dos Estados Unidos.
“Dificilmente a gente vai ter um mercado, um novo Estados Unidos. Não existe isso”, afirma Milazzo.
Sobretaxas podem alcançar 37,5% em madeira e móveis
A medida específica direcionada ao Brasil estabeleceu uma sobretaxa de 25% sobre determinados produtos. Outra decisão, associada a uma investigação sobre ações de combate ao trabalho forçado nas cadeias de suprimentos, definiu um adicional de 12,5% para mercadorias brasileiras, consideradas as exceções.
Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), as cobranças são cumulativas quando atingem o mesmo item. Nesses casos, a tarifa adicional chega a 37,5% para vários tipos de madeira e móveis.
O aumento do custo de entrada dos produtos brasileiros reduz a competitividade diante de fornecedores de outros países e pode pressionar margens, contratos e volumes negociados com compradores norte-americanos.
Setor busca preservar compradores dos Estados Unidos
O superintendente da Fiep, João Arthur Mohr, participou das audiências realizadas em julho pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR).
Segundo ele, a defesa da indústria brasileira destacou a importância dos produtos nacionais para as cadeias produtivas norte-americanas, a existência de relações comerciais construídas ao longo de décadas e o risco de as tarifas elevarem custos e limitarem a oferta nos Estados Unidos.
Na avaliação de Mohr, a abertura de novos mercados precisa ocorrer paralelamente à continuidade das negociações e à manutenção dos vínculos com os clientes atuais.
“Nós temos que preservar nossos clientes americanos para preservar essa porta aberta”, afirma.
A estratégia envolve evitar o rompimento de relações comerciais consolidadas enquanto empresas e entidades procuram ampliar a presença brasileira em outros destinos.
Gargalos logísticos aumentam custos da indústria madeireira
As barreiras externas não são o único desafio à competitividade. Limitações na infraestrutura brasileira também elevam custos e dificultam o cumprimento dos prazos de entrega.
Mohr defende investimentos em terminais de contêineres, ferrovias e rodovias para melhorar o escoamento da produção entre as fábricas e os portos. Atrasos, baixa capacidade operacional e dificuldades de acesso aos terminais reduzem a previsibilidade dos embarques.
Para um setor com forte presença no comércio exterior, o custo logístico interfere diretamente na capacidade de competir. A tarifa imposta no destino soma-se às despesas internas de transporte, movimentação e armazenagem, aumentando a pressão sobre o preço final.
Produtividade florestal exige investimento contínuo
Além da infraestrutura, a produtividade das florestas plantadas aparece como um dos fatores decisivos para o desempenho da cadeia.
Ricardo Malinovski, CEO da Malinovski, avalia que a vantagem produtiva brasileira precisa ser preservada por meio de investimentos em manejo, tecnologia e intercâmbio de conhecimento entre empresas.
“Precisa realmente dar uma oxigenada para que a gente atinja novamente patamares altos de produtividade”, afirma.
O avanço da eficiência florestal pode reduzir o custo da matéria-prima e ampliar a disponibilidade de produtos competitivos. Entretanto, esse resultado depende de planejamento de longo prazo, já que o ciclo de produção da madeira é mais extenso do que o de culturas agrícolas anuais.
Construção com madeira pode ampliar mercado interno
O crescimento da construção civil com madeira foi apontado como uma oportunidade para reduzir a dependência de mercados externos e aumentar o valor agregado dos produtos brasileiros.
Entre as medidas consideradas necessárias estão a criação de políticas públicas, a formação de profissionais, a ampliação das linhas de financiamento e a divulgação dos sistemas construtivos em madeira.
“Nós temos que ter uma política pública para aumentar o consumo de madeira e fazer com que nós tenhamos essa agregação de valor”, afirma Mohr.
A adoção desses sistemas em projetos habitacionais pode criar uma nova frente de demanda para a indústria. A expansão, contudo, exige qualificação técnica, padronização, segurança regulatória e maior conhecimento sobre as possibilidades de uso do material.
Semana Internacional da Madeira reúne setor no Paraná
O debate sobre competitividade e construção industrializada integra a agenda da Semana Internacional da Madeira. A programação inclui a Lignum Latin America, realizada de 15 a 17 de setembro de 2026 no Expotrade Convention Center, em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba.
Outro destaque é o WoodRise Tour Curitiba, voltado à construção com madeira. Os encontros reúnem empresas, especialistas e instituições para compartilhar conhecimento, apresentar tecnologias e avaliar possibilidades de investimento.
Para Malinovski, eventos técnicos ganham relevância em períodos de dificuldade por aproximarem diferentes agentes e facilitarem a busca por soluções conjuntas.
Embora a avaliação para o curto prazo permaneça cautelosa, representantes do setor identificam oportunidades no desenvolvimento de produtos, na recuperação da produtividade, na melhoria da infraestrutura e no fortalecimento do mercado doméstico.
“Eu sou otimista também a médio prazo”, afirma Milazzo, ao comentar o potencial de ampliação do uso da madeira no Brasil.
Fonte: Portal do Agronegócio
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