Açúcar despenca nas bolsas com queda do petróleo, enquanto preços avançam no mercado brasileiro
Futuros recuam mais de 2% em Nova York e registram perdas superiores a US$ 20 por tonelada em Londres; oferta global apertada e valorização do cristal e do etanol sustentam perspectivas para o setor
Publicado em: 26/08/2026 às 11:50hs
O mercado de açúcar apresentou movimentos opostos nesta quarta-feira (25). Enquanto os contratos futuros sofreram forte correção nas bolsas de Nova York e Londres, os preços do açúcar cristal branco e do etanol hidratado mantiveram a trajetória de valorização no mercado brasileiro.
No cenário internacional, as cotações foram pressionadas pela queda do petróleo, pela realização de lucros e por rumores de que a Índia poderá importar menos açúcar do que o inicialmente esperado. Apesar do recuo, projeções de déficit na oferta mundial continuam limitando uma desvalorização mais acentuada da commodity.
Açúcar bruto cai mais de 2% em Nova York
Na ICE Futures U.S., os contratos do açúcar bruto encerraram o pregão em baixa em toda a curva de vencimentos. A posição outubro de 2026, a mais negociada, caiu 0,38 centavo, equivalente a 2,15%, e fechou cotada a 17,27 centavos de dólar por libra-peso.
O contrato março de 2027 recuou 0,32 centavo, ou 1,72%, terminando o dia a 18,27 centavos por libra-peso. Maio de 2027 perdeu 0,26 centavo e encerrou a 17,91 centavos. Nos demais vencimentos, as quedas variaram entre 0,16 e 0,23 centavo.
A correção ocorreu depois de o primeiro contrato alcançar 18,26 centavos por libra-peso na última quinta-feira (20), maior patamar em mais de um ano. A proximidade das máximas estimulou investidores a liquidarem posições compradas e realizarem parte dos lucros acumulados.
Açúcar branco registra forte correção em Londres
As perdas foram ainda mais expressivas na ICE Futures Europe. O contrato outubro de 2026 do açúcar branco caiu US$ 18,90 e fechou negociado a US$ 517,00 por tonelada.
Dezembro de 2026 recuou US$ 19,00, para US$ 514,40 por tonelada, enquanto março de 2027 perdeu US$ 20,20 e encerrou cotado a US$ 513,30. Nos vencimentos seguintes, as desvalorizações variaram entre US$ 7,80 e US$ 18,40 por tonelada.
O movimento representou uma acomodação após Londres atingir, na semana anterior, a maior cotação em 17 meses, sustentada pelas preocupações com a disponibilidade global de açúcar.
Queda do petróleo reduz competitividade do etanol
Um dos principais fatores de pressão sobre o açúcar foi a desvalorização de aproximadamente 3% do petróleo, que atingiu o menor nível em uma semana.
A queda do combustível fóssil tende a reduzir a competitividade do etanol em mercados produtores, como Brasil e Índia. Nesse cenário, as usinas podem encontrar maior atratividade na fabricação de açúcar, elevando potencialmente a disponibilidade da commodity no mercado internacional.
Essa relação entre petróleo, etanol e açúcar influencia diretamente as expectativas sobre o mix produtivo das usinas brasileiras, especialmente no Centro-Sul do País.
Índia pode importar apenas metade do volume autorizado
As expectativas em torno das importações indianas também contribuíram para a volatilidade. A Índia havia anunciado a autorização para importar 1 milhão de toneladas de açúcar bruto com isenção tarifária, decisão que ajudou a impulsionar as cotações internacionais.
Representantes do setor, entretanto, indicaram que usinas e refinarias indianas poderão adquirir somente cerca de metade desse volume. A queda dos preços domésticos reduziu as margens das operações e tornou as compras externas menos atrativas.
A eventual redução das importações pela Índia diminui parte da demanda esperada no curto prazo, adicionando pressão sobre os contratos futuros.
Açúcar cristal sobe mais de 16% em agosto no Brasil
Enquanto as bolsas internacionais recuaram, o mercado físico brasileiro manteve o movimento de alta. O Indicador do Açúcar Cristal Branco CEPEA/ESALQ, referente ao estado de São Paulo, avançou 0,96% na quarta-feira.
A saca de 50 quilos foi negociada a R$ 106,52, equivalente a US$ 20,70. No acumulado de agosto, a valorização alcançou 16,42%, refletindo a firmeza da demanda doméstica e a disponibilidade mais restrita de açúcar para pronta entrega.
O comportamento reforça a diferença entre a dinâmica do mercado físico nacional e os ajustes especulativos registrados nas bolsas internacionais.
Etanol hidratado também mantém valorização
O etanol hidratado avançou no mercado paulista. No Indicador Diário de Paulínia, o biocombustível foi negociado a R$ 2.385,00 por metro cúbico, com alta diária de 0,29%.
Em agosto, a valorização acumulada chegou a 11,97%. A firmeza do etanol no Brasil pode estimular as usinas a ampliar a destinação de cana-de-açúcar ao biocombustível, reduzindo o volume disponível para a produção de açúcar.
Projeções apontam oferta global apertada em 2026/27
Apesar da forte correção das cotações, diferentes consultorias continuam projetando um balanço mundial restrito para a safra 2026/27.
A Covrig Analytics passou a estimar déficit de 300 mil toneladas, revertendo a previsão anterior de superávit de 100 mil toneladas. A Green Pool elevou sua projeção de déficit para 3,3 milhões de toneladas, enquanto a StoneX calcula uma diferença negativa de 1,7 milhão de toneladas.
A Czarnikow também alterou sua avaliação. A consultoria abandonou a expectativa de superávit de 1,4 milhão de toneladas e passou a projetar déficit de 100 mil toneladas, em parte devido à possibilidade de maior direcionamento da cana brasileira para a fabricação de etanol.
Na Europa, a perspectiva de uma safra menor acrescenta preocupação ao quadro de oferta. A produção de beterraba sacarina da França poderá ficar mais de 20% abaixo da média dos últimos cinco anos, segundo entidades de produtores.
Mercado deve continuar atento ao petróleo e ao mix brasileiro
A evolução dos preços do petróleo, as decisões produtivas das usinas brasileiras, o volume efetivamente importado pela Índia e as condições das safras europeias devem permanecer entre os principais fatores de influência sobre o açúcar.
Embora a realização de lucros tenha provocado uma queda expressiva nas bolsas, o cenário de oferta global apertada pode oferecer sustentação às cotações nos próximos meses. No Brasil, a valorização simultânea do açúcar cristal e do etanol evidencia a firmeza do mercado doméstico e mantém aberta a disputa pela cana-de-açúcar nas unidades produtoras.
Fonte: Portal do Agronegócio
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