El Niño aumenta risco de doenças e exige manejo antecipado nas lavouras do Sul
Chuvas acima da média podem favorecer o potencial produtivo de trigo, milho e soja, mas reduzem as janelas de aplicação e elevam a pressão de plantas daninhas, pragas e doenças
Publicado em: 25/08/2026 às 15:30hs
A previsão de chuvas acima da média no Sul do Brasil sob influência do El Niño exige planejamento antecipado para reduzir perdas e preservar o potencial produtivo das lavouras. Embora a maior disponibilidade hídrica possa beneficiar culturas como trigo, milho e soja, o excesso de umidade também cria condições favoráveis à disseminação de doenças, ao avanço de plantas daninhas e ao aumento da pressão de pragas.
Outro desafio será a redução das janelas disponíveis para aplicações e demais operações agrícolas. Com menos dias adequados para a entrada de máquinas no campo, o produtor precisará organizar o manejo com antecedência e executar cada intervenção no momento correto.
Nesse cenário, a integração entre controle químico, soluções biológicas, nutrição vegetal e tecnologia de aplicação ganha importância para transformar as condições favoráveis de umidade em produtividade efetiva.
Trigo exige controle precoce de plantas daninhas
No Rio Grande do Sul, onde a semeadura do trigo está praticamente concluída, as lavouras avançam pelas fases de emergência e início do perfilhamento. Esse período é decisivo para o controle de plantas daninhas e para a adubação nitrogenada.
Segundo Airton Borin, engenheiro agrônomo e especialista em nutrição de plantas da Satis, o produtor deve aproveitar as oportunidades de aplicação para evitar que o excesso de chuvas comprometa o manejo.
“O produtor precisa acertar o timing das aplicações, especialmente dos herbicidas e da adubação nitrogenada. Fazer o controle precoce de plantas daninhas, como azevém e nabo, evita competição com a cultura e aumenta a eficiência dos herbicidas”, explica.
A presença dessas espécies durante os estágios iniciais do trigo pode provocar competição por água, luz e nutrientes. O problema tende a se agravar quando as chuvas frequentes dificultam a entrada de pulverizadores nas áreas.
Tecnologia de aplicação melhora eficiência dos defensivos
A qualidade da aplicação será outro fator determinante durante o El Niño. Regulagem dos equipamentos, escolha dos horários, condições meteorológicas e compatibilidade entre produtos precisam ser observadas para evitar perdas de eficiência.
Em períodos de elevada umidade, o planejamento das misturas também deve considerar o risco de chuva após a aplicação e o tempo necessário para absorção dos produtos pelas plantas.
Borin destaca que a tecnologia de aplicação ajuda a melhorar a ação dos herbicidas sobre as plantas daninhas e permite que os insumos expressem seu potencial agronômico.
Na adubação nitrogenada do trigo e do milho, o especialista recomenda atenção aos micronutrientes. O molibdênio pode favorecer o metabolismo e a assimilação do nitrogênio, enquanto o zinco contribui para o desenvolvimento radicular, especialmente em áreas onde o nutriente apresenta baixa disponibilidade.
Excesso de umidade amplia risco de doenças no trigo
A maior preocupação fitossanitária ocorre durante o florescimento do trigo. Caso as chuvas coincidam com essa etapa, aumenta o risco de doenças como giberela e brusone.
O engenheiro agrônomo e representante técnico de vendas da Satis, Alécio Radons, alerta que o produtor poderá encontrar períodos muito curtos para realizar aplicações.
“No trigo, que já está implantado e em desenvolvimento, teremos períodos muito curtos para entrar nas áreas e realizar os manejos necessários. Por isso, o planejamento será determinante”, afirma.
A giberela encontra condições favoráveis quando há chuva, elevada umidade relativa do ar e temperaturas adequadas durante o florescimento. O momento de maior vulnerabilidade ocorre quando as anteras estão expostas.
“Se houver chuva nesse período, o risco de infecção aumenta significativamente”, ressalta Radons.
Além de reduzir a produtividade, essas doenças podem comprometer a qualidade e o peso dos grãos, provocando desvalorização comercial. Por isso, o monitoramento das lavouras e a execução dos tratamentos no estágio correto são fundamentais.
Manejo biológico pode reforçar a proteção das lavouras
A integração de produtos biológicos ao programa fitossanitário pode ajudar a reduzir a pressão inicial de patógenos. No trigo, o manejo pode começar pela palhada e pela microbiota do solo, complementado por aplicações foliares ao longo do ciclo.
