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Trump amplia cota de carne bovina com tarifa reduzida e abre oportunidade para exportações do Brasil

Estados Unidos autorizam importação adicional de 300 mil toneladas de aparas magras entre setembro e novembro; frigoríficos brasileiros enfrentarão disputa por volume, exigências de preço e corrida logística


Publicado em: 28/08/2026 às 11:45hs

Trump amplia cota de carne bovina com tarifa reduzida e abre oportunidade para exportações do Brasil

A decisão do governo dos Estados Unidos de ampliar temporariamente em 300 mil toneladas a cota de importação de carne bovina com tarifa reduzida abre uma nova oportunidade comercial para o Brasil. A medida, formalizada pelo presidente Donald Trump nesta quarta-feira (26), busca aumentar a oferta de matéria-prima destinada à fabricação de carne moída e conter os preços no mercado norte-americano.

O benefício será restrito às chamadas lean beef trimmings, aparas magras de carne bovina frescas, refrigeradas ou congeladas. O volume adicional será disponibilizado em três parcelas de 100 mil toneladas, entre setembro e novembro, pelo sistema first come, first served, no qual o acesso à cota ocorre por ordem de chegada.

Análises da Terra Investimentos e da Expana apontam que a medida pode melhorar a competitividade da carne bovina brasileira nos Estados Unidos. Entretanto, as consultorias alertam que o aproveitamento da oportunidade dependerá da capacidade logística dos frigoríficos, da rapidez dos embarques e do cumprimento das condições de preço determinadas pelo governo norte-americano.

Nova cota de carne bovina não é exclusiva do Brasil

As 300 mil toneladas adicionais não foram reservadas exclusivamente aos frigoríficos brasileiros. O volume será incluído na categoria tarifária destinada a “outros países ou áreas”, compartilhada por fornecedores habilitados que não possuem cota própria ou tratamento específico estabelecido por acordo comercial.

Isso significa que o Brasil terá de disputar o espaço com outras origens autorizadas a exportar carne bovina para os Estados Unidos.

De acordo com a Expana, essa abertura é adicional e independente da cota de 80 mil toneladas concedida exclusivamente à Argentina em fevereiro. O benefício destinado aos argentinos permanece inalterado.

A Terra Investimentos também destaca que o sistema por ordem de chegada poderá favorecer empresas que já tenham produto embarcado, em trânsito ou armazenado em entrepostos alfandegados nos Estados Unidos quando cada parcela mensal for liberada.

Portanto, não será suficiente apenas possuir carne disponível para exportação. Planejamento, logística e velocidade na operação serão fatores decisivos para o acesso ao benefício tarifário.

Tarifa menor pode elevar competitividade da carne brasileira

A principal vantagem da nova cota está na redução dos custos de entrada no mercado norte-americano.

Segundo a Terra Investimentos, a cota compartilhada regular era de aproximadamente 52 mil toneladas e foi rapidamente preenchida no início do ano. Após o esgotamento desse volume, as exportações realizadas fora da cota passaram a enfrentar tarifa de 26,4%.

Com a nova autorização, os volumes enquadrados na cota adicional poderão ingressar nos Estados Unidos sob a alíquota intra-cota prevista no sistema tarifário norte-americano, consideravelmente inferior à cobrança aplicada aos embarques realizados fora do limite.

A decisão, contudo, não representa uma retirada generalizada das tarifas cobradas sobre a carne bovina brasileira. O tratamento reduzido será aplicado somente aos produtos elegíveis e aos volumes efetivamente aceitos dentro das novas parcelas.

Exportações brasileiras de carne bovina aos EUA avançam em 2026

A abertura ocorre em um momento de crescimento das vendas brasileiras para o mercado norte-americano.

Dados apresentados pela Terra Investimentos mostram que o Brasil exportou aproximadamente 209,6 mil toneladas de carne bovina aos Estados Unidos entre janeiro e julho de 2026. O volume representa crescimento de 23,9% em relação ao mesmo período de 2025.

As operações movimentaram cerca de US$ 1,28 bilhão, reforçando a posição dos Estados Unidos entre os principais destinos da proteína bovina brasileira.

