Atraso na importação de fertilizantes acende alerta para safra 2026/27, aponta Rabobank
AgroInfo 2026 mostra queda de 25% nas compras externas de ureia e de 21% nas importações de MAP; menor disponibilidade e custos elevados podem pressionar soja e milho safrinha
Publicado em: 28/08/2026 às 10:40hs
O atraso nas importações brasileiras de fertilizantes aumentou a preocupação com o abastecimento de insumos para a safra 2026/27. A ureia e o fosfato monoamônico, conhecido como MAP, concentram os principais riscos, segundo análise divulgada pelo Rabobank na edição de agosto do AgroInfo 2026.
Entre janeiro e julho, o Brasil importou 2,33 milhões de toneladas de ureia, queda de aproximadamente 25% em relação às 3,07 milhões de toneladas adquiridas no mesmo período de 2025.
O cenário merece atenção devido à importância do fertilizante nitrogenado para o milho, especialmente para a segunda safra. Mesmo que as compras brasileiras alcancem volumes mensais recordes entre agosto e dezembro, o Rabobank estima que as importações de ureia poderão terminar 2026 cerca de 5% abaixo do resultado do ano anterior.
Além do risco relacionado à disponibilidade, a volatilidade dos preços internacionais e a situação financeira dos produtores podem elevar os custos e manter as margens agrícolas pressionadas por mais um ciclo.
Conflito no Oriente Médio eleva volatilidade dos fertilizantes
A intensificação dos conflitos no Oriente Médio, observada desde março, aumentou a instabilidade no mercado mundial de fertilizantes. Os efeitos foram mais expressivos sobre os produtos nitrogenados e fosfatados.
As cotações internacionais passaram a alternar movimentos de alta e correções, dificultando a definição do melhor momento para as compras. Diante dessa incerteza, parte dos produtores adiou a aquisição de adubos para a próxima temporada.
Esse comportamento reduziu antecipações e contribuiu para o atraso no fluxo de importações. Como o Brasil depende fortemente do mercado externo para atender à demanda por fertilizantes, qualquer interrupção logística ou aumento dos preços internacionais pode alcançar rapidamente os custos das lavouras.
Os conflitos também podem afetar o preço do gás natural, principal matéria-prima para a fabricação de fertilizantes nitrogenados, além de rotas marítimas importantes para o abastecimento brasileiro.
Importações de ureia caem 25% até julho
A ureia representa o maior ponto de atenção do relatório. As importações acumuladas nos sete primeiros meses de 2026 ficaram 740 mil toneladas abaixo do volume registrado no mesmo intervalo do ano passado.
O insumo é utilizado como fonte de nitrogênio em diferentes culturas, mas ganha importância especial na adubação de cobertura do milho. Uma disponibilidade menor poderá afetar o planejamento da safrinha de 2027, principalmente se o plantio exigir uma concentração das compras em um período mais curto.
A avaliação do RaboResearch mostra que nem mesmo volumes recordes de importação no restante do ano seriam suficientes para igualar o resultado de 2025.
Quando todos os fertilizantes nitrogenados são convertidos em quantidade equivalente de nutriente, as importações brasileiras apresentam uma redução de aproximadamente 20% na comparação anual. As compras de outras fontes de nitrogênio compensam apenas uma pequena parcela do déficit deixado pela ureia.
MAP também apresenta forte retração nas compras
Os fertilizantes fosfatados também exigem monitoramento. O volume total de fósforo importado pelo Brasil está cerca de 9% abaixo do registrado no ano anterior.
No caso do MAP, produto amplamente utilizado no plantio de soja, milho e outras culturas, a retração chega a aproximadamente 21%.
A queda nas importações pode aumentar a disputa pelo produto durante a preparação da safra e pressionar os preços no mercado doméstico. O impacto dependerá dos estoques disponíveis, do ritmo das entregas e da capacidade de substituição por outras fontes de fósforo.
O desempenho positivo ficou por conta do superfosfato triplo, ou TSP. O Brasil já importou pouco mais de 1,5 milhão de toneladas do produto em 2026, volume equivalente a aproximadamente 90% de todas as compras realizadas ao longo de 2025.
