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Brasil

Inflação recua no Brasil, mas mercado de trabalho aquecido mantém pressão sobre preços

IPCA-15 registra deflação de 0,40% em agosto, enquanto desemprego cai para 5,3% e renda alcança patamares elevados; Rabobank mantém projeção de inflação em 5,1% para 2026


Publicado em: 01/09/2026 às 19:20hs

Inflação recua no Brasil, mas mercado de trabalho aquecido mantém pressão sobre preços

O processo de desinflação ganhou força no Brasil em agosto, favorecido pelas quedas nos preços da energia elétrica, das passagens aéreas, dos combustíveis e dos alimentos. Apesar do resultado positivo, a resiliência do mercado de trabalho e a aceleração de alguns serviços continuam impondo desafios à convergência da inflação para a meta.

A avaliação faz parte de relatório do Rabobank, que manteve a projeção de alta de 5,1% para o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2026. Para 2027, a instituição estima inflação de 4,1%.

O cenário combina alívio nos preços de curto prazo, desemprego historicamente baixo, renda elevada, desaceleração gradual na geração de empregos formais e incertezas relacionadas ao petróleo, ao clima, aos fertilizantes e à política fiscal.

IPCA-15 registra deflação maior que a esperada

O IPCA-15 recuou 0,40% em agosto, após avançar 0,06% em julho. O resultado ficou abaixo das estimativas do mercado e do próprio Rabobank, que projetavam queda de 0,32%.

Em 12 meses, a inflação medida pelo indicador desacelerou de 4,52% em julho para 4,24% em agosto. A leitura ficou ligeiramente abaixo do limite superior do intervalo de tolerância da meta de inflação.

Segundo a análise, o resultado reforça a perspectiva de preços mais comportados no curto prazo. No entanto, ainda não é suficiente para alterar o balanço de riscos para 2026, especialmente diante das pressões persistentes no setor de serviços.

Energia elétrica, transportes e alimentos puxam queda dos preços

Cinco dos nove grupos pesquisados apresentaram redução de preços em agosto. A principal contribuição veio de Habitação, que passou de alta de 0,97% em julho para queda de 1,41% no mês seguinte.

A energia elétrica residencial recuou 6,25%, refletindo principalmente a incorporação do Bônus de Itaipu nas contas dos consumidores. Em julho, o item havia avançado 3,03%.

O grupo Transportes caiu 1%, pressionado pela retração de 13,30% nas passagens aéreas e de 1,43% nos combustíveis. A gasolina, isoladamente, ficou 1,23% mais barata.

Alimentação e bebidas apresentou redução de 0,57%, completando mais um mês de comportamento favorável. A alimentação no domicílio caiu 0,97%, com destaque para:

  • Tomate: queda de 27,38%;
  • Batata-inglesa: recuo de 25,14%;
  • Frutas: alta de 4,45%;
  • Leite longa vida: aumento de 3,41%.

A continuidade da redução nos preços dos alimentos contribui para melhorar a percepção da inflação, especialmente entre as famílias de menor renda, que destinam parcela maior do orçamento à alimentação.

Inflação de serviços desacelera, mas núcleo ainda preocupa

A inflação de serviços passou de 0,41% em julho para 0,07% em agosto, favorecida principalmente pela queda nas passagens aéreas. Em sentido contrário, a alimentação fora do domicílio subiu 0,42%, enquanto os serviços de conserto de automóveis avançaram 1,50%.

Os serviços subjacentes, que ajudam a identificar tendências mais persistentes da inflação, aceleraram de 0,30% para 0,50% na comparação mensal. Em 12 meses, porém, houve uma pequena desaceleração, de 5,1% para 5%.

A média dos núcleos de inflação também avançou marginalmente no mês, de 0,21% para 0,23%, mas recuou de 4,4% para 4,3% no acumulado de 12 meses.

Para o Rabobank, esses números mostram que a desinflação dos serviços continua ocorrendo de forma gradual, refletindo a força da demanda doméstica e do mercado de trabalho.

Desemprego cai para 5,3% e atinge mínima histórica para julho

A taxa de desemprego recuou para 5,3% em julho, ante 5,4% no período anterior e 5,6% em igual mês de 2025. Trata-se do menor nível já registrado para julho desde o início da série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, em 2012.

A população ocupada cresceu 0,9% em um ano, acima da expansão de 0,6% da população economicamente ativa. A taxa de participação chegou a 62,2%, permanecendo superior à média histórica de 61,5%.

A renda média real avançou 3,3% na comparação anual e alcançou R$ 3.762. A massa salarial real cresceu 4,1%, chegando a R$ 383,47 bilhões, próxima do maior patamar da série.

O nível elevado de ocupação e renda ajuda a sustentar o consumo das famílias, mas também pode dificultar uma queda mais rápida da inflação de serviços.

