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Mercado Financeiro

Riscos externos pressionam economia e Rabobank projeta dólar a R$ 5,35 no fim de 2026

Tensões entre Estados Unidos e Irã, petróleo acima de US$ 90, incertezas tarifárias, possibilidade de El Niño e fragilidade fiscal no Brasil ampliam volatilidade para o câmbio, a inflação e o agronegócio


Publicado em: 26/08/2026 às 11:00hs

Riscos externos pressionam economia e Rabobank projeta dólar a R$ 5,35 no fim de 2026

Os riscos externos voltaram ao centro das atenções dos mercados e podem aumentar a volatilidade da economia brasileira nos próximos meses. A avaliação é do Rabobank, que destaca a escalada das tensões entre Estados Unidos e Irã, a valorização do petróleo, as incertezas sobre o comércio internacional e a maior probabilidade de ocorrência do El Niño no fim de 2026.

No ambiente doméstico, as dúvidas sobre a sustentabilidade das contas públicas e a perspectiva de redução do diferencial entre os juros brasileiros e internacionais também podem pressionar o real. Diante desse cenário, o banco projeta o dólar em R$ 5,35 no encerramento de 2026.

A análise integra o relatório “O retorno dos riscos externos”, elaborado pelo RaboResearch e divulgado em 25 de agosto.

Tensões entre Estados Unidos e Irã elevam incertezas

O relatório chama atenção para uma nova ofensiva econômica anunciada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Irã. A sinalização envolve possíveis represálias a países e empresas que mantenham relações comerciais com Teerã.

A escalada amplia o risco de interrupções nos fluxos comerciais e energéticos, com reflexos potenciais sobre petróleo, fretes, inflação e cadeias globais de suprimentos.

Para o agronegócio brasileiro, uma valorização prolongada do petróleo pode encarecer diesel, fertilizantes, defensivos, transporte rodoviário e operações de armazenagem. Ao mesmo tempo, mudanças nas relações comerciais entre países podem alterar destinos e oportunidades para as exportações de commodities agrícolas.

Petróleo acima de US$ 90 acende alerta para inflação

O petróleo Brent encerrou o dia 21 de agosto cotado a US$ 93,92 por barril, com valorização semanal de 6,1%. O WTI avançou 5,2%, para US$ 86,65 por barril.

Segundo o Rabobank, a estabilização do Brent acima de US$ 90 aumenta as incertezas sobre a convergência da inflação para a meta. A energia mais cara pode chegar aos preços domésticos por diferentes canais, especialmente combustíveis, transporte e insumos industriais.

No campo, esse movimento afeta diretamente os custos logísticos e de produção. O diesel possui peso relevante no preparo do solo, plantio, pulverização, colheita e transporte das safras até armazéns, indústrias e portos.

A alta do petróleo também pode influenciar o mercado de biocombustíveis, melhorando a competitividade relativa do etanol e do biodiesel, embora o resultado dependa do comportamento da gasolina, do câmbio e das políticas de preços.

Dólar recua na semana, mas perspectiva segue volátil

Apesar do aumento dos riscos, o dólar terminou a semana encerrada em 21 de agosto cotado a R$ 5,1396. O movimento representou valorização semanal de 1,59% do real, terceiro melhor desempenho entre 24 moedas emergentes acompanhadas pelo levantamento.

No exterior, o índice DXY, que compara a moeda norte-americana com divisas de economias desenvolvidas, recuou 0,8%, atingindo 98,839 pontos.

A desvalorização do dólar ocorreu em meio às operações do Tesouro norte-americano destinadas a conter os custos de financiamento de longo prazo. O governo dos Estados Unidos ampliou as recompras de títulos com vencimentos entre dez e 30 anos, reduzindo temporariamente os rendimentos mais longos.

O Rabobank, entretanto, avalia que a medida oferece apenas um alívio pontual e não resolve os fatores estruturais relacionados ao endividamento norte-americano. A dívida pública dos Estados Unidos ultrapassou US$ 40 trilhões e se aproximou do teto de US$ 41,1 trilhões.

Menor diferencial de juros pode reduzir apoio ao real

A projeção de dólar a R$ 5,35 no fim de 2026 considera a possibilidade de diminuição do diferencial entre as taxas de juros brasileiras e internacionais.

Quando os juros domésticos oferecem uma remuneração significativamente superior à encontrada no exterior, o Brasil tende a atrair recursos para operações financeiras conhecidas como carry trade. A redução dessa diferença pode diminuir a entrada de capital e retirar parte do suporte ao real.

O câmbio também permanece exposto ao ritmo de desaceleração das economias dos Estados Unidos e da China, às decisões do Federal Reserve, aos riscos geopolíticos e à possibilidade de aumento dos juros no Japão.

Internamente, a principal preocupação está relacionada à trajetória da dívida pública e à credibilidade do arcabouço fiscal, especialmente em um ano eleitoral.

Câmbio traz efeitos distintos para o agronegócio

A valorização do dólar costuma favorecer as receitas em reais dos exportadores de soja, milho, café, açúcar, algodão, carnes e celulose. O efeito pode melhorar a competitividade dos produtos brasileiros no exterior e estimular a comercialização.

