Produtividade da soja salta de 44 para 156 sacas por hectare em 18 anos de Desafio CESB
Resultados auditados mostram avanço histórico nas lavouras de alta performance, enquanto média dos dez melhores produtores alcança 138,7 sacas por hectare na safra 2025/26
Publicado em: 25/08/2026 às 13:30hs
A produtividade alcançada pelas lavouras participantes do Desafio Nacional de Máxima Produtividade de Soja, promovido pelo Comitê Estratégico Soja Brasil (CESB), avançou de forma expressiva nas últimas 18 safras. Entre 2008/09 e 2025/26, o rendimento do campeão nacional passou de 82,8 para 156,13 sacas por hectare, crescimento acumulado de 87,6%.
No mesmo período, a média brasileira de produtividade da soja cresceu 40,5%, conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). A diferença revela o potencial produtivo existente nas lavouras conduzidas com manejo integrado, planejamento e acompanhamento técnico.
A trajetória é apresentada por Décio Luiz Gazzoni, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e sócio-fundador do CESB, e João Vitor Ganem, coordenador técnico da entidade.
CESB nasceu com a meta de produzir 100 sacas por hectare
O CESB foi criado em 2008 por profissionais do agronegócio que antecipavam uma expansão consistente da demanda mundial por soja. Naquele momento, o grupo também projetava que o Brasil poderia superar os Estados Unidos e assumir a liderança global na produção do grão — cenário considerado distante à época.
A preocupação estava relacionada à forma como a oferta nacional cresceria. Sem avanços mais intensos na produtividade, o aumento da produção dependeria principalmente da abertura de novas áreas, com consequências ambientais e elevação dos custos.
A estratégia definida foi estimular a produtividade sustentável da soja, buscando produzir mais na mesma área e preservar a rentabilidade das propriedades.
O primeiro objetivo estabelecido foi alcançar 100 sacas por hectare, equivalentes a 6 mil quilos por hectare. A marca parecia difícil diante dos rendimentos médios registrados naquele período:
- 41,7 sacas por hectare na safra 2005/06;
- 45,8 sacas por hectare em 2006/07;
- 46,9 sacas por hectare em 2007/08.
Até então, produtividades próximas de 100 sacas por hectare eram observadas principalmente em experimentos conduzidos por instituições de pesquisa, sem registros frequentes em lavouras comerciais.
Desafio CESB testa os limites produtivos da soja
A principal iniciativa criada pela entidade foi o Desafio Nacional de Máxima Produtividade de Soja (DNMP). A proposta estimula produtores e consultores a desenvolverem sistemas capazes de superar os resultados históricos das propriedades e as médias regionais e nacional.
O CESB não interfere nas decisões agronômicas, não oferece consultoria e não define os insumos que devem ser empregados. Os participantes podem, entretanto, conhecer os sistemas adotados pelos vencedores das edições anteriores.
As áreas com potencial para superar o rendimento mínimo estabelecido são submetidas a uma auditoria independente. O processo verifica:
- produtividade efetivamente alcançada;
- histórico agrícola da área;
- sistema de produção adotado;
- práticas de manejo;
- rentabilidade da lavoura;
- indicadores relacionados à sustentabilidade.
Até a safra 2023/24, a auditoria poderia ser acionada em áreas com expectativa de superar 90 sacas por hectare. A partir de 2024/25, esse piso foi elevado para 100 sacas por hectare.
A premiação reconhece os campeões das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste, Sudeste e Sul. Entre eles, é definido o campeão nacional. A maior produtividade em lavoura irrigada também recebe reconhecimento específico.
Primeira edição já superou a média brasileira em 89%
Na safra 2008/09, quando ocorreu o primeiro desafio, a produtividade média nacional da soja foi de 2.629 quilos por hectare, equivalentes a 43,8 sacas por hectare, segundo a Conab.
A edição inaugural reuniu 140 produtores de diferentes estados. O campeão colheu 82,8 sacas por hectare, resultado 89% superior à média brasileira, embora ainda abaixo da meta inicial de 100 sacas.
Naquele ano, a média dos dez participantes mais produtivos chegou a 77,8 sacas por hectare, evidenciando uma diferença relevante em relação ao rendimento nacional.
O objetivo inicial foi superado já no segundo desafio, na temporada 2009/10. O campeão nacional alcançou 108,4 sacas por hectare, enquanto a média dos dez melhores produtores ficou em 88,1 sacas.
Lavouras ultrapassam 140 sacas por hectare
Após a superação das 100 sacas, os rendimentos continuaram avançando. Na safra 2014/15, o vencedor produziu 141,8 sacas por hectare.
Dois ciclos depois, em 2016/17, o campeonato registrou 149,1 sacas por hectare, marca que permaneceu como recorde durante nove anos.
