PIB do agronegócio pode atingir R$ 3,13 trilhões em 2026, mas agricultura deve recuar 13,7%
Agro deve responder por 22,8% da economia brasileira, com crescimento de 2,8% na pecuária contrastando com queda do ramo agrícola; juros, inflação e contas públicas ampliam os desafios
Publicado em: 30/08/2026 às 11:35hs
O Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio brasileiro deve alcançar R$ 3,13 trilhões em 2026, mantendo o setor como uma das principais forças da economia nacional. Apesar do valor expressivo, a projeção indica retração anual de 7,8%, marcada por desempenhos opostos entre agricultura e pecuária.
O ramo agrícola poderá recuar 13,7%, enquanto o pecuário apresenta perspectiva de crescimento de 2,8%. Juntos, os dois segmentos devem representar 22,8% do PIB brasileiro, conforme dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Os números integram a 30ª edição do Radar Macroeconômico, elaborado pelo Departamento Econômico da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp). O levantamento também analisa emprego, inflação, juros, situação fiscal e contas externas do país.
Ramo agrícola pode perder 13,7% em 2026
O PIB do ramo agrícola está estimado em R$ 1,88 trilhão para 2026. A projeção aponta retração em todos os segmentos avaliados, com maior impacto sobre as atividades realizadas dentro das propriedades rurais.
O segmento primário poderá apresentar queda de 21%, a maior entre os elos da cadeia agrícola. A pressão decorre principalmente da desvalorização de produtos agropecuários, que reduz o faturamento dos produtores e o valor gerado pela produção.
Mesmo quando o volume colhido permanece elevado, a redução das cotações pode comprometer o resultado econômico do setor. O movimento afeta diretamente a renda rural e também repercute sobre fornecedores de insumos, agroindústrias e empresas prestadoras de serviços.
A combinação entre preços agrícolas mais baixos, custos ainda elevados e juros restritivos amplia o desafio para a rentabilidade das lavouras em 2026.
Pecuária pode crescer 2,8% e alcançar R$ 1,25 trilhão
Em direção oposta, o PIB do ramo pecuário deve atingir R$ 1,25 trilhão, com crescimento estimado em 2,8% no ano.
O melhor desempenho deverá ser puxado principalmente pela agroindústria, que poderá avançar 7,9%, e pelos agrosserviços, com crescimento projetado de 7,6%.
Entre as atividades pecuárias analisadas, somente a bovinocultura de corte apresenta expectativa de aumento no valor da produção. O resultado está associado ao desempenho das exportações brasileiras de carne bovina e à sustentação da demanda no mercado interno.
O avanço pecuário, no entanto, não deverá ser suficiente para compensar integralmente a retração prevista no ramo agrícola.
Agronegócio mantém participação relevante na economia brasileira
Com uma estimativa de R$ 3,13 trilhões, o agronegócio deverá continuar respondendo por parcela significativa da atividade econômica do país.
A participação projetada de 22,8% evidencia a importância das cadeias agropecuárias para a geração de renda, empregos, exportações e arrecadação. O resultado engloba desde a produção de insumos e as atividades dentro das propriedades até o processamento industrial e a prestação de serviços.
A retração anual de 7,8%, entretanto, sinaliza que o tamanho nominal do setor não elimina os desafios provocados pela redução das margens, pelo crédito caro e pela queda dos preços recebidos por parte dos produtores.
Agropecuária emprega 7,9 milhões de trabalhadores
O mercado de trabalho brasileiro permaneceu resiliente no trimestre encerrado em junho. A taxa de desocupação ficou em 5,4%, enquanto a população ocupada alcançou 103,1 milhões de pessoas.
Desse total, aproximadamente 7,9 milhões trabalhavam diretamente no setor agropecuário, reforçando a relevância do campo para a geração de empregos no país.
O rendimento médio habitual de todos os trabalhos chegou a R$ 3.738, crescimento real de 2,8% em relação ao mesmo período de 2025.
O comportamento do emprego e da renda é acompanhado com atenção porque influencia diretamente o consumo doméstico, inclusive de alimentos e proteínas animais.
Queda dos alimentos ajuda a conter inflação
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulou alta de 4,44% nos 12 meses encerrados em julho, retornando ao intervalo de tolerância do sistema de metas.
No mês, a inflação oficial avançou apenas 0,07%. O grupo Alimentação e bebidas exerceu a principal influência negativa, com queda de 0,67%.
A alimentação no domicílio recuou 1,14%, com destaque para tubérculos, raízes e legumes, cujos preços caíram 16,15%.
A redução dos alimentos contribuiu para aliviar o orçamento das famílias e limitar o avanço do índice geral. Para o produtor rural, porém, preços mais baixos podem representar perda de receita, especialmente quando os custos de produção permanecem elevados.
Selic cai para 14%, mas crédito continua restritivo
O Banco Central reduziu a taxa Selic em 0,25 ponto percentual em agosto, levando os juros básicos de 14,25% para 14% ao ano.
Apesar do corte, a política monetária permanece restritiva. O cenário econômico ainda apresenta incertezas e riscos inflacionários, fazendo com que eventuais novas reduções dependam da evolução dos preços, das expectativas e da atividade econômica.
Para o agronegócio, os juros elevados encarecem o custeio das lavouras, o financiamento de máquinas e equipamentos, o armazenamento e a renegociação de dívidas. A manutenção da Selic em patamar alto também reduz a disposição para novos investimentos.
Déficit público e dívida elevada aumentam preocupação
As contas públicas continuam sendo um dos principais pontos de atenção do cenário macroeconômico brasileiro.
Em junho, o setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 55,3 bilhões. Quando incorporados os juros nominais de R$ 110,7 bilhões, o déficit nominal chegou a R$ 166 bilhões.
A dívida bruta do governo geral atingiu 81,9% do PIB, enquanto a dívida líquida do setor público alcançou 68,5%.
O elevado custo da dívida e a deterioração fiscal podem pressionar as expectativas de inflação, o câmbio e os juros de longo prazo. Esses fatores repercutem diretamente sobre os custos de financiamento e de importação de insumos utilizados no campo.
Contas externas melhoram com força da balança comercial
O setor externo apresentou resultado mais favorável em junho. O déficit em transações correntes caiu para US$ 2,3 bilhões, ante US$ 5,2 bilhões no mesmo mês de 2025.
A melhora foi sustentada pelo superávit de US$ 8,8 bilhões da balança comercial, que compensou parcialmente o déficit registrado na conta de serviços.
O agronegócio exerce papel decisivo nesse desempenho, devido à participação de produtos como soja, carnes, açúcar, café, milho e celulose nas exportações brasileiras.
Agricultura e pecuária enfrentam cenários distintos em 2026
As projeções indicam que o agronegócio continuará ocupando posição estratégica na economia, mas com diferenças expressivas entre suas cadeias produtivas.
A pecuária deverá encontrar suporte nas exportações, na demanda interna e no desempenho da agroindústria. Já a agricultura enfrentará um ambiente mais desafiador, pressionado pela redução dos preços, pelas margens apertadas e pelo elevado custo financeiro.
O comportamento das commodities, do câmbio, dos juros e das condições climáticas será determinante para o resultado final do setor. Mesmo estimado em R$ 3,13 trilhões, o PIB do agronegócio em 2026 deverá refletir um ano de ajustes, no qual produção elevada não significará necessariamente maior rentabilidade para o produtor rural.
Fonte: Portal do Agronegócio
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