Tarifa dos EUA ameaça exportações de açúcar brasileiro e aumenta pressão sobre usinas do Nordeste
Nova sobretaxa americana pode reduzir competitividade do açúcar bruto nacional, afetar principalmente usinas nordestinas e provocar mudanças no fluxo global da commodity.
Publicado em: 29/07/2026 às 18:00hs
A entrada em vigor da tarifa adicional de 25% aplicada pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros aumenta as incertezas para o setor sucroenergético e pode gerar impactos mais intensos sobre as usinas do Nordeste, tradicionais fornecedoras de açúcar bruto para a cota americana de importação.
Embora o mercado dos Estados Unidos represente uma parcela limitada das exportações totais de açúcar do Brasil, especialistas avaliam que a medida pode alterar a dinâmica do comércio internacional, ampliar a disponibilidade do produto em outros destinos e pressionar as cotações globais no curto prazo.
Segundo levantamento da plataforma Global Trade, o Brasil passou a ocupar a posição de segunda economia mais tarifada pelos Estados Unidos, atrás apenas da China.
Açúcar brasileiro enfrenta barreiras no mercado americano
O mercado de açúcar dos Estados Unidos já opera dentro de um sistema altamente protegido por meio das cotas tarifárias de importação (TRQ), que permitem a entrada de volumes limitados com tarifas reduzidas.
Fora dessas cotas, a tributação pode superar 100%, tornando economicamente inviável a entrada de grandes volumes de açúcar estrangeiro no país.
De acordo com análise da consultoria StoneX, o Brasil possui participação estratégica dentro da cota americana destinada ao açúcar bruto. Para o exercício de 2026, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) destinou ao país uma cota de aproximadamente 156 mil toneladas de açúcar bruto.
Com a nova tarifa adicional, o produto brasileiro tende a chegar mais caro aos compradores americanos, reduzindo sua competitividade e podendo comprometer o preenchimento integral dessa cota.
Usinas do Nordeste devem sentir maior impacto
As empresas nordestinas devem ser as mais afetadas pela medida devido à maior dependência histórica do mercado americano.
Segundo os analistas da StoneX, Letícia Correia e Marcelo Bonifácio, a redução dos embarques para os Estados Unidos poderá obrigar as usinas brasileiras a buscar novos destinos para o açúcar, aumentando a oferta disponível no mercado internacional.
Esse movimento ocorre em um cenário de oferta global confortável, o que pode gerar pressão adicional sobre os preços internacionais da commodity.
Enquanto o Centro-Sul brasileiro possui maior diversificação de mercados e maior participação na produção total de açúcar, o Nordeste mantém uma relação histórica com a exportação de açúcar bruto para os Estados Unidos.
Setor critica proteção americana ao açúcar
O presidente do Sindicato da Indústria do Açúcar e do Álcool de Pernambuco (Sindaçúcar-PE), Renato Cunha, afirmou que a nova medida amplia uma política de proteção que já existe no mercado americano.
Segundo ele, os Estados Unidos mantêm barreiras elevadas para o açúcar, enquanto defendem maior abertura do mercado brasileiro para o etanol produzido no país.
Para Cunha, existe uma assimetria comercial entre os dois países, com regras mais restritivas para produtos brasileiros e maior pressão por abertura em outros segmentos do setor energético.
O dirigente defendeu a retomada de negociações para estabelecer uma relação comercial mais equilibrada entre Brasil e Estados Unidos.
México pode ampliar participação no fornecimento de açúcar aos EUA
Enquanto o Brasil enfrenta novas restrições comerciais, o México deve ampliar sua presença no abastecimento do mercado americano.
Segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), as importações de açúcar mexicano pelos EUA podem alcançar 1,15 milhão de toneladas na safra 2026/27, volume significativamente superior ao previsto para a temporada anterior.
O aumento está relacionado a um novo acordo bilateral entre os dois países, que estabelece regras atualizadas para o acesso do açúcar mexicano ao mercado americano.
Além disso, a mudança deve elevar a remuneração dos produtores mexicanos de cana-de-açúcar para cerca de 4,76 bilhões de pesos mexicanos, equivalente a aproximadamente US$ 272 milhões na próxima temporada.
Mercado global pode limitar impactos no longo prazo
Apesar da pressão inicial sobre as cotações internacionais, analistas avaliam que os efeitos da tarifa podem ser parcialmente compensados por fatores de oferta e demanda no mercado mundial.
A StoneX destaca que a produção americana de açúcar de beterraba enfrenta riscos relacionados ao clima, especialmente devido às altas temperaturas em regiões produtoras do Hemisfério Norte.
Uma eventual redução da produção doméstica dos Estados Unidos poderia aumentar novamente a necessidade de importações e limitar os impactos negativos sobre os preços.
Além disso, o mercado internacional de açúcar pode caminhar para um cenário de déficit na safra 2026/27, condição que tende a oferecer suporte às cotações da commodity.
Agronegócio brasileiro acompanha impactos da nova tarifa
A nova barreira comercial americana reforça a necessidade de diversificação dos destinos de exportação para o setor sucroenergético brasileiro.
Para as usinas, especialmente as localizadas no Nordeste, o desafio será encontrar novos mercados capazes de absorver volumes adicionais de açúcar sem provocar queda significativa nas remunerações.
O cenário internacional do açúcar continuará sendo influenciado pela política comercial dos Estados Unidos, pela produção global e pela capacidade brasileira de manter competitividade em um ambiente de maior disputa por mercados.
Fonte: Portal do Agronegócio
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