Brasil propõe pacto com países árabes para garantir fertilizantes e ampliar segurança alimentar
Chanceler Mauro Vieira defende acordo de previsibilidade no comércio de insumos agrícolas e alimentos diante dos conflitos geopolíticos, dos custos logísticos e dos riscos de desabastecimento
Publicado em: 26/08/2026 às 11:55hs
O Brasil propôs a criação de um pacto estratégico com os países árabes para assegurar maior previsibilidade no fornecimento de fertilizantes e alimentos. A iniciativa busca proteger as duas regiões dos choques de oferta, das interrupções logísticas e da volatilidade provocada pelo aumento das tensões geopolíticas.
A proposta foi apresentada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, durante participação no Fórum Econômico Brasil-Países Árabes, realizado nesta terça-feira (25), em São Paulo, pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.
Na avaliação do chanceler, a complementaridade entre o agronegócio brasileiro e a produção de fertilizantes dos países árabes pode sustentar uma aliança de longo prazo voltada à segurança alimentar.
Fertilizantes e alimentos formam base da parceria
O pacto defendido por Vieira teria como principal objetivo garantir o fornecimento recíproco de insumos e produtos agropecuários.
Enquanto o Brasil ocupa posição de destaque na produção e exportação mundial de alimentos, os países árabes possuem forte presença no mercado internacional de fertilizantes, especialmente em segmentos essenciais para a agricultura brasileira.
Segundo o chanceler, essa relação cria condições para a construção de compromissos comerciais mais estáveis, capazes de reduzir a exposição das duas regiões às oscilações do mercado internacional.
“A segurança alimentar é uma via de mão dupla”, afirmou Vieira, ao destacar que a produção agrícola depende de uma cadeia de suprimentos confiável desde a aquisição dos insumos até o transporte dos alimentos aos mercados consumidores.
Geopolítica aumenta riscos para o agronegócio
A proposta surge em um cenário de agravamento dos conflitos no Oriente Médio e de maior instabilidade nas principais rotas comerciais.
As tensões geopolíticas podem elevar os custos dos fretes marítimos, ampliar o preço dos seguros, provocar desvios de embarcações e comprometer os prazos de entrega. Para o agronegócio brasileiro, os efeitos aparecem tanto na importação de fertilizantes quanto na exportação de alimentos.
O Brasil ainda depende fortemente de fornecedores internacionais para atender à demanda doméstica por adubos. Por isso, interrupções na oferta ou dificuldades logísticas podem aumentar os custos de produção e afetar o planejamento das safras.
Ao mesmo tempo, os países árabes constituem mercados relevantes para carnes, grãos, açúcar e outros produtos agropecuários brasileiros, tornando a estabilidade dessas relações estratégica para as exportações nacionais.
Pacto pode reduzir impactos dos choques de oferta
Na visão apresentada pelo Ministério das Relações Exteriores, compromissos de fornecimento mútuo poderiam ampliar a previsibilidade das cadeias de suprimentos e proteger as economias de oscilações abruptas.
O Brasil ganharia maior segurança no acesso aos fertilizantes necessários à produção agrícola. Em contrapartida, os países árabes poderiam contar com um fluxo mais estável de alimentos brasileiros.
A estratégia também reforçaria a segurança alimentar das populações envolvidas, especialmente em momentos de conflitos, restrições comerciais ou dificuldades nas rotas marítimas.
Vieira classificou o mundo árabe como um grande produtor de insumos agrícolas e ressaltou que o Brasil, como potência do agronegócio, reúne condições para estruturar uma associação baseada em complementaridade econômica.
Brasil e países árabes miram transição energética
O chanceler também defendeu maior previsibilidade nas estratégias de transição energética. Segundo ele, Brasil e países árabes possuem ativos complementares capazes de impulsionar novos investimentos.
O Brasil reúne ampla participação de fontes renováveis em sua matriz elétrica e reservas relevantes de minerais críticos. Os países árabes, por sua vez, dispõem de capacidade de investimento e desenvolvem projetos ligados a novos vetores energéticos.
Essa combinação poderia estimular a modernização da indústria brasileira, a expansão da economia de baixo carbono e o desenvolvimento de cadeias produtivas relacionadas aos minerais utilizados em equipamentos eletrônicos e tecnologias de energia limpa.
Vieira destacou que o setor privado deverá assumir papel central na transformação dessas oportunidades em projetos e investimentos concretos.
Corredores marítimos podem integrar quatro regiões
Outra proposta apresentada envolve a criação de corredores marítimos destinados a fortalecer a integração econômica entre América Latina, países árabes, África e Ásia.
A iniciativa poderia diversificar rotas comerciais, ampliar a conectividade entre portos e reduzir a vulnerabilidade a gargalos concentrados em determinadas passagens estratégicas.
Para o agronegócio brasileiro, novas conexões marítimas podem representar maior acesso a mercados consumidores, alternativas logísticas e mais segurança para o transporte internacional de alimentos e insumos.
Cooperação inclui financiamento e pagamentos digitais
O ministro das Relações Exteriores também sugeriu a construção de mecanismos comuns de financiamento para apoiar investimentos e operações comerciais entre as regiões.
Na área de pagamentos digitais, Vieira apontou o Pix como exemplo de política pública brasileira bem-sucedida e defendeu que o processo de digitalização econômica preserve a governança e a integridade das transações.
A combinação entre financiamento, infraestrutura logística, pagamentos digitais e compromissos comerciais pode criar uma estrutura mais ampla de cooperação entre o Brasil e os países árabes.
Países árabes são estratégicos para o agro brasileiro
A aproximação com o mundo árabe ganha importância em um momento de maior fragmentação do comércio global. A região desempenha papel relevante tanto como fornecedora de fertilizantes quanto como compradora de produtos do agronegócio brasileiro.
Ao propor um pacto de previsibilidade, o governo brasileiro busca transformar essa complementaridade em uma relação mais estável e menos vulnerável às crises internacionais.
Caso avance, a aliança poderá fortalecer a segurança no abastecimento de insumos agrícolas, preservar mercados para os alimentos brasileiros e ampliar a cooperação em logística, energia, tecnologia e investimentos.
Fonte: Portal do Agronegócio
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