Para 2026, o Rabobank projeta uma taxa média de desemprego de 6%. A instituição avalia que os efeitos defasados dos juros elevados já começam a provocar uma desaceleração, embora estímulos fiscais e parafiscais em ano eleitoral possam limitar a intensidade desse movimento.

Brasil cria 58,6 mil empregos formais em julho

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) apontou a abertura líquida de 58.568 vagas formais em julho. O resultado ficou bem abaixo das 115 mil vagas esperadas pelo mercado e da projeção de 107 mil postos do Rabobank.

Em junho, o saldo havia sido positivo em aproximadamente 145,2 mil vagas. Com ajuste sazonal, foram criados cerca de 33,8 mil empregos em julho, contra 73,5 mil no mês anterior.

O país registrou aproximadamente 2,212 milhões de admissões e 2,178 milhões de desligamentos. Os números confirmam que o mercado formal permanece positivo, mas perde força gradualmente.

Na comparação anual, houve enfraquecimento em diferentes segmentos, incluindo comércio, agronegócio, indústria de transformação, serviços industriais, extração mineral e serviços. A construção civil apresentou estabilidade.

Crédito rural apresenta maior risco entre pessoas físicas

O saldo total de crédito cresceu 9,5% em 12 meses até julho, abaixo dos 9,7% registrados em junho e dos 10,9% observados em julho de 2025. O volume correspondeu a 55,57% do Produto Interno Bruto, próximo da máxima histórica de 55,98% registrada em dezembro do ano passado.

No crédito rural, as concessões para pessoas jurídicas avançaram 15,4% em um ano. Em contrapartida, as operações destinadas às pessoas físicas recuaram 14,4%.

A inadimplência nas operações rurais de pessoas físicas atingiu 8,8%, diante de apenas 0,9% entre pessoas jurídicas. Segundo o relatório, o aumento do risco entre tomadores ligados ao agronegócio, combinado à Selic elevada, contribui para juros e spreads bancários mais altos.

Resultado fiscal tem superávit de R$ 10,8 bilhões

O Governo Central registrou superávit primário de R$ 10,8 bilhões em julho, ligeiramente acima dos R$ 10,6 bilhões esperados pelo mercado.

A receita líquida alcançou R$ 226,3 bilhões, com crescimento real de 7,7% em relação ao mesmo mês de 2025. As despesas totalizaram R$ 215,5 bilhões, queda real de 20,7%, influenciada principalmente pela diferença no calendário de pagamento de precatórios.

Apesar do resultado mensal positivo, as contas públicas acumularam déficit de R$ 80,4 bilhões entre janeiro e julho. Em 12 meses, o saldo negativo chegou a R$ 72,7 bilhões, equivalente a 0,5% do PIB.

O Rabobank projeta déficit de R$ 57 bilhões em 2026, também correspondente a aproximadamente 0,5% do PIB. A instituição alerta que uma possível perda de força da atividade econômica no segundo semestre poderá afetar a arrecadação.

Petróleo, El Niño e fertilizantes mantêm riscos para a inflação

Embora o resultado de agosto tenha melhorado o cenário inflacionário de curto prazo, ainda existem fontes importantes de incerteza. Entre elas estão a volatilidade do petróleo, os conflitos no Oriente Médio, as perspectivas de ocorrência do El Niño e possíveis pressões sobre os preços dos fertilizantes.

Para o agronegócio, o comportamento desses fatores merece atenção. Oscilações no câmbio, nos combustíveis e nos insumos agrícolas podem elevar custos de produção, transporte e comercialização, com efeitos posteriores sobre os preços dos alimentos.

A energia elétrica também deverá continuar provocando oscilações no índice mensal, enquanto a manutenção de um mercado de trabalho aquecido tende a sustentar pressões sobre os serviços.

Rabobank projeta dólar a R$ 5,35 no fim de 2026

O dólar encerrou a última semana de agosto cotado a R$ 5,1942, com valorização de 1,06% diante do real no período. Para o encerramento de 2026, o Rabobank mantém a projeção de R$ 5,35 por dólar.

A estimativa considera a possibilidade de redução do diferencial entre os juros brasileiros e norte-americanos, uma recuperação global da moeda dos Estados Unidos e as dúvidas relacionadas à sustentabilidade fiscal brasileira em ano eleitoral.

No cenário da instituição, a Selic deverá terminar 2026 em 14% ao ano e recuar para 12,50% ao fim de 2027. Já o Produto Interno Bruto deverá crescer 1,8% em 2026 e 2,2% no próximo ano.

O conjunto dos indicadores mostra uma economia ainda sustentada pelo emprego e pela renda, mas com sinais graduais de perda de ritmo. Ao mesmo tempo, a queda recente dos preços representa um avanço no processo de desinflação, embora os riscos fiscais, climáticos e externos continuem impedindo uma melhora mais consistente das expectativas.

Fonte: Portal do Agronegócio

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