Mercado de trigo trava no Sul, mas cenário aponta para alta e exige cautela na comercialização
Baixa liquidez, oferta mais restrita e riscos climáticos para a nova safra mantêm produtores, moinhos e cerealistas atentos, enquanto o mercado internacional sustenta perspectiva de preços firmes.
Publicado em: 17/08/2026 às 11:40hs
O mercado de trigo no Sul do Brasil permanece travado, com poucos negócios, compradores cautelosos e vendedores resistentes a reduzir os preços. Ao mesmo tempo, os sinais para a nova safra aumentam a preocupação com a disponibilidade de trigo de qualidade, especialmente diante dos riscos climáticos e da possibilidade de menor produção brasileira.
Segundo a TF Agroeconômica, o cenário combina uma comercialização lenta no mercado interno com fundamentos internacionais que sustentam um viés de alta para as cotações. A recomendação, porém, é evitar decisões concentradas e trabalhar com estratégias de comercialização e abastecimento escalonadas.
Trigo segue com baixa liquidez no Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, os negócios continuam pontuais. Vendedores trabalham com pedidos próximos de R$ 1.350 por tonelada FOB, enquanto compradores indicam valores de até R$ 1.320, mantendo o mercado sem espaço para novos avanços.
As últimas negociações de trigo não segregado ocorreram entre R$ 1.300 e R$ 1.320 por tonelada. Os moinhos apresentam cobertura de estoques até aproximadamente 20 de setembro, em um ambiente de moagem reduzida e margens pressionadas pela diferença entre os preços do trigo e das farinhas.
O farelo de trigo representa uma exceção. Com oferta mais limitada, o produto apresenta valorização e ajuda a melhorar parcialmente a composição das margens das indústrias.
Nova safra de trigo ainda encontra resistência
A comercialização antecipada da nova safra gaúcha permanece praticamente parada. Até o momento, cerca de 60 mil toneladas foram negociadas entre moinhos e exportadores.
Houve indicação de compra de aproximadamente R$ 1.400 por tonelada FOB para dezembro, mas os vendedores não demonstraram interesse em fechar negócios nesse nível.
De acordo com a Emater-RS, a área estimada com trigo no Estado chega a 814,2 mil hectares, com produtividade média projetada em 2.701 quilos por hectare.
O potencial produtivo permanece preservado, mas o excesso de umidade aumenta a preocupação com a ocorrência de doenças e, principalmente, com a qualidade dos grãos durante o desenvolvimento e a colheita.
Santa Catarina e Paraná também monitoram a oferta
Em Santa Catarina, os moinhos seguem relativamente abastecidos e recorrem eventualmente ao trigo produzido no Rio Grande do Sul para complementar suas necessidades.
Já no Paraná, o cenário exige maior atenção. A redução da área plantada e os riscos associados ao excesso de chuvas elevam as preocupações em relação ao volume e à qualidade da próxima produção.
As indicações para a nova safra paranaense estão próximas de R$ 1.450 por tonelada em setembro e R$ 1.400 em novembro, mas os negócios continuam limitados.
O trigo argentino também permanece relevante para o abastecimento brasileiro, com cargas destinadas ao Rio Grande do Sul e ao complexo portuário de Paranaguá.
Mercado internacional sustenta viés de alta
Apesar da lentidão no mercado físico brasileiro, os fundamentos internacionais ajudam a sustentar uma perspectiva mais firme para os preços do trigo.
Entre os fatores de suporte estão a paralisação de terminais no Mar Negro, a seca em áreas produtoras de trigo de primavera nos Estados Unidos e a expectativa de uma produção brasileira menor.
A estimativa citada pela TF Agroeconômica aponta para 5,81 milhões de toneladas de trigo produzidas no Brasil, volume que reforça a possibilidade de maior dependência das importações para atender à demanda interna.
Por outro lado, alguns fatores limitam uma valorização mais intensa. As exportações norte-americanas permanecem mais fracas, enquanto as condições da safra argentina são consideradas favoráveis.