Entre os microrganismos utilizados nessa estratégia estão fungos do gênero Trichoderma, capazes de atuar no manejo de patógenos presentes no solo e em resíduos culturais.
A recomendação é integrar essas ferramentas aos demais métodos de controle. Em anos com maior pressão de doenças, a associação entre fungicidas, agentes biológicos e protetores multissítios pode ampliar a proteção e ajudar no manejo da resistência.
Dessecação antes do plantio será decisiva para o milho
No Rio Grande do Sul, o plantio do milho se intensifica entre agosto e meados de setembro. Os cuidados, porém, devem começar antes da semeadura.
Uma dessecação eficiente é essencial para controlar espécies de folhas estreitas, como azevém e aveia, e proporcionar melhores condições para o estabelecimento da cultura. Áreas com plantas daninhas mal controladas podem dificultar o plantio e aumentar a competição durante o desenvolvimento inicial.
Também é necessário monitorar insetos encontrados em plantas tigueras e nas bordaduras das áreas, especialmente os percevejos. O manejo realizado antes da semeadura ajuda a reduzir a população inicial e os riscos de danos às plântulas.
Ferramentas microbiológicas podem ser incluídas nesse controle preventivo, desde que inseridas em um programa integrado e utilizadas conforme as condições da área e as recomendações técnicas.
Fungos de solo ganham força em períodos chuvosos
O excesso de água no solo pode favorecer patógenos responsáveis por tombamento, podridões radiculares e falhas no estabelecimento das lavouras.
Entre os principais agentes que podem avançar em condições de elevada umidade estão:
- Phytophthora;
- Pythium;
- Fusarium;
- Rhizoctonia.
Esses patógenos afetam principalmente as fases iniciais do milho e da soja. A incidência pode provocar redução do estande, enfraquecimento das plantas e perda de produtividade.
Radons recomenda que o manejo comece ainda no solo, com atenção à qualidade das sementes, ao tratamento utilizado, à drenagem da área e à adoção preventiva de agentes biológicos.
“A recomendação é trabalhar com aplicações de Trichoderma, preferencialmente já no inverno ou diretamente no sulco de semeadura, para que o biológico atue sobre esses fungos e reduza sua intensidade”, explica.
El Niño eleva alerta para mofo-branco e ferrugem na soja
Na cultura da soja, anos influenciados pelo El Niño podem favorecer doenças importantes em razão do maior período de molhamento foliar e da manutenção de um ambiente úmido no dossel.
O mofo-branco merece atenção principalmente em áreas com histórico da doença, alta população de plantas e fechamento rápido das entrelinhas. O patógeno sobrevive no solo por meio de estruturas chamadas escleródios, capazes de permanecer viáveis durante vários anos.
O manejo deve combinar medidas como rotação de culturas, controle de plantas hospedeiras, uso de sementes de qualidade, formação adequada do estande e aplicações preventivas.
A ferrugem asiática também pode ganhar intensidade sob chuvas frequentes e elevada umidade. Nesse caso, monitoramento, respeito ao vazio sanitário, escolha correta do momento de aplicação e rotação de mecanismos de ação são fundamentais.
Planejamento será decisivo para proteger a produtividade
O cenário previsto para o Sul reúne oportunidades e riscos. A maior disponibilidade de água pode sustentar produtividades elevadas, mas esse potencial dependerá da capacidade de executar os manejos dentro de janelas mais estreitas.
Entre as principais estratégias estão:
- Monitorar continuamente as previsões meteorológicas;
- Antecipar a compra e a organização dos insumos;
- Priorizar o controle inicial de plantas daninhas;
- Planejar a adubação conforme a condição do solo;
- Realizar a dessecação antes do plantio do milho e da soja;
- Monitorar pragas em plantas tigueras e bordaduras;
- Adotar medidas preventivas contra doenças;
- Integrar ferramentas químicas, biológicas e nutricionais;
- Manter pulverizadores regulados e disponíveis.
Para os especialistas, o produtor que conhecer o histórico das áreas e antecipar decisões terá melhores condições de aproveitar as chuvas sem permitir que a pressão fitossanitária comprometa a safra.
Em um ano de El Niño, a combinação entre planejamento, monitoramento e precisão operacional será determinante para proteger as lavouras de trigo, milho e soja e converter o potencial climático em produtividade no campo.
Fonte: Portal do Agronegócio
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