Publicidade
Setor Sucroalcooleiro

Usinas de Goiás transformam leveduras do etanol em nova fonte de receita

Indústria bioenergética aproveita a biomassa gerada na fermentação para produzir ingredientes destinados à nutrição animal e avançar no modelo de biorrefinaria


Publicado em: 20/08/2026 às 16:00hs

Usinas de Goiás transformam leveduras do etanol em nova fonte de receita

As usinas de Goiás estão ampliando o aproveitamento industrial da cana-de-açúcar e encontrando novas fontes de receita na produção de leveduras e derivados. Além de etanol, açúcar e bioeletricidade, empresas do estado passaram a transformar parte da biomassa gerada durante a fermentação em ingredientes destinados principalmente à nutrição animal.

O movimento representa uma evolução do modelo tradicional do setor sucroenergético. As unidades industriais começam a atuar como biorrefinarias, conceito baseado na obtenção de diferentes produtos a partir da mesma matéria-prima e dos fluxos gerados ao longo do processo produtivo.

Entre as empresas associadas ao Sindicato da Indústria de Fabricação de Etanol do Estado de Goiás (Sifaeg) que investem nesse segmento estão Denusa, Jalles, Caçu, Nova Galia e Boa Vista.

Biomassa da fermentação ganha valor comercial

A produção de etanol depende da atuação da levedura Saccharomyces cerevisiae, responsável por converter os açúcares presentes no mosto em álcool. Durante esse processo, ocorre a formação de biomassa celular, que pode ser recuperada pela indústria.

Depois de separada, essa biomassa passa por etapas de tratamento, concentração e processamento. Conforme a tecnologia empregada, o material pode dar origem a leveduras inativas, autolisadas ou hidrolisadas, além de outros derivados com diferentes características nutricionais e funcionais.

Em vez de limitar a operação à fabricação de biocombustíveis, as usinas aproveitam um material que já integra a rotina industrial para desenvolver produtos de maior valor agregado.

Nutrição animal lidera demanda por leveduras

A alimentação animal está entre os principais mercados para as leveduras produzidas pelas usinas goianas. A levedura inativa seca pode ser empregada como fonte de proteínas e outros nutrientes na formulação de rações.

Os produtos autolisados e hidrolisados, por sua vez, apresentam componentes celulares que permitem aplicações específicas, de acordo com a espécie, a composição do ingrediente e os objetivos nutricionais da dieta.

Esses produtos podem ser utilizados em formulações para:

  • bovinos;
  • aves;
  • suínos;
  • peixes;
  • camarões;
  • cães e gatos.

A expansão da produção mundial de proteínas de origem animal amplia o potencial de demanda por ingredientes que contribuam para a eficiência nutricional das rações.

Parede celular tem aplicações funcionais

A parede celular da levedura também desperta interesse da indústria de nutrição animal. Essa fração concentra componentes como beta-glucanas e mananoligossacarídeos, utilizados em diferentes formulações.

Os ingredientes vêm sendo avaliados por suas possíveis aplicações funcionais, inclusive na aquicultura. O uso depende das características do produto, da finalidade nutricional e da recomendação técnica para cada sistema produtivo.

Além das rações, os derivados de levedura podem encontrar espaço na fabricação de alimentos, em processos de fermentação industrial e no desenvolvimento de ingredientes funcionais.

Cana-de-açúcar passa a gerar portfólio mais amplo

A diversificação permite extrair mais valor econômico da mesma matéria-prima. A cana-de-açúcar que chega à unidade industrial pode originar açúcar, etanol, eletricidade, biogás, biometano e ingredientes derivados da fermentação.

Esse aproveitamento mais amplo reduz a dependência dos mercados tradicionais e cria novas possibilidades comerciais para as usinas. A estratégia também pode aumentar a eficiência das plantas ao incorporar materiais do próprio processo produtivo a novas cadeias de valor.

“A indústria de bioenergia está cada vez mais preparada para aproveitar integralmente os recursos disponíveis no processo produtivo. A produção de leveduras é um bom exemplo de como uma usina pode diversificar sua atuação, agregar valor e acessar novos mercados a partir de um material que já faz parte do processo de fabricação do etanol”, afirma André Rocha, presidente-executivo do Sifaeg e presidente da Federação das Indústrias do Estado de Goiás (Fieg).

Modelo de biorrefinaria avança no setor bioenergético

A transformação de usinas em biorrefinarias acompanha uma tendência internacional de diversificação das plantas de bioenergia. Nesse modelo, as unidades deixam de produzir apenas combustível e passam a desenvolver um portfólio formado por energia, ingredientes, insumos e produtos industriais.

“Estamos falando de uma indústria que produz combustível renovável e energia, mas que também amplia seu portfólio para ingredientes, insumos e outros produtos de maior valor agregado. É a lógica da biorrefinaria ganhando espaço no setor”, destaca Rocha.

No Brasil, a disponibilidade de cana-de-açúcar, a escala do setor sucroenergético e a experiência acumulada em processos de fermentação oferecem condições favoráveis ao desenvolvimento desses novos negócios.

Diversificação combina eficiência e sustentabilidade

Para o Sifaeg, a produção de leveduras mostra como competitividade e sustentabilidade podem avançar conjuntamente na indústria bioenergética.

Ao encontrar novas aplicações para a biomassa da fermentação, as usinas ampliam o aproveitamento dos recursos, reduzem perdas industriais e criam receitas adicionais sem depender exclusivamente das vendas de açúcar e etanol.

A diversificação também fortalece a integração entre o setor sucroenergético e outras cadeias do agronegócio, especialmente a pecuária, a avicultura, a suinocultura e a aquicultura.

Com novos investimentos em tecnologia e processamento, as leveduras podem ganhar participação no portfólio das usinas goianas e consolidar o avanço das biorrefinarias no Brasil.

Fonte: Portal do Agronegócio

◄ Leia outras notícias