Fêmeas superprecoces elevam produção de bezerros e poupam 5 mil hectares de pastagens
Sistema adotado pela Colpar em parceria com a Trouw Nutrition antecipa a prenhez de novilhas, aumenta o desfrute do rebanho e permite expandir a pecuária de cria sem abrir novas áreas
Publicado em: 27/08/2026 às 15:00hs
A adoção de fêmeas superprecoces está permitindo à pecuária de corte produzir mais bezerros na mesma área, reduzir o período improdutivo das novilhas e limitar a pressão pela abertura de novas pastagens. Nesse sistema, as fêmeas entram em reprodução entre 12 e 14 meses, enquanto no modelo convencional a primeira estação de monta pode ocorrer somente aos 24 ou até aos 36 meses.
A estratégia integra o trabalho desenvolvido pela Colpar Participações SA em parceria com a Trouw Nutrition há quase uma década. Segundo estimativas do grupo, o uso das novilhas superprecoces em larga escala evitou a incorporação de aproximadamente 5 mil hectares que seriam necessários para sustentar o crescimento do rebanho em um sistema tradicional de recria.
O modelo combina nutrição estratégica, melhoramento genético, manejo intensivo de pastagens e protocolos sanitários específicos. Os resultados incluem taxas de prenhez entre 70% e 75%, aumento do desfrute para cerca de 45% e maior número de bezerros produzidos por matriz ao longo da vida útil.
Prenhez antecipada acelera crescimento do rebanho
A Colpar mantém mais de 85 mil bovinos distribuídos por propriedades em Mato Grosso do Sul, São Paulo e Mato Grosso. Depois de ampliar seu rebanho nos últimos 15 anos, o grupo trabalha com a meta de dobrar o número de animais até 2030, sem depender da expansão proporcional da área de pastagens.
A implantação do programa de fêmeas superprecoces começou em 2015, inicialmente com animais F1 Angus. A partir de 2019, o sistema também passou a incluir novilhas Nelore.
Atualmente, cerca de 7.500 fêmeas superprecoces participam anualmente da estação de monta. A meta é que, dentro de dois anos, todas as primíparas do grupo sejam provenientes desse modelo.
Ao antecipar a primeira prenhez, a fazenda reduz o tempo durante o qual a novilha consome recursos sem produzir bezerros. A mudança permite elevar a produtividade das matrizes, melhorar o aproveitamento do rebanho e acelerar o retorno dos investimentos feitos durante a recria.
“Produzir mais bezerros na mesma área, sem pressão por desmatamento, é um pilar importante para nós”, afirma o gerente do Núcleo 1 da Colpar, Ângelo Nakagawa.
Sistema teria poupado cerca de 5 mil hectares
Em um sistema convencional, novilhas mantidas por dois ou três anos antes da primeira gestação demandam pasto, mão de obra, suplementação e cuidados sanitários sem gerar receita por meio da produção de bezerros.
Com a redução dessa fase improdutiva, a Colpar conseguiu aumentar o número de matrizes em produção e melhorar o desfrute sem ampliar as pastagens na mesma proporção. O grupo estima que seriam necessários aproximadamente 5 mil hectares adicionais caso o crescimento tivesse ocorrido pelo modelo tradicional.
Além da economia de área, pastagens mais produtivas e bem manejadas podem elevar a capacidade de suporte da propriedade, aumentar a produção de biomassa e favorecer o armazenamento de carbono no solo.
Manejo de pastagens amplia estoque de carbono no solo
A intensificação sustentável depende da combinação entre correção e fertilidade do solo, manejo da altura do pasto, adubação, suplementação estratégica e oferta adequada de forragem.
Segundo o professor titular de Zootecnia da Faculdade de Ciências Agrárias e Veterinárias da Unesp, campus de Jaboticabal, Ricardo Andrade Reis, práticas agronômicas bem executadas são determinantes para preservar a produtividade das pastagens e ampliar o estoque de carbono no solo.
Pesquisas conduzidas pela FCAV/Unesp em sistemas de recria indicaram que o manejo adequado, com manutenção da massa de raízes e oferta contínua de forragem, elevou o acúmulo anual de carbono de 0,3 tonelada por hectare, em sistemas tradicionais, para 0,9 tonelada por hectare em sistemas melhorados.
Esse resultado representa potencial de mitigação de até 3,3 toneladas de dióxido de carbono equivalente por hectare ao ano. O efeito está relacionado à maior incorporação de carbono pelas raízes e pela parte aérea das plantas, além do aumento da produtividade dos pastos e da capacidade de lotação.
Eficiência reprodutiva reduz emissões por quilo de carne
A sustentabilidade da pecuária não depende apenas das emissões totais da propriedade, mas também da quantidade de carne ou de bezerros produzida com os recursos utilizados.
Indicadores como taxa de prenhez, desmame, reconcepção e desfrute influenciam a pegada de carbono por quilo de carcaça. Quanto mais tempo uma fêmea permanece no rebanho sem produzir, maior tende a ser o impacto ambiental atribuído a cada bezerro.
A entrada antecipada das novilhas na reprodução diminui o período improdutivo e amplia o número potencial de crias por matriz. Quando associada ao manejo eficiente do solo e à nutrição adequada, a estratégia pode reduzir a intensidade das emissões do sistema.
