Brasil dificilmente será autossuficiente em fertilizantes, avalia Mosaic
Dependência externa de 85%, fechamento de fábricas, gargalos logísticos e conflitos geopolíticos ampliam a vulnerabilidade do agronegócio brasileiro no abastecimento de insumos
Publicado em: 26/08/2026 às 10:35hs
O Brasil deverá continuar dependente das importações de fertilizantes, mesmo com os esforços para ampliar a produção nacional. A avaliação é de Eduardo de Souza Monteiro, country manager da Mosaic, que também questiona a viabilidade econômica de o país buscar a autossuficiência completa no setor.
A declaração foi feita durante o Congresso Brasileiro de Fertilizantes, em São Paulo, no painel “Geopolítica e os fertilizantes: como o Brasil pode reduzir vulnerabilidades”.
“O Brasil não vai ser autossuficiente em fertilizantes. E talvez nem seja economicamente viável”, afirmou o executivo.
Brasil importa 85% dos fertilizantes consumidos
O presidente da Yara Brasil, Marcelo Altieri, destacou que a dependência brasileira aumentou nos últimos anos. Atualmente, aproximadamente 85% dos fertilizantes utilizados no país são fornecidos pelo mercado internacional.
Segundo Altieri, o cenário ficou mais preocupante porque, nos últimos cinco anos, o Brasil fechou mais fábricas de fertilizantes do que inaugurou novas unidades.
Apesar da elevada exposição ao exterior, o setor mantém o abastecimento de uma das maiores potências agrícolas do mundo. Conforme o executivo, a cadeia consegue entregar anualmente entre 40 milhões e 45 milhões de toneladas de fertilizantes ao mercado brasileiro, mesmo diante de um ambiente internacional complexo.
Guerras expõem riscos no abastecimento do agronegócio
Os conflitos no Mar Negro e no Oriente Médio reforçaram os riscos associados à concentração da oferta global de fertilizantes. Guerras, sanções econômicas, restrições comerciais e interrupções logísticas podem comprometer rotas de fornecimento em curto espaço de tempo.
Altieri ressaltou que os acontecimentos recentes demonstraram como cadeias internacionais podem ser interrompidas repentinamente. Como resposta, empresas do setor passaram a aprimorar o planejamento das compras, o gerenciamento de riscos e a eficiência logística.
Essa preparação é estratégica para o agronegócio brasileiro, que depende de grandes volumes de fertilizantes importados para sustentar a produtividade das lavouras de soja, milho, café, cana-de-açúcar, algodão e outras culturas.
Logística brasileira eleva custos e vulnerabilidades
Além da dependência externa, os gargalos logísticos representam outro desafio para o abastecimento nacional. O diretor da Escola de Relações Internacionais da Fundação Getulio Vargas (FGV), Matias Spektor, afirmou que a deficiência da infraestrutura brasileira tende a se tornar um problema ainda maior.
A movimentação de fertilizantes envolve portos, ferrovias, rodovias, armazéns e centros de distribuição. Entretanto, a limitada integração entre esses modais encarece o transporte dos insumos até as principais regiões produtoras.
Como o Brasil importa a maior parte dos fertilizantes e possui áreas agrícolas distantes do litoral, falhas na infraestrutura podem ampliar custos, provocar atrasos e reduzir a competitividade do produtor rural.
Setor defende política de Estado para fertilizantes
Na avaliação do embaixador Rubens Barbosa, diretor-presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice), o Brasil precisa utilizar sua diplomacia de forma mais estratégica para reduzir os riscos relacionados ao fornecimento de fertilizantes.
O diplomata defendeu uma atuação de médio e longo prazos, baseada em políticas permanentes para ampliar a segurança do abastecimento, estimular investimentos, diversificar fornecedores e fortalecer as relações comerciais com países produtores.
Para Barbosa, o tema não deve ficar condicionado às prioridades de cada administração federal. A redução das vulnerabilidades exige uma política de Estado, capaz de garantir continuidade aos projetos e oferecer previsibilidade aos investidores.
Segurança do abastecimento ganha prioridade
Embora a autossuficiência total seja considerada improvável ou economicamente questionável, o Brasil pode diminuir sua exposição com o aumento da produção doméstica, a diversificação das origens importadoras e a melhoria da infraestrutura logística.
O fortalecimento da indústria nacional, a formação de parcerias internacionais e o aprimoramento da gestão de estoques também aparecem como caminhos para proteger o agronegócio de crises geopolíticas.
Nesse cenário, o principal desafio não é eliminar completamente as importações, mas construir uma cadeia de fertilizantes mais segura, diversificada e resistente a interrupções no mercado mundial.
Fonte: Portal do Agronegócio
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