Ata do Copom vê inflação pressionada pela demanda e defende juros restritivos
Banco Central identifica desaceleração gradual da economia, mas expectativas acima da meta, mercado de trabalho aquecido e riscos externos limitam espaço para flexibilização monetária
Publicado em: 22/09/2026 às 11:15hs
O Comitê de Política Monetária (Copom) avalia que a inflação brasileira continua pressionada pela demanda e exige a manutenção de uma política monetária restritiva. A análise consta da ata da reunião realizada nos dias 15 e 16 de setembro, divulgada pelo Banco Central.
Segundo o documento, os efeitos dos juros elevados sobre a atividade econômica estão se tornando mais evidentes. A política monetária tem contribuído de forma determinante para o processo de desinflação, mas o Comitê entende que o cenário ainda exige cautela.
A inflação cheia e as medidas subjacentes desaceleraram nas divulgações mais recentes e ficaram abaixo do limite superior do intervalo de tolerância. Os indicadores, entretanto, permanecem acima da meta, enquanto as expectativas para 2026 e 2027 seguem desancoradas.
Atividade econômica apresenta moderação gradual
Os indicadores divulgados desde a reunião anterior apontam desaceleração gradual da atividade econômica, principalmente nos setores mais sensíveis aos juros e ao crédito.
Apesar dessa perda de ritmo, o nível de atividade permanece resiliente e o mercado de trabalho continua aquecido. Essa combinação mantém a demanda em patamar capaz de pressionar os preços, dificultando uma desaceleração mais rápida da inflação.
Para o Copom, o acúmulo de evidências mostra que a política monetária contracionista está sendo transmitida à economia. Ainda assim, a resposta ocorre de forma gradual, característica esperada diante do intervalo entre as decisões sobre juros e seus efeitos sobre consumo, investimento e inflação.
Choques de oferta exigem monitoramento
A ata também destaca a influência dos choques de oferta sobre a trajetória recente e as perspectivas para a inflação.
Esses choques podem surgir de alterações climáticas, custos de energia, restrições produtivas, oscilações das commodities ou interrupções nas cadeias de abastecimento. No primeiro momento, seus efeitos não dependem diretamente da demanda ou da política monetária.
O Copom afirma que não deve reagir aos impactos primários desses eventos. A preocupação está nos chamados efeitos de segunda ordem, que ocorrem quando a alta inicial se espalha para outros preços, salários, contratos e expectativas.
Caso esse processo seja identificado, o Comitê indica que responderá com firmeza para impedir uma deterioração mais persistente do ambiente inflacionário.
Riscos para a inflação permanecem inclinados para cima
O Banco Central considera que a incerteza permanece em níveis historicamente elevados e que os riscos para a inflação são assimétricos, com maior possibilidade de surpresas altistas.
Diante desse quadro, a magnitude do ciclo de calibração dos juros será definida conforme a evolução dos indicadores e das projeções. O objetivo é preservar um grau de restrição suficiente para conduzir a inflação à meta.
A sinalização indica que eventuais ajustes na taxa básica deverão ocorrer de maneira cautelosa, condicionados ao comportamento dos preços, da atividade, das expectativas e do cenário fiscal.
Focus projeta inflação de 4,9% em 2026
As instituições financeiras consultadas pelo Banco Central na pesquisa Focus projetam inflação de 4,9% para 2026 e de 4,3% para 2027.
As duas estimativas permanecem acima da meta, reforçando a preocupação do Copom com a desancoragem das expectativas. Quando empresas e consumidores esperam inflação mais elevada, decisões sobre reajustes, contratos e salários podem tornar o processo de desaceleração dos preços mais difícil.
No cenário de referência do Comitê, a inflação está projetada em 3,2% para o primeiro trimestre de 2028, atual horizonte relevante da política monetária.
A projeção se aproxima da meta, mas depende da manutenção de condições monetárias suficientemente restritivas e da ausência de novas pressões relevantes.
Oriente Médio e juros globais aumentam incerteza
No ambiente internacional, o Copom chama atenção para os conflitos armados no Oriente Médio e para as dúvidas sobre a política monetária de algumas economias avançadas.
Esse cenário pode provocar maior volatilidade nos preços dos ativos e das commodities, com reflexos sobre petróleo, câmbio, custos de produção e inflação.
Países emergentes, como o Brasil, tendem a ser especialmente afetados por mudanças nos fluxos internacionais de capital. Juros externos elevados ou maior aversão ao risco podem pressionar o dólar e encarecer produtos importados.
Juros elevados continuam afetando crédito e investimentos
A manutenção de uma política monetária restritiva tem efeitos diretos sobre o custo do crédito, o financiamento empresarial e as decisões de investimento.
No agronegócio, o impacto alcança operações de custeio, aquisição de máquinas, armazenagem, irrigação, formação de estoques e capital de giro. Produtores e empresas também enfrentam maior custo para renovar dívidas e financiar ciclos produtivos mais longos.
A ata indica que o Banco Central reconhece o avanço da desinflação e a perda gradual de força da atividade. Entretanto, a pressão da demanda, as expectativas acima da meta e o elevado grau de incerteza ainda recomendam cautela na condução dos juros.
Portal do Agronegócio
Fonte: Portal do Agronegócio
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