Startup de Mato Grosso acelera melhoramento genético da soja contra seca e nematoides
BRG Brasil Genética desenvolve cultivares adaptadas ao Cerrado e pretende reduzir de dez para sete anos o ciclo de criação de novas variedades, priorizando produtividade, resistência e estabilidade no campo
Publicado em: 27/08/2026 às 13:00hs
O avanço da produtividade da soja brasileira depende cada vez mais da capacidade das cultivares de enfrentar condições adversas. Além de buscar elevados rendimentos, os programas de melhoramento genético trabalham para desenvolver plantas capazes de preservar parte do potencial produtivo diante da seca, do excesso de chuva e da pressão de nematoides.
O desafio é particularmente importante em Mato Grosso, maior produtor nacional de soja. O estado colheu o volume recorde de 51,6 milhões de toneladas na safra 2025/26, mas enfrenta problemas fitossanitários e climáticos que podem provocar perdas significativas nas lavouras.
Nesse cenário, a genética assume papel estratégico para proporcionar maior estabilidade à produção. A proposta é desenvolver variedades que apresentem bom desempenho em anos favoráveis, mas que também sejam capazes de limitar as perdas quando as condições ambientais se tornam desfavoráveis.
Startup concentra pesquisas nas condições de Mato Grosso
Com essa estratégia, o engenheiro agrônomo Antonio Ayrton Morceli Junior fundou, em 2021, a BRG Brasil Genética. Criada em Mato Grosso, a startup concentra suas pesquisas no desenvolvimento de cultivares de soja adaptadas às condições do Cerrado.
Morceli é graduado pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e mestre e doutor em Melhoramento Genético de Plantas pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Jaboticabal. Sua trajetória profissional inclui passagens por empresas como Syngenta, Monsanto e Bayer, além da atuação em projetos de pesquisa voltados à soja.
Segundo o especialista, o melhoramento genético pode ajudar a preservar a produtividade em diferentes condições de cultivo. Características como resistência a nematoides, adaptação regional e proteção do sistema radicular tornam-se especialmente relevantes durante períodos de estresse hídrico.
Nematoides e seca podem ampliar perdas na soja
Os nematoides atacam as raízes e reduzem a capacidade das plantas de absorver água e nutrientes. Quando essa pressão ocorre simultaneamente a um período de déficit hídrico, os efeitos podem se acumular e provocar uma queda mais acentuada na produtividade.
Uma cultivar resistente ou tolerante tende a desenvolver um sistema radicular mais protegido. Com raízes em melhores condições, a planta aumenta sua capacidade de atravessar períodos de baixa disponibilidade de água e preservar parte do potencial produtivo.
“Se você tem o nematoide, que ataca a raiz, e esta consegue se desenvolver melhor em uma planta resistente, quando tem a seca, ela vai potencializar ou pelo menos manter o potencial produtivo dela. Se você não tem essa característica, ela, além de perder para o nematoide, perde para a seca”, explica Morceli.
A resistência genética não elimina os impactos de uma condição climática severa, mas pode reduzir a intensidade das perdas. Conforme exemplo apresentado pelo pesquisador, uma cultivar suscetível com potencial para produzir 80 sacas por hectare poderia cair para 30 sacas em uma situação extrema. Um material resistente a nematoides, nas mesmas circunstâncias, poderia recuar de 80 para aproximadamente 60 sacas por hectare.
Os números são ilustrativos, mas demonstram como a estabilidade pode influenciar o resultado econômico da propriedade.
Estabilidade produtiva pode definir o lucro da lavoura
Em períodos de margens mais apertadas, a diferença entre cultivares pode determinar se o produtor terá lucro ou prejuízo. Para Morceli, materiais geneticamente mais estáveis podem proporcionar uma vantagem de 10 a 15 sacas por hectare em condições adversas.
Essa diferença ganha relevância diante dos custos elevados de implantação das lavouras. Além do rendimento máximo obtido em ambientes ideais, o produtor passa a observar quanto cada cultivar consegue produzir quando enfrenta restrição hídrica, excesso de umidade ou pressão fitossanitária.
Nesse contexto, a estabilidade deixa de ser apenas uma característica agronômica e passa a integrar a gestão financeira e de riscos da propriedade rural.
Nematoides estão entre os principais desafios da soja em Mato Grosso
Os nematoides permanecem entre os problemas fitossanitários mais importantes para a sojicultura mato-grossense. Entre as espécies que preocupam os produtores está o nematoide de cisto, disseminado em diferentes regiões do estado.
Outro desafio é o Meloidogyne incognita, conhecido como nematoide-das-galhas. Sua ocorrência merece atenção principalmente em áreas onde a soja integra sistemas produtivos com o algodão.