Por outro lado, o real mais fraco aumenta os custos dos insumos importados, como fertilizantes, defensivos, medicamentos veterinários, máquinas e componentes.

O impacto final sobre o produtor depende da combinação entre preços internacionais, prêmio de exportação, custos logísticos, disponibilidade de crédito e momento de compra dos insumos. Por isso, a volatilidade cambial amplia a necessidade de planejamento comercial e proteção das margens.

Commodities agrícolas avançam no mercado internacional

O ambiente de maior aversão ao risco não impediu a valorização das principais commodities agrícolas acompanhadas pelo Rabobank. O segmento registrou alta média semanal de 4,3%.

A soja negociada em Chicago subiu 4%, enquanto o milho avançou 5,2% e o trigo ganhou 1,5%. O açúcar apresentou valorização de 6,1%, o maior avanço semanal entre os produtos agrícolas analisados.

O algodão subiu 4,2%, o suco de laranja avançou 4,2% e o café registrou ganho de 2,7%. O boi gordo foi a exceção, com recuo de 0,4% no período.

Na comparação anual, o algodão acumulava valorização de 28%, seguido pelo trigo, com 17%; soja, com 15%; e milho, com 12%. Já o suco de laranja apresentava queda de 34%.

El Niño adiciona riscos para produção e preços agrícolas

Além das tensões geopolíticas e comerciais, o Rabobank destaca o aumento da probabilidade de formação do El Niño no fim do ano.

O fenômeno pode alterar o regime de chuvas e temperaturas nas principais regiões produtoras. No Brasil, seus efeitos variam de acordo com a intensidade e a localização, mas geralmente incluem maior volume de precipitações no Sul e risco de irregularidade hídrica em áreas do Norte e Nordeste.

As consequências potenciais envolvem mudanças no calendário de plantio, perdas de produtividade, dificuldades para colheita e transporte, além de impactos sobre os preços dos alimentos.

A combinação entre energia mais cara, câmbio volátil e risco climático pode dificultar a desaceleração da inflação, especialmente em produtos agropecuários com forte sensibilidade às condições meteorológicas.

IBC-Br recua e sinaliza desaceleração econômica

No cenário doméstico, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br) caiu 0,64% em junho na comparação mensal. O resultado foi mais negativo que a expectativa do mercado, que indicava retração de 0,5%, mas ficou próximo da projeção de queda de 0,7% feita pelo Rabobank.

Em relação a junho de 2025, o indicador avançou 2,4%. No segundo trimestre, a atividade cresceu 0,2% frente aos três meses anteriores e 1,5% na comparação anual.

O desempenho negativo predominou entre os principais setores. A indústria recuou 1,4% no mês e os serviços caíram 0,5%. A agropecuária seguiu na direção contrária, com crescimento mensal de 1%.

Os dados deixaram um carregamento estatístico negativo de 0,4% para o terceiro trimestre, reforçando a expectativa de perda de ritmo da economia no segundo semestre.

Política monetária continuará restritiva

O Rabobank projeta crescimento de 1,8% para o Produto Interno Bruto brasileiro em 2026. A estimativa considera os efeitos defasados dos juros elevados sobre o consumo, o crédito e os investimentos.

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que a política monetária permanece restritiva para controlar a inflação e reequilibrar a relação entre oferta e demanda, e não para estimular o crescimento.

Segundo a análise, a atividade econômica ainda encontra algum suporte no mercado de trabalho, em medidas fiscais e no crédito. No entanto, a Selic elevada tende a limitar a expansão de setores mais dependentes de financiamento.

Para o agronegócio, os juros altos encarecem o custeio, dificultam investimentos em armazenagem, irrigação e tecnologia e pressionam produtores que já enfrentam elevado endividamento.

Fragilidade fiscal limita espaço para queda dos juros

A condução das contas públicas aparece como um dos principais fatores de risco no cenário brasileiro. O déficit fiscal superou R$ 92 bilhões no primeiro semestre de 2026, segundo os dados citados no relatório.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reconheceu as preocupações relacionadas à trajetória da dívida e defendeu o fortalecimento do arcabouço fiscal, a contenção das despesas e o aumento da eficiência dos programas públicos.

Na avaliação do Rabobank, a incerteza fiscal pode impedir uma queda mais rápida dos juros, ampliar os prêmios de risco e pressionar o câmbio.

O banco projeta inflação de 5,1% em 2026, acima do centro da meta, e Selic de 14% ao ano no encerramento do período. Para 2027, as estimativas indicam IPCA de 4,1%, crescimento do PIB de 2,2% e taxa básica de juros em 12,5%.

Agronegócio entra no segundo semestre cercado por incertezas

O cenário traçado pelo Rabobank mostra que o agronegócio brasileiro deverá atravessar os próximos meses diante de fatores potencialmente conflitantes.

A valorização das commodities e um câmbio mais alto podem favorecer as receitas das cadeias exportadoras. Em contrapartida, petróleo caro, insumos importados, juros elevados e riscos climáticos tendem a pressionar custos e margens.

Nesse ambiente, o desempenho do setor dependerá da evolução do conflito entre Estados Unidos e Irã, das decisões monetárias internacionais, da trajetória fiscal brasileira e das condições climáticas para a safra 2026/27.

Fonte: Portal do Agronegócio

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