El Niño pode reduzir safra de soja do Paraná em 2,3 milhões de toneladas
Projeção considera cenário de forte intensidade do fenômeno; chuvas no início de novembro elevam preocupação com replantio, custos e produtividade das lavouras na safra 2026/27
Publicado em: 04/11/2026 às 19:40hs
A safra de soja 2026/27 no Paraná enfrenta riscos com o excesso de chuva durante a implantação das lavouras e a possibilidade de impactos do El Niño ao longo do ciclo. Segundo levantamento da Serasa Experian, divulgado em 28 de outubro, um episódio forte do fenômeno pode reduzir a produção paranaense em 2,3 milhões de toneladas, na comparação com um cenário de condições climáticas neutras.
A estimativa coloca o Paraná na terceira posição entre os estados com maior redução projetada em volume, atrás de Mato Grosso e Goiás. No Brasil, o estudo indica que a produção de soja pode ficar 9,7% abaixo do potencial esperado sob neutralidade climática.
Os números representam uma projeção de risco, e não perdas já confirmadas. No campo, a dimensão dos prejuízos dependerá da intensidade das ocorrências meteorológicas, da duração do excesso de umidade e do estágio de desenvolvimento das plantas.
Chuvas atingem soja com 62% da área plantada no Paraná
Os temporais registrados no início de novembro chegaram quando boa parte da área paranaense já estava semeada. Conforme o Departamento de Economia Rural (Deral), o plantio alcançava, até 26 de outubro, 62% dos 5,74 milhões de hectares previstos para a cultura.
Nas áreas ainda não implantadas, o encharcamento do solo dificulta a entrada de máquinas e pode atrasar a semeadura. Nas lavouras recém-semeadas, a preocupação é com o estabelecimento das plantas e a necessidade de replantio.
Segundo o engenheiro agrônomo Giuseppe Marcantonio, especialista em perícia judicial, chuvas intensas podem provocar compactação e selamento da superfície do solo, sobretudo em áreas expostas. A dificuldade de acesso às propriedades também pode impedir operações de manejo no momento adequado.
Replantio pode custar R$ 600 por hectare apenas em sementes
A redução da população de plantas está entre os principais fatores considerados na decisão de refazer a semeadura. Embora a soja apresente plasticidade — capacidade de compensar determinadas falhas no estande —, essa característica não assegura a preservação da produtividade em qualquer condição.
A avaliação deve considerar o potencial da lavoura remanescente, a distribuição das falhas e o custo de uma nova implantação.
De acordo com Marcantonio, a compra de sementes para o replantio pode representar aproximadamente R$ 600 por hectare. Considerando a soja a R$ 130 por saca, o desembolso equivale a cerca de 4,6 sacas por hectare.
Essa estimativa não contempla combustível, inoculação, fertilizantes e outras despesas operacionais. O custo total de recuperação, portanto, pode ser maior e pressionar a margem do produtor.
Excesso de umidade e menor luminosidade ameaçam produtividade
No Sul do Brasil, a influência do El Niño costuma estar associada a chuvas mais frequentes. Para a soja, os riscos envolvem tanto o excesso de água quanto a persistência de dias nublados.
Marcantonio explica que a menor disponibilidade de luz solar pode prolongar a fase vegetativa da cultura. Ao mesmo tempo, o ambiente úmido exige maior atenção às doenças e pode dificultar o acesso às lavouras para a execução dos tratamentos necessários.
Nas regiões de Campo Mourão e do Oeste paranaense, onde parte da semeadura ocorre em setembro, a preocupação também alcança a colheita. Caso as chuvas persistam em janeiro, poderão ocorrer atrasos na retirada da produção e comprometimento da qualidade, com maior risco de grãos ardidos e mofados.
Temporais causam danos em municípios e propriedades rurais
As ocorrências de chuva intensa, vento e granizo entre 1º e 2 de novembro atingiram principalmente as regiões Noroeste, Oeste e Centro-Sul do Paraná.
O balanço preliminar da Defesa Civil Estadual apontou 1.277 pessoas afetadas e 350 residências danificadas em 17 municípios.
Em Maringá, o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) registrou ventos de 96,3 quilômetros por hora no aeroporto durante a madrugada de segunda-feira (2). A prefeitura decretou estado de calamidade pública.
No município de Marquinho, o granizo danificou 270 casas e afetou 1.080 pessoas. Em Mercedes, cerca de dez propriedades rurais sofreram estragos, e os danos em uma cooperativa foram estimados em mais de R$ 600 mil.
A prefeitura de Mercedes levantou a hipótese de ocorrência de tornado, mas o fenômeno ainda não havia sido confirmado pelo Simepar.
Os acumulados de chuva também foram elevados em um intervalo curto. Entre a meia-noite e as 8h de segunda-feira, as estações meteorológicas registraram:
- Palotina: 65,2 milímetros;
- Cianorte: 62,8 milímetros;
- Inajá: 57,2 milímetros;
- Maringá: 51,8 milímetros.
A previsão citada no levantamento indicava possibilidade de formação de um ciclone extratropical durante a semana, com risco de supercélulas entre quarta-feira (4) e quinta-feira (5).
Perdas na soja podem pressionar pagamento do crédito rural
Os efeitos dos eventos climáticos também podem alcançar o caixa das propriedades. A necessidade de replantio aumenta o investimento na safra, enquanto uma eventual quebra de produtividade reduz a receita disponível para pagar os compromissos assumidos.
Segundo o advogado Raphael Condado, especialista em direito do agronegócio, a documentação dos danos é importante para pedidos de cobertura e para a análise de eventuais solicitações de prorrogação de financiamentos.
Entre os registros apontados pelo especialista estão laudos elaborados por profissionais habilitados, fotografias com data e localização geográfica, informações sobre chuva e granizo e decretos municipais de emergência, quando disponíveis.
Produtores com seguro rural ou cobertura do Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro) devem observar os procedimentos e prazos de comunicação previstos para cada contratação. Condado também orienta atenção às intervenções na área atingida antes da vistoria, pois elas podem prejudicar a comprovação dos danos.
Documentação e avaliação técnica orientam decisões
Conforme Condado, situações em que os prejuízos comprometem a capacidade de pagamento podem fundamentar pedidos de prorrogação do crédito rural, observadas as condições aplicáveis. O especialista cita o Manual de Crédito Rural e a Súmula 298 do Superior Tribunal de Justiça como referências para a análise desses casos.
A orientação é formalizar a solicitação por escrito, acompanhada de documentos que demonstrem os impactos na atividade, preferencialmente antes do vencimento da obrigação.
Nas propostas de renegociação, o advogado recomenda avaliar as garantias exigidas e as cláusulas contratuais, especialmente quando houver previsão de alienação fiduciária de imóveis ou restrições à contestação de valores.
Com a safra ainda em implantação, a avaliação técnica de cada área será decisiva para dimensionar perdas, definir a necessidade de replantio e reorganizar os custos do ciclo 2026/27. O acompanhamento das condições meteorológicas e o registro dos danos também serão fundamentais para a gestão produtiva e financeira das propriedades.
Fonte: Portal do Agronegócio
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