Na Colpar, aproximadamente 40% das matrizes têm menos de 36 meses. A elevada presença de animais jovens aumenta as exigências nutricionais, mas também acelera a renovação genética e reduz a idade média do rebanho.
Novilha precisa atingir até 65% do peso adulto
A precocidade sexual não depende apenas da idade. Para que uma novilha Nelore esteja apta à reprodução a partir dos 12 meses, ela deve alcançar entre 60% e 65% do peso adulto.
No caso da Colpar, as matrizes adultas pesam em torno de 480 quilos. Isso exige metas rigorosas de ganho de peso desde a desmama até a estação de monta, realizada entre março e outubro.
O programa utiliza suplementação proteico-energética contínua, pastagens com alta disponibilidade de forragem e, em anos de seca mais severa, produção complementar de alimento.
“Sem um plano nutricional forte a pasto, essas fêmeas não atingem o peso mínimo para entrar na estação de monta e manter desempenho nos anos seguintes”, explica o gerente técnico de Gado de Corte da Trouw Nutrition no Centro-Oeste e Sul, André Alves de Oliveira.
Desafio nutricional continua após a primeira prenhez
A confirmação da prenhez não encerra o desafio. As novilhas superprecoces precisam continuar crescendo enquanto sustentam a gestação e, posteriormente, a lactação. Essa sobreposição de exigências demanda um manejo diferente daquele aplicado às vacas adultas.
A suplementação é ajustada conforme as condições climáticas, a disponibilidade de pasto e o desempenho dos lotes. As visitas técnicas às propriedades ocorrem em intervalos de 30 a 40 dias.
A meta é que as fêmeas cheguem ao primeiro parto com aproximadamente 85% do peso adulto. O planejamento busca evitar perdas excessivas de condição corporal, problemas no parto e redução da taxa de reconcepção.
Taxa de prenhez chega a 75% em sistema exclusivamente a pasto
Mesmo com os animais mantidos exclusivamente em pastagens, a Colpar registra taxas de prenhez entre 70% e 75% entre as superprecoces. Os índices de reconcepção permanecem em patamares semelhantes, resultado considerado importante para a sustentabilidade econômica do programa.
“É comum ver projetos que performam bem no primeiro ano e depois caem drasticamente por falta de cuidado com as primíparas. Aqui, o manejo é permanente”, afirma o zootecnista e representante comercial da Bellman/Trouw Nutrition, Gil Cléver Coelho.
A reconcepção é um dos pontos mais críticos do sistema. Após o primeiro parto, a matriz jovem precisa recuperar sua condição corporal, continuar crescendo, amamentar o bezerro e emprenhar novamente dentro da estação reprodutiva.
Genética acelera precocidade de fêmeas e machos
Desde 2017, a Colpar intensificou a seleção genética com uso de marcadores moleculares e redução do intervalo entre gerações. A meta é diminuir a idade média das matrizes para seis anos, mantendo no rebanho animais mais jovens e produtivos.
A seleção para precocidade também produz reflexos nos machos. Grande parte dos bovinos destinados ao abate deixa o sistema antes dos 24 meses, com carcaças superiores a 20,5 arrobas.
A integração entre genética e nutrição permite que os animais expressem o potencial produtivo em menor tempo. O avanço, no entanto, depende de condições adequadas de pastagem, suplementação, sanidade e acompanhamento técnico.
Sanidade de novilhas jovens exige protocolos específicos
As fêmeas superprecoces apresentam menor maturidade imunológica em comparação com vacas adultas. Por isso, o programa sanitário precisa considerar os riscos reprodutivos e a proteção dos bezerros durante os primeiros meses de vida.
De acordo com o médico-veterinário e consultor independente Sidney Elzidio, a vacinação reprodutiva e os protocolos aplicados no período pré-parto são essenciais para proteger a gestação e ampliar a resposta imunológica das matrizes jovens.
A imunização adequada também contribui para a transferência de anticorpos aos bezerros por meio do colostro, reduzindo a vulnerabilidade dos animais na fase inicial.
Desfrute do rebanho avança para cerca de 45%
A combinação de prenhez antecipada, nutrição, genética, sanidade e manejo de pastagens provocou uma mudança estrutural nos índices produtivos da Colpar.
A taxa de desfrute, que anteriormente variava entre 30% e 35%, alcançou aproximadamente 45%. Apesar das maiores exigências das fêmeas jovens, o custo do bezerro desmamado permaneceu estável, segundo o coordenador técnico da Bellman/Trouw Nutrition, Rodrigo Lopes.
O ganho de eficiência compensou as despesas adicionais com suplementação, monitoramento e manejo das novilhas e primíparas. Com mais animais produtivos e menos tempo de permanência no sistema, a propriedade passou a obter maior produção na mesma área.
Novos estudos buscam reduzir a pegada de carbono da cria
A Colpar mantém pesquisas em parceria com instituições como a Esalq/USP e a Unesp, campus de Araçatuba. Os trabalhos buscam aperfeiçoar o desempenho das fêmeas superprecoces e integrar produtividade, genética, qualidade da carne e redução da pegada de carbono.
O modelo mostra que a intensificação da pecuária pode ocorrer sem expansão proporcional das pastagens. Quando sustentada por planejamento nutricional, manejo do solo, seleção genética e controle sanitário, a prenhez antecipada torna-se uma ferramenta para elevar a produção de bezerros, melhorar o retorno econômico e reduzir a pressão por novas áreas.
Fonte: Portal do Agronegócio
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