Consumo de fertilizantes no Brasil pode cair para menos de 42 milhões de toneladas em 2026
Crédito restrito, custos elevados e escassez de enxofre levam setor a revisar projeções após o recorde de 49,1 milhões de toneladas registrado em 2025.
Publicado em: 29/10/2026 às 17:30hs
O consumo de fertilizantes no Brasil pode voltar, em 2026, a patamares próximos aos de 2022. Após o recorde de 49,1 milhões de toneladas registrado no ano passado, estimativas do setor apontam retração diante do adiamento de compras pelos produtores, da dificuldade de acesso ao crédito e dos custos elevados dos insumos.
As projeções variam. A Mosaic calcula que as entregas do mercado brasileiro podem ficar entre 42 milhões e 44 milhões de toneladas, enquanto a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) considera possível um resultado abaixo de 42 milhões. Em 2022, o consumo nacional ficou em cerca de 41 milhões de toneladas.
A revisão ocorre em meio aos efeitos da guerra no Oriente Médio sobre o fornecimento de matérias-primas, especialmente o enxofre, e às incertezas sobre a demanda para a próxima safrinha.
Fertilizantes: projeções caem com compras mais lentas
Em agosto, a estimativa de mercado estava próxima de 45 milhões de toneladas, segundo a consultoria Argus. Desde então, o ritmo das compras levou participantes do setor a rever suas expectativas.
Renata Cardarelli, responsável pela precificação de agricultura e fertilizantes da Argus, aponta a ausência de uma demanda mais forte de última hora para o plantio da soja 2026/27 e o comportamento das importações de nitrogenados entre os fatores que motivaram a revisão.
Para Ana Lígia Lenat, coordenadora de inteligência e projetos da CNA, a retração da procura, somada às limitações na produção de fosfatados, reforça a possibilidade de consumo inferior a 42 milhões de toneladas.
Escassez de enxofre limita produção de fertilizantes fosfatados
A disponibilidade e o preço do enxofre estão entre os principais desafios da indústria. O insumo é utilizado na produção de fertilizantes fosfatados, e sua escassez levou empresas a suspender ou reduzir atividades em unidades brasileiras.
A Mosaic anunciou paralisações temporárias ou parciais em cinco plantas no Brasil e redução da produção em duas unidades de mistura. Para a companhia, as entregas do setor podem recuar entre 10% e 15% em 2026.
Felipe Pecci, vice-presidente comercial da empresa, avalia que o mercado pode entrar em 2027 com estoques menores, importações reduzidas e produção nacional limitada pela dificuldade de acesso ao enxofre.
Segundo o executivo, um consumo abaixo de 42 milhões de toneladas não está descartado. O resultado dependerá, entre outros fatores, do calendário de compras para a safrinha, dos efeitos do El Niño e de possíveis restrições chinesas às exportações de sulfato de amônio.
Entregas de fertilizantes caem 8,8% até julho
O levantamento mais recente da Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) aponta entregas de 22,9 milhões de toneladas de fertilizantes entre janeiro e julho, queda de 8,8% em relação ao mesmo período de 2025.
Somente em julho, o volume entregue foi de 3,9 milhões de toneladas, retração de 22,3% na comparação anual.
A produção nacional de fertilizantes intermediários também recuou. Em julho, foram produzidas 517 mil toneladas, baixa de 19,9%. No acumulado dos sete primeiros meses, a produção somou 3,3 milhões de toneladas, redução de 19,7%.
Segundo a Anda, o resultado está relacionado principalmente às sucessivas altas do enxofre, utilizado na fabricação de fosfatados.
Preço do enxofre recua, mas indústria ainda vê pressão
Dados da StoneX apontam queda de 23% nos preços do enxofre ao longo de sete semanas, movimento que levou o valor do insumo para abaixo de US$ 1.000 por tonelada. Ainda assim, representantes da indústria consideram o patamar elevado.
Bernardo Silva, diretor-executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert), destaca que a pressão sobre o mercado não se limita aos efeitos da guerra no Oriente Médio. Segundo ele, o aumento da demanda associado à transição energética já influenciava os preços antes do conflito.
Na avaliação do dirigente, o abastecimento de fertilizantes permanece exposto a riscos no curto e no médio prazo.
Produtor rural reduz compras e revê adubação
A alta dos custos e as restrições de crédito têm levado agricultores a adiar compras e ajustar o uso de fertilizantes. Segundo Mauricio Buffon, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), parte dos produtores está recorrendo ao fósforo acumulado no solo em anos anteriores para reduzir temporariamente a reposição.
Buffon reconhece que a redução da adubação pode afetar a produção, mas afirma que a medida tem sido considerada diante da dificuldade financeira e do risco de ampliação do endividamento.
A intensidade dos efeitos depende das condições de fertilidade de cada área e das decisões de manejo adotadas na propriedade.
Safra de soja e resultados das empresas ficam no radar
A revisão das estimativas de consumo ocorre enquanto a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta crescimento de 1,4% na área de soja da safra 2026/27, o menor avanço dos últimos 20 anos. A produção estimada é de 181,6 milhões de toneladas, em um ciclo que também exige atenção aos possíveis efeitos do El Niño.
A combinação de insumos caros e compras mais lentas afeta as empresas de fertilizantes. A norueguesa Yara informou lucro líquido de US$ 199 milhões no terceiro trimestre, queda de 37,8% na comparação anual.
Segundo Diogo Rezende, vice-presidente de vendas da Yara Brasil, além das questões geopolíticas, a rentabilidade de algumas culturas e as restrições de crédito interferem no ritmo de compra dos produtores e na dinâmica do setor.
Fonte: Portal do Agronegócio
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