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Mercado Financeiro

Copom deve manter Selic em 14% diante de inflação persistente e cenário externo incerto

Rabobank prevê interrupção do ciclo de cortes até abril de 2027; pressão nos serviços, expectativas desancoradas, conflitos geopolíticos e fragilidade fiscal reforçam postura cautelosa do Banco Central


Publicado em: 17/08/2026 às 19:20hs

Copom deve manter Selic em 14% diante de inflação persistente e cenário externo incerto

O cenário econômico brasileiro ainda exige uma política monetária restritiva, apesar dos sinais recentes de desaceleração da inflação e da perda gradual de força da atividade. A avaliação é do Rabobank, que projeta a manutenção da taxa Selic em 14% ao ano até abril de 2027.

Segundo relatório do RaboResearch, as incertezas externas, a inflação de serviços, o mercado de trabalho aquecido e as expectativas inflacionárias acima da meta reduzem o espaço para novos cortes dos juros no curto prazo.

A instituição avalia que o Comitê de Política Monetária (Copom) deverá interromper o atual ciclo de flexibilização após reduzir a taxa básica para 14% ao ano. A expectativa é de retomada dos cortes somente em abril de 2027, com a Selic encerrando o próximo ano em 12,50%.

Copom reforça necessidade de cautela com os juros

A ata da última reunião do Copom indicou que os efeitos dos juros elevados começam a alcançar gradualmente a atividade econômica. No entanto, o Banco Central considera que a desaceleração da demanda ainda precisa avançar para garantir a convergência sustentável da inflação à meta.

O mercado de trabalho permanece aquecido, com desemprego em níveis historicamente baixos. Embora a ocupação e os rendimentos tenham perdido algum ritmo, os salários reais continuam crescendo acima da produtividade, situação que pode manter pressões sobre os preços, principalmente no setor de serviços.

Outro ponto de atenção são as expectativas de inflação, que permanecem acima da meta em diferentes horizontes. Para o Copom, a reancoragem dessas projeções é fundamental para reduzir o custo do processo de desinflação sobre o consumo, os investimentos e a atividade produtiva.

O Banco Central também segue atento aos efeitos secundários de choques de oferta. Embora a política monetária não responda diretamente ao impacto inicial desses eventos, uma disseminação mais persistente para outros preços poderá exigir reação mais firme.

Inflação desacelera, mas serviços ainda preocupam

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 0,07% em julho, depois de subir 0,16% em junho. Em 12 meses, a inflação desacelerou de 4,6% para 4,4%, ficando ligeiramente abaixo do teto de 4,5% do intervalo de tolerância da meta.

A leitura mais moderada foi favorecida principalmente pela queda nos preços dos alimentos e dos combustíveis. O grupo alimentação e bebidas recuou 0,67% no mês, com redução de 1,14% na alimentação dentro do domicílio.

Entre os produtos que mais contribuíram para o alívio inflacionário estão:

  • tomate, com queda de 29,09%;
  • batata-inglesa, com recuo de 19,59%;
  • cenoura, com redução de 14,41%;
  • café moído, com baixa de 2,45%.

Os combustíveis também ajudaram a conter o índice. A gasolina caiu 1,37%, enquanto o etanol recuou 2,26% e o óleo diesel apresentou redução de 1,22%.

Em sentido contrário, a energia elétrica residencial subiu 3,09% e exerceu o maior impacto individual sobre o IPCA de julho.

Inflação de serviços avança 0,54%

Apesar da melhora no índice cheio, a inflação de serviços acelerou de 0,33% em junho para 0,54% em julho. O movimento foi influenciado pela alta de 11,67% nas passagens aéreas, pelo aumento de 0,55% na alimentação fora do domicílio e pelo avanço de 1,41% nos serviços de conserto de automóveis.

Os serviços subjacentes, acompanhados de perto pelo Banco Central por refletirem com maior intensidade as condições da demanda, subiram 0,42% no mês. Em junho, o avanço havia sido de 0,22%.

Na avaliação do Rabobank, esses números mostram que o processo de desinflação continua lento e sujeito às pressões decorrentes da renda, do emprego e do consumo doméstico.

A instituição manteve em 5,1% sua projeção para o IPCA de 2026, acima do teto da meta. Para agosto, estima deflação de 0,17%, seguida por altas de 0,57% em setembro e de 0,31% em outubro.

El Niño, energia e fertilizantes entram no radar da inflação

O comportamento dos alimentos deverá permanecer entre os principais fatores de risco para a inflação brasileira. O Rabobank alerta para os possíveis efeitos do El Niño sobre as lavouras, além de pressões relacionadas aos preços dos fertilizantes.