A média dos dez melhores participantes também evoluiu. Desde a safra 2012/13, esse grupo mantém rendimento superior a 100 sacas por hectare.
Com os novos patamares, o trabalho do CESB passou a buscar os limites da produtividade sustentável da soja, considerando não somente o volume colhido, mas também a viabilidade econômica e a consistência do sistema produtivo.
Recorde chega a 156,13 sacas por hectare na safra 2025/26
O maior resultado das 18 edições foi registrado na safra 2025/26, quando o campeão nacional produziu 156,13 sacas por hectare. O rendimento ficou 152% acima da média brasileira calculada pela Conab para a temporada.
Entre 2008/09 e 2025/26, a produtividade do vencedor cresceu 87,6%. De acordo com o levantamento do CESB, a evolução corresponde a uma taxa geométrica anual próxima de 4%.
Os dez melhores produtores também apresentaram forte avanço. A produtividade média desse grupo cresceu 77,3% desde o início da série, com evolução geométrica anual estimada em 3,5%.
Na safra mais recente, a média dos dez primeiros colocados alcançou 138,7 sacas por hectare, resultado 124% superior à média nacional.
Número de produtores acima de 90 sacas cresce
A evolução também pode ser observada pela quantidade de áreas que superaram os níveis necessários para receber auditoria.
Na primeira edição do desafio, somente o campeão nacional ultrapassou 90 sacas por hectare. Na temporada 2025/26, 661 produtores auditados superaram esse patamar.
O aumento demonstra que rendimentos considerados excepcionais no início do projeto passaram a ser alcançados por um grupo mais amplo de sojicultores.
Embora os recordes ocorram em áreas específicas e não representem a totalidade das propriedades, os resultados ajudam a identificar práticas e tecnologias capazes de contribuir para ganhos em diferentes regiões.
Desafio alcança mais de 4 milhões de hectares
A participação no DNMP representa, anualmente, entre 10% e 15% da área brasileira dedicada à soja, considerando a extensão total das propriedades inscritas.
Na safra 2025/26, os participantes somaram mais de 4 milhões de hectares. O número de inscritos, que começou com 140 produtores, atingiu o recorde de 6.500 participantes em 2022/23.
Na mesma temporada, o envolvimento de consultores chegou ao maior nível da série histórica, com 2.019 profissionais.
A expansão do desafio contribuiu para ampliar a circulação de informações técnicas e aproximar produtores, consultores, pesquisadores e empresas ligadas à cadeia da soja.
Produtividade dos participantes avança acima da média nacional
A comparação dos resultados acumulados durante as 18 safras mostra ritmos distintos de evolução:
- produtividade média brasileira: aumento de 40,5%;
- média de todos os participantes do desafio: crescimento de 60,7%;
- média dos dez melhores produtores: avanço de 77,3%;
- produtividade dos campeões nacionais: elevação de 87,6%.
Os números reforçam que ainda existe uma distância expressiva entre os rendimentos médios nacionais e o potencial demonstrado pelas lavouras de alta produtividade.
A transferência integral desses resultados para todas as propriedades não ocorre automaticamente. Diferenças de clima, solo, infraestrutura, disponibilidade de capital e capacidade operacional influenciam os níveis que cada sistema pode alcançar.
Manejo integrado sustenta os ganhos de produtividade
O desempenho das lavouras de alta produtividade normalmente resulta da combinação de diferentes decisões agronômicas, e não de uma única tecnologia.
Entre os aspectos fundamentais estão a correção e a construção da fertilidade do solo, o uso de sementes de qualidade, a escolha de cultivares adaptadas, o tratamento de sementes, a definição da época de semeadura e o estabelecimento adequado da população de plantas.
Também são decisivos o manejo de plantas daninhas, pragas e doenças, a conservação do solo, a qualidade das aplicações e o acompanhamento das condições meteorológicas.
O histórico das áreas vencedoras oferece referências para produtores e consultores avaliarem quais práticas podem ser adaptadas às condições de cada propriedade.
Aumento do rendimento reduz pressão pela abertura de áreas
Elevar a produção por hectare é uma das principais estratégias para atender ao crescimento da demanda sem depender exclusivamente da expansão territorial da soja.
O ganho de produtividade pode diluir custos fixos, melhorar o aproveitamento de máquinas e insumos e ampliar a oferta de grãos na mesma área. Para produzir resultados sustentáveis, entretanto, o avanço precisa ser acompanhado de rentabilidade e conservação dos recursos naturais.
A trajetória do Desafio CESB mostra que o teto produtivo da soja brasileira ainda pode avançar. O principal desafio agora é transformar o conhecimento obtido nas áreas de alta performance em ganhos consistentes para um número cada vez maior de produtores.
Fonte: Portal do Agronegócio
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