Soja dispara com clima nos EUA e petróleo em alta: saca chega a R$ 160 no porto de Rio Grande e mercado mira novas máximas
Valorização em Chicago impulsiona preços no Brasil, fortalece exportações e reacende preocupação com a safra norte-americana, enquanto China segue no centro das atenções do mercado global.
Publicado em: 24/07/2026 às 11:20hs
A combinação entre riscos climáticos nos Estados Unidos, valorização do petróleo, fortalecimento do complexo soja e demanda internacional voltou a impulsionar o mercado da oleaginosa. As cotações na Bolsa de Chicago (CBOT) renovaram máximas dos últimos meses e refletiram diretamente no mercado brasileiro, elevando os preços pagos ao produtor e levando a saca da soja para até R$ 160 no Porto de Rio Grande, um dos maiores patamares registrados recentemente.
O movimento ocorre em um cenário de forte volatilidade internacional, marcado pelas tensões geopolíticas no Oriente Médio, pela continuidade da guerra entre Rússia e Ucrânia e pelas incertezas climáticas durante uma fase decisiva para o desenvolvimento da safra norte-americana.
Chicago amplia recuperação e soja alcança maior nível em mais de um ano
Depois de encerrar a quinta-feira em alta, a Bolsa de Chicago voltou a operar no campo positivo nesta sexta-feira (24), consolidando uma sequência de valorização iniciada ao longo da semana.
Os contratos mais negociados passaram a operar acima de US$ 12,40 por bushel, aproximando-se dos maiores níveis registrados desde maio de 2024. O vencimento novembro, referência para a nova safra dos Estados Unidos, também avançou e voltou a testar a região de US$ 12,49 por bushel.
O mercado segue sustentado por três fatores principais:
- preocupação com o clima quente e seco em parte do Meio-Oeste americano;
- valorização do petróleo, que fortalece o mercado de óleo de soja;
- reposicionamento dos fundos de investimento, que ampliaram suas posições compradas.
Embora chuvas tenham beneficiado diversas regiões produtoras nas últimas semanas, as previsões ainda indicam temperaturas elevadas justamente durante o enchimento dos grãos, considerado o período mais crítico para definição da produtividade da safra.
Petróleo fortalece óleo de soja e impulsiona todo o complexo
Outro importante suporte para as cotações veio do mercado de energia.
Segundo levantamento da CEEMA, o petróleo Brent acumulou valorização de aproximadamente 19,4% em apenas 22 dias, passando de US$ 72,16 para US$ 86,15 por barril. Como consequência, o óleo de soja negociado em Chicago avançou mais de 13% no mesmo período.
O movimento foi impulsionado pelo aumento das tensões entre Irã e Estados Unidos e pelos riscos de interrupção no transporte marítimo na região do Estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais para exportação de petróleo.
O farelo de soja também ganhou força e atingiu os maiores níveis em quase dois meses, reforçando o desempenho positivo de todo o complexo soja.
Clima nos EUA continua sendo o principal fator de risco
Apesar das preocupações, as lavouras norte-americanas seguem apresentando condições relativamente favoráveis.
Dados do USDA indicam que:
- 66% das áreas estão classificadas como boas ou excelentes;
- 26% apresentam condição regular;
- apenas 8% são consideradas ruins ou muito ruins.
Mesmo assim, aproximadamente 18% da área cultivada já enfrenta algum nível de seca, o que mantém os investidores atentos às próximas previsões meteorológicas.
A expectativa é que o clima continue sendo o principal direcionador dos preços durante o restante de julho e o início de agosto.
Mercado brasileiro acompanha alta internacional
No Brasil, a valorização em Chicago, aliada ao dólar e à firme demanda exportadora, sustentou os preços em praticamente todas as regiões produtoras.
No Rio Grande do Sul, a retenção da soja pelos produtores reduziu a oferta disponível e fortaleceu as negociações, mesmo com dificuldades logísticas provocadas pelas chuvas em algumas regiões.
Segundo levantamento da CEEMA, a saca chegou a R$ 125 nas principais praças gaúchas.
No restante do país, os preços oscilaram entre R$ 116 e R$ 127 por saca, dependendo da região.
Já nos portos, as cotações avançaram ainda mais.
No Porto de Rio Grande, negócios para entrega futura chegaram a R$ 160 por saca, considerando contratos para novembro com pagamento previsto para maio de 2027, conforme levantamento da Brandalizze Consulting.
Outros importantes terminais de exportação também registraram firmeza:
- Paranaguá (PR): R$ 147 por saca;
- Rio Grande (mercado disponível): R$ 147 por saca;
- São Francisco do Sul (SC): R$ 147 por saca.
Em Mato Grosso do Sul, os preços variaram entre R$ 126 e R$ 129, enquanto em Mato Grosso as cotações permaneceram firmes, embora os produtores demonstrem cautela diante da expectativa de aumento superior a 3% no custo da próxima safra.
Exportações seguem no radar
O mercado também monitora o desempenho das vendas externas dos Estados Unidos.
As exportações da safra 2025/26 recuaram na última semana, somando cerca de 56,4 mil toneladas, queda de aproximadamente 70%.
Já para a temporada 2026/27, os compromissos atingiram 1,54 milhão de toneladas, sendo mais de um milhão destinadas à China.
Os investidores seguem atentos a novos anúncios de vendas, que poderão reforçar o movimento de alta em Chicago.
China amplia compras do Brasil, mas traça plano para reduzir dependência
Embora continue ampliando as importações da soja brasileira, a China também sinaliza mudanças estruturais para as próximas décadas.
Durante congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural (Sober), pesquisadores chineses informaram que o país pretende reduzir gradualmente sua dependência da soja importada.
A meta é diminuir em aproximadamente 25% as importações até 2030 e em 50% até 2050, estratégia que poderá alterar significativamente o fluxo mundial do comércio da oleaginosa.
No curto prazo, entretanto, os números seguem favoráveis ao Brasil.
Dados da alfândega chinesa mostram que, em junho:
- as compras de soja brasileira cresceram 13,7%, alcançando 12,08 milhões de toneladas, recorde histórico para o mês;
- as importações provenientes dos Estados Unidos recuaram 20,6%.
No acumulado do primeiro semestre, a diferença também aumentou.
As compras da China junto ao Brasil cresceram 9,1%, totalizando 34,75 milhões de toneladas, enquanto as aquisições de soja norte-americana caíram 42,4%.
Mesmo assim, especialistas observam que parte das compras chinesas da soja dos Estados Unidos continua sendo motivada por fatores diplomáticos e estratégicos, além dos aspectos puramente comerciais.
Produtores encontram momento favorável para comercialização
Com Chicago operando nos maiores níveis em mais de um ano, preços firmes nos portos brasileiros e forte demanda internacional, o mercado vive um dos momentos mais favoráveis desde o início da temporada.
Analistas destacam, no entanto, que o comportamento da safra norte-americana continuará determinando a direção das cotações nas próximas semanas. Caso o clima permaneça favorável até o início da colheita, prevista para outubro, parte dos ganhos recentes poderá ser devolvida ao mercado.
Diante desse cenário, consultorias de mercado recomendam que os produtores avaliem oportunidades de comercialização escalonada, aproveitando os atuais níveis de preços para reduzir riscos e garantir margens em um ambiente ainda marcado por elevada volatilidade internacional.
Fonte: Portal do Agronegócio
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