O problema nem sempre apresenta sintomas facilmente identificáveis na superfície da lavoura. Mesmo sem sinais visuais evidentes, o ataque pode comprometer as raízes e reduzir o desempenho das plantas.
“Acabamos não vendo o sintoma no campo e não sabemos exatamente quanto essa espécie está retirando da produtividade, mas ela está provocando impacto”, afirma o pesquisador.
Em períodos de estresse climático, as diferenças entre cultivares suscetíveis e resistentes podem se tornar ainda mais evidentes. Por isso, os programas de melhoramento buscam reunir produtividade, adaptação regional e resistência fitossanitária em um mesmo material.
BRG busca reduzir desenvolvimento de cultivares para sete anos
O processo convencional de criação de uma nova cultivar de soja pode levar cerca de dez anos. A BRG Brasil Genética trabalha com a meta de reduzir esse período para aproximadamente sete anos.
A estratégia combina uma estrutura mais enxuta, foco nos problemas regionais e maior agilidade na tomada de decisões. Segundo Morceli, o modelo permite concentrar recursos em características consideradas prioritárias para os produtores de Mato Grosso.
Após quatro anos e meio de pesquisas, a startup já possui materiais com condições de avançar para o processo de registro. As variedades em desenvolvimento priorizam potencial produtivo e resistência aos nematoides de cisto e das galhas.
O programa é financiado por uma associação de produtores. Pelo modelo adotado, as cultivares desenvolvidas serão de propriedade dos associados, com a associação responsável pela titularidade dos materiais gerados.
A proposta é permitir que os próprios agricultores participem do desenvolvimento de variedades direcionadas às necessidades das regiões onde produzem.
Estrutura mais enxuta busca aumentar agilidade da pesquisa
A BRG foi criada com a proposta de realizar pesquisas em Mato Grosso, com profissionais do estado e foco nas condições enfrentadas pelos produtores locais.
Para Morceli, uma estrutura especializada e com menos níveis burocráticos pode acelerar as decisões do programa de melhoramento. A empresa pretende competir com organizações de maior porte por meio da concentração dos esforços em problemas específicos da sojicultura regional.
“Temos potencial para competir com grandes empresas que possuem estruturas muito maiores. A vantagem é conseguir manter o foco, trabalhar com uma equipe menor e reduzir parte da burocracia para avançar no melhoramento”, destaca.
O modelo de negócio, segundo o fundador, já foi validado e poderá ser ampliado para outras regiões. A estrutura também apresenta potencial de aplicação em diferentes mercados no Brasil e no exterior.
Biologia molecular auxilia seleção de novas variedades
O projeto utiliza ferramentas de biologia molecular para acelerar etapas e aumentar a precisão na seleção dos materiais. Entretanto, a BRG mantém os métodos tradicionais de melhoramento como base do programa.
Tecnologias como edição genética e Seleção Genômica Ampla, conhecida pela sigla GWS, apresentam potencial para transformar o desenvolvimento de plantas. A aplicação dessas ferramentas na criação comercial de cultivares de soja, porém, ainda passa por um processo de consolidação e avaliação dos resultados.
Por essa razão, a startup prioriza métodos já validados, sem deixar de acompanhar a evolução das novas tecnologias.
“Hoje se fala muito em edição genética e em GWS, mas a aplicação no desenvolvimento de cultivares de soja ainda está em processo de consolidação e geração de resultados em escala comercial”, avalia Morceli.
A incorporação de novas ferramentas ocorrerá à medida que elas apresentarem ganhos consistentes para o programa, sem perder de vista a aplicação prática e as demandas dos agricultores.
Aumento de registros não garante diferença de qualidade
O mercado brasileiro de sementes registra uma expansão no número de cultivares disponíveis. O crescimento da oferta, entretanto, não significa necessariamente que todos os materiais apresentem diferenças expressivas de desempenho agronômico.
Segundo o especialista, algumas variedades podem reunir características semelhantes, embora sejam comercializadas por marcas distintas ou posicionadas para estratégias específicas de mercado.
O principal desafio dos programas de melhoramento continua sendo combinar produtividade, adaptação regional e resistência aos problemas que ameaçam as lavouras.
Com a maior variabilidade climática e a pressão sobre os custos de produção, a tendência é que os produtores avaliem não apenas o teto produtivo das cultivares, mas também sua capacidade de preservar rendimento em ambientes desfavoráveis.
Essa mudança torna a estabilidade genética um dos principais critérios para a escolha das variedades de soja e para a redução dos riscos econômicos no campo.
Fonte: Portal do Agronegócio
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