Condições climáticas desfavoráveis podem comprometer a produtividade agrícola, reduzir a oferta de determinados produtos e elevar os custos da alimentação. O cenário é especialmente relevante para o agronegócio, que também acompanha a volatilidade do petróleo, do câmbio e dos insumos importados.

A energia elétrica deverá continuar influenciando o perfil mensal do IPCA. Para agosto, a expectativa de queda está associada, entre outros fatores, ao pagamento do Bônus de Itaipu. Em setembro, o efeito estatístico deverá ser revertido, contribuindo para uma inflação mensal mais elevada.

Varejo e serviços mostram perda de ritmo

Os indicadores de atividade também reforçam a avaliação de que a economia brasileira atravessa uma fase de moderação.

As vendas do varejo restrito cresceram 0,5% em junho, superando as projeções do mercado. Na comparação anual, o avanço foi de 2,9%. No entanto, o varejo ampliado, que inclui veículos, materiais de construção e atacado de alimentos, recuou 1% no mês.

Entre os segmentos com desempenho negativo estiveram combustíveis e lubrificantes, tecidos e vestuário, veículos, informática e materiais de construção. Por outro lado, hipermercados, alimentos, bebidas, móveis, eletrodomésticos e produtos farmacêuticos registraram crescimento.

O setor de serviços ficou estável em junho, após queda de 0,2% em maio. Na comparação com igual período do ano anterior, houve expansão de 2%. Apesar do crescimento anual, o ritmo recente sugere estagnação e confirma a transmissão gradual dos juros elevados para a economia.

Cenário dos Estados Unidos influencia decisões do Banco Central

No ambiente internacional, os núcleos dos índices de preços ao consumidor e ao produtor dos Estados Unidos apresentaram comportamento mais favorável em julho.

A desaceleração das pressões inflacionárias concede ao Federal Reserve, o banco central norte-americano, mais tempo para avaliar os próximos passos da política monetária, especialmente diante dos sinais de enfraquecimento do mercado de trabalho.

Ainda assim, permanecem as incertezas sobre a condução econômica dos Estados Unidos e a evolução dos conflitos no Oriente Médio. A volatilidade do petróleo pode provocar novos choques sobre combustíveis, energia, transportes, fertilizantes e custos de produção agrícola.

O petróleo Brent encerrou o dia 14 de agosto cotado a US$ 88,55 por barril, com valorização semanal de 6%. Já o WTI alcançou US$ 82,42 por barril, acumulando ganho de 5,4% no mesmo período.

Dólar pode atingir R$ 5,35 até o fim de 2026

O dólar terminou a semana encerrada em 14 de agosto cotado a R$ 5,22. No período, o real perdeu 2,8% diante da moeda norte-americana, apresentando o pior desempenho entre 24 moedas emergentes analisadas pelo Rabobank.

A instituição prevê o dólar a R$ 5,35 no encerramento de 2026. A estimativa considera a perspectiva de redução do diferencial entre os juros brasileiros e internacionais, uma possível recuperação global da moeda norte-americana e as preocupações com a situação fiscal brasileira em um ano eleitoral.

Para o agronegócio, a valorização do dólar apresenta efeitos distintos. Ao mesmo tempo que aumenta a competitividade das exportações e pode favorecer as receitas em reais, também encarece fertilizantes, defensivos, máquinas, peças e outros insumos vinculados ao mercado internacional.

Commodities agrícolas avançam no mercado internacional

O relatório também apontou valorização semanal de importantes commodities agrícolas negociadas no exterior.

O milho e o trigo subiram 4,7% na Bolsa de Chicago, enquanto a soja avançou 1,3%. O açúcar teve valorização de 0,9% na ICE, o algodão ganhou 0,5% e o suco de laranja subiu 1,8%.

O café recuou 0,5% na semana, enquanto o boi gordo negociado na Bolsa de Chicago caiu 2,9%.

Essas oscilações, combinadas ao comportamento do câmbio, do petróleo e dos juros, deverão continuar influenciando as decisões de comercialização, custeio e investimento dos produtores rurais.

Juros elevados devem continuar limitando investimentos

A perspectiva de manutenção da Selic em 14% prolonga um ambiente de crédito caro para empresas, consumidores e produtores rurais. O custo financeiro elevado pode restringir investimentos em máquinas, armazenagem, tecnologia, irrigação e ampliação da produção.

Ao mesmo tempo, o Banco Central considera necessário manter a política monetária restritiva para conter a demanda e impedir que as pressões inflacionárias se tornem persistentes.

Diante desse quadro, os próximos passos do Copom dependerão da evolução da inflação de serviços, das expectativas do mercado, do comportamento da atividade econômica, da política fiscal e dos conflitos internacionais.

A combinação desses fatores indica que, mesmo com a melhora recente do IPCA, o espaço para novos cortes da Selic permanece limitado no curto prazo.

Fonte: Portal do Agronegócio

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