Greening atinge 48% das laranjeiras e muda investimentos na citricultura paulista
Doença registra menor avanço em nove anos, mas danos às plantas aumentam; custos maiores e preços menores da laranja ampliam o desafio de renovar pomares e preservar a rentabilidade
Publicado em: 28/10/2026 às 18:20hs
O greening está redesenhando as decisões de investimento na citricultura paulista. Embora o avanço da doença tenha desacelerado, o agravamento dos danos nas árvores infectadas compromete a produtividade e leva produtores a reavaliar onde implantar novos pomares.
Segundo levantamento do Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), a incidência no cinturão formado por São Paulo e pelo Triângulo/Sudoeste Mineiro passou de 47,63% em 2025 para 48,08% em 2026. O aumento de 0,45 ponto percentual foi o menor em nove anos.
O resultado, porém, não representa recuperação das plantas doentes. A severidade média, que mede o comprometimento da copa, subiu de 22,7% para 27%. Ao mesmo tempo, custos de produção maiores e preços menores da laranja tornam mais difícil recuperar os investimentos na formação e na manutenção dos pomares.
Greening avança menos, mas compromete mais as árvores infectadas
A desaceleração da incidência contrasta com o período anterior: entre 2024 e 2025, o avanço havia sido de 3,28 pontos percentuais.
Nas árvores já infectadas, entretanto, os indicadores pioraram. Considerando apenas os pomares em produção, a severidade passou de 25,9% para 31%. A proporção de plantas com mais da metade da copa comprometida aumentou de 22,5% para 28,5%.
O pesquisador Renato Bassanezi, do Fundecitrus, destaca que a redução do ritmo de expansão não significa reversão dos danos. Assim, mesmo com menor crescimento da incidência, os produtores continuam sujeitos a perdas de rendimento.
Também conhecido como Huanglongbing (HLB), o greening não tem cura disponível. A doença prejudica o desenvolvimento das árvores, afeta a formação e a qualidade dos frutos e aumenta a queda prematura das laranjas. Seu principal vetor é o psilídeo Diaphorina citri.
Risco sanitário pesa na escolha de novos pomares
A pressão da doença varia significativamente entre as regiões. Em 2026, a incidência chegou a 82,10% em Limeira, 72,43% em Porto Ferreira, 69,50% em Avaré e 68,10% em Brotas. Em Votuporanga, o índice foi de 4,63%.
Essas diferenças tornam a localização um fator decisivo para investimentos de longo prazo. Além de solo, clima e infraestrutura, o produtor precisa avaliar a presença da doença nas propriedades vizinhas e a qualidade do manejo regional.
A experiência de Antônio Carlos Simonetti, da Simonetti Citrus, ilustra essa mudança. Em entrevista ao Notícias Agrícolas, em outubro de 2023, o produtor relatou que pomares com apenas três anos já apresentavam mais de 50% das plantas contaminadas em determinadas áreas.
Na ocasião, anunciou que não voltaria a plantar citros em parte das áreas erradicadas naquela região. A decisão foi apresentada como uma medida de cautela para uma atividade conduzida por sua família há quatro gerações, com origem em Limeira e produção na região de Aguaí e no sul de Minas Gerais.
Custo da produção aumenta enquanto laranja perde valor
O impacto econômico do greening vai além da redução da colheita. O manejo exige recursos para monitoramento, controle do inseto transmissor e eliminação de plantas, inclusive árvores jovens que ainda não recuperaram o investimento inicial.
Um estudo do Cepea/Esalq-USP, publicado em maio de 2026, mostrou que o custo total de um modelo de produção de sequeiro no centro-sul paulista passou de R$ 42,7 mil por hectare em 2025/26 para R$ 46,8 mil em 2026/27, alta de aproximadamente 9,6%.
Os valores correspondem a uma propriedade representativa específica e não devem ser interpretados como média de toda a citricultura paulista.
Na comercialização, a laranja pera destinada à indústria, entregue na unidade processadora, teve média de R$ 27,59 por caixa de 40,8 quilos no mercado spot paulista entre 19 e 23 de outubro. O preço ficou 11,40% abaixo dos R$ 31,14 registrados entre 31 de agosto e 4 de setembro.
Segundo o Cepea, as indústrias têm priorizado contratos existentes e restringido compras pontuais, considerando fatores como rendimento das frutas e estoques de suco.
Para o engenheiro agrônomo e consultor Gilberto Tozatti, da GCON, produtividade, gestão e parcerias são fundamentais para atravessar períodos de preços menos favoráveis.
Produção maior não elimina perdas sanitárias
A primeira reestimativa do Fundecitrus, divulgada em setembro, elevou a previsão da safra 2026/27 para 263,15 milhões de caixas, principalmente pelo maior peso dos frutos.
Apesar da revisão, a taxa projetada de queda prematura aumentou de 23,7% para 24,1%. A instituição relacionou o agravamento à maior severidade do greening, à ocorrência de leprose e cancro cítrico e ao tempo de permanência das frutas nas árvores.
O quadro mostra que uma melhora na estimativa total da safra pode ocorrer simultaneamente ao aumento de perdas em parte dos pomares. Os resultados também dependem do clima, de outras doenças e das condições de comercialização.
Novos plantios procuram regiões de menor risco
Na temporada 2025/26, o Fundecitrus registrou 12.504 hectares de erradicação e 17.821 hectares de novos plantios no cinturão citrícola.
As regiões mais afetadas pelo greening concentraram 74% da área erradicada. Já 45% dos novos plantios ocorreram em localidades classificadas como de menor risco. Os percentuais se referem a bases distintas.
O movimento não significa uma saída generalizada da citricultura de São Paulo. Parte dos investimentos ocorre dentro do próprio estado, em áreas com condições sanitárias mais favoráveis.
Segundo Guilherme Rodrigues, gestor da Pesquisa de Estimativa de Safra do Fundecitrus, aproximadamente metade das mudas produzidas em São Paulo estava sendo destinada a regiões de expansão, incluindo áreas paulistas, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul.
Expansão exige indústria e logística competitivas
A busca por menor pressão sanitária também precisa considerar a estrutura disponível para processar e transportar as frutas.
A citricultora e engenheira agrônoma Mari Anna Batista relatou ao Horti Resenha Podcast que a produção nordestina enfrenta limitações de capacidade industrial. Segundo ela, o envio de frutas para processamento no Sudeste pode envolver cerca de 2 mil quilômetros de frete, reduzindo a margem do produtor.
Regiões com menor incidência da doença, portanto, não estão livres de desafios. A viabilidade de novos projetos depende de compradores, processamento, infraestrutura e disponibilidade de água, além de vigilância sanitária contínua.
Pesquisa busca novas ferramentas contra o greening
Em janeiro de 2026, Fapesp, Esalq/USP e Fundecitrus formalizaram a criação do Centro de Pesquisa Aplicada em Inovação e Sustentabilidade da Citricultura, o CPA Citros, sediado em Piracicaba.
A iniciativa reúne pesquisadores para estudar a interação entre bactéria, inseto transmissor e plantas, aperfeiçoar o manejo e desenvolver alternativas de controle.
Entre as linhas de longo prazo está a busca por plantas e variedades resistentes à bactéria. Bassanezi ressalta, contudo, que essas soluções demandam tempo e não substituem os cuidados atuais.
Enquanto a ciência avança, monitoramento, prevenção e manejo integrado continuam essenciais. Para os citricultores, a renovação dos pomares exige combinar avaliação sanitária, capacidade financeira e planejamento comercial — decisões que determinarão onde e em quais condições serão plantadas as próximas laranjeiras.
Fonte: Portal do Agronegócio
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