Parte expressiva dessas vendas, porém, foi realizada fora da cota e, consequentemente, ficou sujeita à tarifa mais elevada. A abertura temporária poderá melhorar a rentabilidade de alguns embarques e ampliar a competitividade dos frigoríficos brasileiros.

Escassez de carne bovina nos Estados Unidos impulsiona abertura

A ampliação da cota não decorre de uma política permanente de liberalização comercial, mas da necessidade de enfrentar a oferta restrita e os preços elevados da carne bovina nos Estados Unidos.

De acordo com análise da Expana, elaborada por Augusto Eto, o rebanho bovino norte-americano está nos menores níveis em cerca de 75 anos. Secas prolongadas e incêndios prejudicaram as pastagens, aumentaram os custos dos pecuaristas e limitaram a capacidade de recomposição dos plantéis.

O cenário também foi agravado pelas restrições à entrada de bovinos vivos provenientes do México devido ao risco associado à mosca-da-bicheira do Novo Mundo. A redução desse fluxo acrescentou pressão à disponibilidade de animais para abate.

Diante dessas condições, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) trabalha com a perspectiva de queda na produção norte-americana de carne bovina em 2026.

No decreto, a Casa Branca reconhece que a oferta doméstica de carne e de matérias-primas destinadas à fabricação de carne moída é insuficiente para atender à demanda a preços considerados razoáveis. O governo também avalia que o consumo deverá permanecer elevado durante o restante do ano.

Governo exige preço 25% menor para carne importada

A principal condição estabelecida pelo decreto está relacionada ao preço do produto importado.

O USDA e a Representação Comercial dos Estados Unidos (USTR) deverão acompanhar os valores praticados nas operações realizadas dentro da nova cota. A expectativa do governo norte-americano é que as aparas magras beneficiadas pela tarifa reduzida sejam comercializadas por preço 25% inferior ao valor de mercado.

Caso a redução esperada não seja observada, o presidente poderá cancelar a parcela ainda não utilizada da cota adicional.

Para Geraldo Isoldi, da Terra Investimentos, essa exigência representa o principal risco incorporado à medida. O governo norte-americano pretende verificar se a redução tarifária está sendo efetivamente transferida ao mercado e contribuindo para baratear a carne moída.

Se a redução de custos ficar concentrada apenas nos elos importadores ou industriais, sem impacto perceptível nos preços, parte do volume autorizado poderá ser suspensa antes de sua utilização integral.

Objetivo é reduzir preço da carne moída nos Estados Unidos

A ampliação terá vigência aproximada de 90 dias e limitará as importações a 100 mil toneladas por mês. O desenho temporário indica que a Casa Branca pretende aumentar rapidamente a oferta de matéria-prima sem promover uma abertura ampla e permanente do mercado.

O objetivo político e econômico é elevar a disponibilidade de aparas magras utilizadas na produção de carne moída, produto amplamente consumido pelas famílias norte-americanas.

As aparas importadas costumam ser misturadas à carne com maior teor de gordura produzida nos Estados Unidos, permitindo à indústria alcançar o padrão necessário para hambúrgueres e outros produtos derivados.

Frigoríficos brasileiros enfrentarão corrida contra o tempo

Para o Brasil, a medida cria a possibilidade de direcionar parte dos embarques que estavam sujeitos à tarifa de 26,4% para operações com condições mais competitivas. A janela, porém, será curta e altamente disputada.

A primeira parcela de 100 mil toneladas será disponibilizada entre 1º e 30 de setembro. A segunda será aberta durante outubro, enquanto a terceira ficará disponível entre 31 de outubro e 30 de novembro, ou até o preenchimento completo do volume autorizado.

Como a cota regular foi rapidamente ocupada no início do ano, a expectativa é de forte concorrência entre os países habilitados. Frigoríficos com produto pronto, estrutura logística eficiente e embarques planejados poderão largar na frente.

A nova cota representa uma oportunidade concreta para a carne bovina brasileira, mas seu aproveitamento dependerá de três fatores centrais: rapidez logística, competitividade de preços e capacidade de cumprir as regras estabelecidas pelos Estados Unidos. Em uma disputa definida por ordem de chegada, a corrida comercial deverá começar antes mesmo da atracação dos primeiros navios nos portos norte-americanos.

Fonte: Portal do Agronegócio

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