Apesar desse avanço, o Rabobank avalia que o aumento nas aquisições de TSP não elimina integralmente a preocupação com a menor entrada de MAP.
Entregas de fertilizantes podem atingir 45,1 milhões de toneladas
O RaboResearch manteve em 45,1 milhões de toneladas sua projeção para as entregas de fertilizantes ao consumidor final no Brasil.
A estimativa indica uma demanda ainda elevada, mesmo diante da redução das margens de algumas culturas, do aumento do endividamento rural e da maior cautela na aquisição de insumos.
O cumprimento da projeção dependerá de uma aceleração das importações e das entregas durante os próximos meses. A ureia deverá permanecer no centro das atenções diante do atraso acumulado e da proximidade do período de maior demanda para o milho.
Portos, armazenagem, transporte rodoviário e disponibilidade de crédito também poderão influenciar a chegada dos fertilizantes às propriedades dentro da janela agronômica adequada.
Custo da soja deve aumentar na safra 2026/27
Às vésperas do início de uma nova temporada de soja, o Rabobank prevê custos de produção mais elevados. A alta está relacionada principalmente às consequências dos conflitos no Oriente Médio sobre os mercados de energia, fretes e fertilizantes.
O aumento das despesas ocorre em um momento de rentabilidade mais apertada no campo. Com isso, as margens da soja podem permanecer pressionadas por mais um ciclo.
O cenário exige atenção porque a renda obtida com a oleaginosa influencia diretamente a capacidade de investimento do produtor no milho safrinha. Uma margem menor na cultura de verão pode limitar a aquisição de insumos ou estimular a redução do pacote tecnológico na segunda safra.
A combinação entre o resultado financeiro da soja e a rentabilidade do milho será determinante para a recuperação econômica das propriedades.
Menor adubação pode ampliar risco climático
O relatório destaca que a nutrição adequada das lavouras ganha ainda mais importância em uma temporada marcada por elevada preocupação climática.
Plantas bem nutridas apresentam melhores condições para desenvolver raízes, aproveitar a água disponível e enfrentar períodos de estresse. A redução inadequada da adubação, por outro lado, pode limitar o potencial produtivo e aumentar a vulnerabilidade das lavouras.
Com o El Niño no radar da safra 2026/27, produtores poderão enfrentar excesso de chuva no Sul e distribuição irregular das precipitações no Centro-Oeste. Nesse ambiente, a tentativa de reduzir custos por meio de cortes generalizados na adubação pode elevar o risco agronômico.
A recomendação é que eventuais ajustes sejam baseados em análise de solo, histórico produtivo, expectativa de produtividade e eficiência das fontes utilizadas.
Inadimplência dificulta recuperação financeira do produtor
O nível elevado de inadimplência no campo também aparece entre os pontos de atenção do AgroInfo 2026. O endividamento restringe o acesso ao crédito e dificulta a recuperação financeira dos produtores rurais.
Com menor disponibilidade de recursos, parte dos agricultores pode postergar compras ou buscar alternativas como barter, antecipação de vendas e renegociação de dívidas.
A concentração das aquisições mais perto do plantio aumenta a exposição às oscilações de preços e aos riscos logísticos. Caso muitos produtores retornem ao mercado ao mesmo tempo, a demanda pode pressionar as cotações e dificultar entregas dentro do prazo.
Planejamento das compras será decisivo para a próxima safra
O cenário apresentado pelo Rabobank reforça a necessidade de acompanhar estoques, preços, condições de pagamento e prazos de entrega dos fertilizantes.
Para a soja, a maior preocupação está relacionada ao custo e à disponibilidade dos fosfatados, especialmente do MAP. No milho safrinha, o foco recai sobre o abastecimento de ureia e de outras fontes nitrogenadas.
A análise conjunta das necessidades nutricionais, da capacidade financeira e das relações de troca pode ajudar o produtor a evitar decisões concentradas em momentos de maior volatilidade.
Nos próximos meses, o ritmo das importações indicará se o Brasil conseguirá reduzir o atraso antes dos períodos de maior consumo. Até lá, ureia, MAP e custos de produção permanecem entre os principais riscos para a rentabilidade da safra 2026/27.
Fonte: Portal do Agronegócio
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