Conflitos pressionam petróleo, fretes e elevam riscos para os mercados agrícolas globais
Tensões no Mar Negro e no Oriente Médio ameaçam rotas comerciais, encarecem o diesel e afetam os custos do agronegócio, enquanto compras chinesas sustentam a soja em Chicago
Publicado em: 23/09/2026 às 11:15hs
Os conflitos geopolíticos voltaram a ampliar as incertezas nos mercados agrícolas internacionais, com possíveis reflexos sobre os preços das commodities, os custos de produção e o transporte de alimentos e insumos. Segundo análise do Rabobank, os principais pontos de atenção estão no Mar Negro, no Estreito de Ormuz e nos efeitos climáticos do El Niño sobre as culturas tropicais.
Ataques contra instalações energéticas e estruturas de navegação mantêm elevados os riscos para o abastecimento mundial. Para o agronegócio brasileiro, o principal canal de transmissão ocorre por meio do petróleo, do diesel, dos fertilizantes, dos fretes e das oscilações nas bolsas internacionais.
Guerra no Mar Negro aumenta preocupação com grãos e energia
A tensão entre Rússia e Ucrânia permanece como uma das principais fontes de volatilidade para os mercados de grãos e energia. Na madrugada de 20 de setembro, forças ucranianas realizaram um ataque de grande proporção contra o território russo, provocando danos significativos em uma refinaria de petróleo.
Além dos efeitos sobre o mercado energético, o conflito mantém dificuldades para o comércio agrícola pelo Mar Negro. Ataques anteriores contra a infraestrutura de navegação prejudicaram as operações portuárias e elevaram os riscos para o transporte de cereais.
A região é estratégica para o abastecimento mundial de trigo, milho, óleo de girassol e fertilizantes. Por isso, qualquer interrupção nos embarques pode alterar a disponibilidade internacional desses produtos e aumentar os custos logísticos.
Estreito de Ormuz mantém petróleo e diesel sob pressão
No Oriente Médio, o petróleo continua atravessando o Estreito de Ormuz, mas as operações enfrentam custos elevados e novos relatos de ataques contra navios-tanque.
Os contratos futuros do petróleo Brent eram negociados em torno de US$ 98,30 por barril. Ao mesmo tempo, as margens de refino permaneciam altas diante da redução da capacidade global de processamento.
O estreito é uma passagem estratégica para o comércio internacional de petróleo e derivados. Problemas na rota podem limitar a oferta, aumentar o valor dos seguros marítimos e encarecer os fretes.
Para o produtor rural brasileiro, a alta do diesel pode elevar diretamente as despesas com máquinas agrícolas, colheita, transporte de insumos e escoamento da produção. Cadeias dependentes de longas distâncias rodoviárias ficam especialmente expostas às oscilações do combustível.
Escalada no Iêmen amplia instabilidade regional
O cenário no Oriente Médio também inclui relatos de ataques dos houthis contra Riad e do avanço do grupo na disputa pelo controle de áreas montanhosas do Iêmen.
Uma escalada regional pode aumentar os riscos para importantes rotas marítimas próximas ao Mar Vermelho e ao Golfo Pérsico. Além da energia, essas passagens são utilizadas no comércio de fertilizantes, alimentos e matérias-primas agrícolas.
O aumento da insegurança tende a provocar desvios de rotas, ampliar o tempo das viagens e pressionar os custos de transporte. Esses fatores podem chegar ao mercado brasileiro por meio de fertilizantes importados, defensivos, combustíveis e peças de máquinas.
China amplia compras e sustenta soja em Chicago
Em meio aos riscos geopolíticos, a aproximação comercial entre Estados Unidos e China trouxe suporte ao mercado da soja. O movimento antecede a cúpula prevista para ocorrer entre 23 e 25 de setembro.
A China intensificou as compras de soja norte-americana, contribuindo para a valorização dos contratos na Bolsa de Chicago. A oleaginosa era negociada a 1.319 centavos de dólar por bushel.
Os compromissos de exportação dos Estados Unidos para a temporada 2026/27 chegaram a 20,6 milhões de toneladas, volume próximo do dobro daquele registrado no mesmo período do ciclo anterior.
O avanço das vendas norte-americanas para a China pode influenciar a formação dos preços internacionais e aumentar a disputa entre Estados Unidos e Brasil pelo principal mercado consumidor mundial da oleaginosa.
El Niño acrescenta risco às commodities tropicais
Além das tensões militares e comerciais, o fortalecimento do El Niño amplia a atenção sobre as condições climáticas nas principais regiões produtoras.
Os possíveis efeitos do fenômeno são particularmente relevantes para commodities tropicais, que podem enfrentar alterações nos regimes de chuva e temperatura. Mudanças climáticas mais intensas podem afetar produtividade, qualidade, oferta e preços.
A combinação entre conflitos, custos elevados de energia, instabilidade logística e riscos climáticos aumenta a volatilidade dos mercados agrícolas. Nesse ambiente, produtores e empresas precisam acompanhar não apenas as condições das lavouras, mas também o comportamento do petróleo, do câmbio, dos fretes e das relações comerciais entre as principais economias.
Fonte: Portal do Agronegócio
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