No mercado futuro, a região de 665 cents por bushel em Chicago aparece como referência importante para avaliar a continuidade do movimento de alta e o risco de eventuais correções no curto prazo.
Produtor deve evitar vender toda a safra antecipadamente
Diante desse cenário, a recomendação para os produtores é trabalhar com vendas parciais e escalonadas.
A recuperação das cotações internacionais e a perspectiva de menor produção brasileira podem abrir oportunidades para a fixação de preços da nova safra. Entretanto, a estratégia deve priorizar momentos em que as cotações proporcionem margens superiores ao custo de produção.
A orientação é evitar a comercialização de todo o volume de uma só vez. Com um mercado internacional volátil e possibilidade de novas altas, manter parte da produção disponível permite aproveitar eventuais movimentos favoráveis.
Qualidade pode ganhar ainda mais importância
Para cooperativas e cerealistas, o principal ponto de atenção está na formação de estoques de trigo de boa qualidade.
A expectativa é de que a diferença de preços entre lotes com características adequadas à panificação e aqueles prejudicados por problemas de qualidade possa aumentar na próxima temporada.
O excesso de chuvas durante a colheita é um dos principais riscos. Além de reduzir o potencial de qualidade do grão, condições climáticas desfavoráveis podem aumentar a necessidade de segregação e ampliar a diferença de valor entre os lotes.
Nesse contexto, armazenagem, classificação e gestão dos estoques ganham importância estratégica.
Moinhos devem antecipar parte das compras
Para os moinhos, a recomendação é antecipar parte do abastecimento, principalmente de trigo de qualidade superior.
A combinação entre possível redução da produção doméstica, riscos climáticos e maior necessidade de importação pode tornar a oferta de determinados tipos de trigo mais apertada ao longo da próxima safra.
A estratégia mais indicada é distribuir as compras ao longo do tempo, evitando concentrar todo o abastecimento em um único período e reduzindo a exposição à volatilidade dos preços.
Mercado de trigo exige estratégia e atenção aos próximos indicadores
O mercado de trigo no Sul do Brasil entra, portanto, em uma fase de transição. Enquanto o mercado físico permanece travado, com compradores e vendedores distantes nas negociações, os fundamentos apontam para um ambiente potencialmente mais firme nos próximos meses.
No Rio Grande do Sul, os preços seguem limitados pela baixa liquidez e pela cobertura dos moinhos. No Paraná, a menor área plantada e os riscos climáticos acrescentam pressão sobre as perspectivas de oferta. Santa Catarina, por sua vez, mantém o abastecimento relativamente equilibrado, mas depende eventualmente de trigo de outros estados.
A combinação entre menor produção brasileira, riscos climáticos, oferta de trigo de qualidade e fatores geopolíticos internacionais deve manter o mercado no radar de produtores, cooperativas, cerealistas e indústrias.
Para o produtor, o cenário recomenda comercialização gradual e atenção às margens. Para os moinhos, o momento reforça a necessidade de planejamento e antecipação de compras. Já para armazenadores e cerealistas, a qualidade do trigo poderá ser um dos principais fatores de formação de preço na nova safra.
O que observar no mercado de trigo
- Rio Grande do Sul: baixa liquidez e vendedores próximos de R$ 1.350/t FOB.
- Paraná: preços da nova safra mais firmes e preocupação com chuvas.
- Santa Catarina: moinhos abastecidos, com compras pontuais de trigo gaúcho.
- Nova safra brasileira: estimativa de 5,81 milhões de toneladas.
- Trigo de qualidade: tendência de maior diferenciação de preços entre os lotes.
- Mercado internacional: Mar Negro, clima nos EUA e safra argentina permanecem no radar.
- Chicago: região de 665 cents/bushel é referência para acompanhar o movimento.
- Comercialização: estratégia escalonada é considerada mais adequada diante da volatilidade.
Fonte: Portal do Agronegócio
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