Produção global de biocombustíveis pode crescer quase 70% até 2030 com crise no Golfo Pérsico
Aumento das metas de mistura impulsiona etanol e biodiesel, mas expansão pode exigir 36 milhões de hectares adicionais e ampliar riscos para alimentos e meio ambiente
Publicado em: 22/09/2026 às 19:40hs
A produção mundial de biocombustíveis poderá crescer quase 70% até 2030, na comparação com os níveis registrados em 2025. A expansão deve ser estimulada pelo aumento das metas de mistura adotadas ou propostas por grandes economias após o agravamento da crise energética provocada pela guerra no Irã.
A projeção faz parte de um estudo elaborado pelo instituto britânico Chatham House em parceria com o Forest Stewardship Council (FSC), organização internacional sem fins lucrativos voltada à certificação florestal.
O avanço dos biocombustíveis ganha força em um cenário de valorização do petróleo e de busca por maior segurança energética. Desde o início do conflito no Irã, no fim de fevereiro, os preços do petróleo acumulam alta próxima de 40%. No mesmo período, açúcar e milho — matérias-primas utilizadas na produção de combustíveis renováveis — subiram cerca de 20%.
Metas de mistura aceleram demanda por etanol e biodiesel
Brasil, China, Índia, Indonésia, Estados Unidos e União Europeia estão entre os mercados que anunciaram, adotaram ou passaram a discutir percentuais mais elevados de biocombustíveis misturados à gasolina e ao diesel.
Produtos como etanol e biodiesel ganham competitividade quando os combustíveis fósseis ficam mais caros. O etanol pode ser obtido de matérias-primas como cana-de-açúcar e milho, enquanto outros biocombustíveis utilizam óleos vegetais, gorduras e diferentes fontes de biomassa.
Além de reduzir a dependência do petróleo, o aumento da mistura é visto pelos governos como instrumento para fortalecer o abastecimento doméstico e diminuir a exposição a crises geopolíticas.
Expansão pode exigir área equivalente à Alemanha
Caso todas as metas propostas sejam implementadas integralmente, a área destinada às matérias-primas dos biocombustíveis poderá mais que dobrar até 2030 em relação a 2023, segundo os pesquisadores.
O crescimento exigiria aproximadamente 36 milhões de hectares adicionais, extensão semelhante ao território da Alemanha. Para os autores, a velocidade dessa expansão pode fazer a demanda avançar mais rapidamente do que os sistemas de certificação, fiscalização ambiental e planejamento territorial.
O estudo alerta que o aumento acelerado da produção, sem salvaguardas adequadas, pode intensificar a disputa por terras agricultáveis, elevar a pressão sobre recursos naturais e dificultar o controle de impactos ambientais.
Segurança energética pode pressionar preços dos alimentos
A ampliação do uso de grãos, açúcar e óleos vegetais para fins energéticos também recoloca no centro do debate a concorrência entre a produção de combustíveis e a oferta de alimentos.
Na avaliação dos pesquisadores, políticas direcionadas à segurança energética no curto prazo podem criar vulnerabilidades para a segurança alimentar no médio prazo. Um novo choque climático, especialmente em regiões produtoras, teria potencial para agravar a oferta e provocar novas altas nas cotações agrícolas.
Essa preocupação é maior no caso dos biocombustíveis convencionais, também chamados de primeira geração, produzidos diretamente a partir de culturas agrícolas que integram as cadeias de alimentação humana e animal.
Segunda safra e áreas degradadas podem reduzir impactos
O estudo aponta que o cultivo de matérias-primas em áreas degradadas ou durante a segunda safra pode diminuir a pressão pela abertura de novas áreas. Dependendo do sistema produtivo adotado, essas práticas também podem contribuir para recuperar ou melhorar as condições do solo.
No entanto, os autores observam que esse modelo ainda não predomina na produção mundial de biocombustíveis de primeira geração. Por isso, a expansão projetada até 2030 deverá ser acompanhada por regras de rastreabilidade, certificação ambiental e controle do uso da terra.
O desafio dos países produtores será conciliar o crescimento do etanol e do biodiesel com a preservação ambiental e a estabilidade da oferta de alimentos. Nesse cenário, políticas de expansão baseadas em ganhos de produtividade, aproveitamento de resíduos e uso eficiente das áreas agrícolas tendem a ganhar importância no mercado global de energia renovável.
Fonte: Portal do Agronegócio
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