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Análise de Mercado

Balanços de Ambev, JBS, M. Dias Branco e MBRF revelam pressão sobre margens no setor de alimentos

Empresas ampliaram volumes e receitas no segundo trimestre de 2026, mas custos, juros elevados, baixa oferta de gado nos Estados Unidos e despesas comerciais limitaram a rentabilidade


Publicado em: 25/08/2026 às 11:10hs

Balanços de Ambev, JBS, M. Dias Branco e MBRF revelam pressão sobre margens no setor de alimentos

Os resultados financeiros de Ambev, JBS, M. Dias Branco e MBRF no segundo trimestre de 2026 mostram que o crescimento das vendas deixou de ser suficiente para garantir expansão dos lucros no setor de alimentos e bebidas.

As companhias conseguiram elevar volumes, conquistar participação de mercado ou alcançar receitas recordes. A rentabilidade, entretanto, foi afetada por custos operacionais, despesas comerciais, juros elevados, alavancagem financeira e dificuldades no segmento de carne bovina dos Estados Unidos.

Na avaliação de Edson Kawabata, sócio-diretor da Peers Consulting + Technology, o trimestre confirmou que a qualidade do crescimento passou a ser mais importante do que o aumento isolado da receita. Empresas com produtos premium, marcas fortes e operações diversificadas mostraram maior capacidade de proteger as margens.

O cenário também evidenciou o papel estratégico da Copa do Mundo de 2026, da premiumização dos portfólios e dos programas de eficiência. Ao mesmo tempo, a baixa oferta de gado nos Estados Unidos permanece como um dos maiores desafios para as multinacionais brasileiras de proteínas.

Ambev eleva lucro ajustado em 23,3%

A Ambev registrou receita líquida de R$ 20,15 bilhões no segundo trimestre, crescimento anual de apenas 0,3%. Em termos orgânicos, desconsiderando efeitos cambiais e mudanças de perímetro, o avanço foi de 6,1%.

O desempenho foi favorecido pelo mercado brasileiro de cerveja e pelas ações comerciais relacionadas à Copa do Mundo. O volume de Cerveja Brasil aumentou 5%, compensando parcialmente condições climáticas menos favoráveis do que a companhia esperava.

A margem bruta avançou 1,9 ponto percentual e alcançou 51,9%. O EBITDA ajustado cresceu 3,6%, para R$ 6,38 bilhões, com margem de 31,6%.

O lucro líquido ajustado atingiu R$ 3,49 bilhões, expansão de 23,3% na comparação anual e resultado superior às projeções do mercado.

Itens não recorrentes limitam leitura do lucro da Ambev

Apesar do forte crescimento do lucro ajustado, parte do resultado foi favorecida por efeitos não recorrentes. Por isso, analistas mantiveram uma avaliação cautelosa sobre a qualidade do desempenho.

A reação negativa das ações após a divulgação refletiu a percepção de que receita e EBITDA ficaram abaixo das expectativas de algumas instituições financeiras, incluindo XP, BTG Pactual, Itaú BBA e Citi.

O comportamento dos papéis demonstra que investidores passaram a avaliar não apenas o lucro final, mas também a capacidade da operação principal de sustentar crescimento recorrente.

Para a Ambev, a expansão futura dependerá do avanço dos volumes, da gestão dos custos e da capacidade de aumentar a receita por hectolitro sem comprometer a demanda.

Copa do Mundo impulsiona estratégia da Ambev

A companhia tratou a Copa do Mundo como uma plataforma deliberada de crescimento no Brasil. O evento ampliou as oportunidades de consumo de cerveja, ativações de marca e relacionamento com o varejo.

O impacto positivo ocorreu mesmo com condições climáticas abaixo do esperado. Temperaturas mais baixas ou chuvas costumam limitar o consumo de bebidas, especialmente fora do domicílio.

A empresa também intensificou os investimentos em marcas de maior valor agregado para reduzir a dependência dos segmentos tradicionais e melhorar a composição do portfólio.

Michelob Ultra mais que triplica no Brasil e na Argentina

A premiumização foi um dos principais pilares apresentados pela Ambev. As vendas de Michelob Ultra mais que triplicaram no Brasil e na Argentina.

O desempenho da marca mostra a busca da companhia por consumidores dispostos a pagar mais por produtos diferenciados. A estratégia também funciona como resposta à concorrência no segmento intermediário de cervejas.

Produtos premium tendem a apresentar maior receita por unidade e podem ajudar a proteger as margens. Entretanto, exigem investimentos elevados em marketing, distribuição, eventos e posicionamento de marca.

JBS alcança receita recorde de US$ 23,9 bilhões

A JBS registrou receita líquida recorde de US$ 23,90 bilhões no segundo trimestre, alta de 13,8% na comparação anual.

Convertido pelo câmbio de R$ 5,05 por dólar utilizado na análise, o faturamento corresponde a aproximadamente R$ 120,69 bilhões.

O crescimento foi liderado pela JBS Austrália, com avanço de 30%, seguida pela operação brasileira, com alta de 28%, e pela Seara, que ampliou a receita em 18,2%.

Os números demonstram a importância da diversificação geográfica e de proteínas da companhia. Os resultados positivos em aves, suínos e bovinos fora dos Estados Unidos ajudaram a compensar as dificuldades da operação norte-americana.

Margem menor pressiona resultado da JBS

Embora tenha alcançado receita recorde, a JBS apresentou deterioração nos indicadores de rentabilidade.

A margem bruta caiu para 10,8%. O EBITDA ajustado recuou 18,5%, para US$ 1,43 bilhão.

A companhia encerrou o trimestre com prejuízo líquido de US$ 102 milhões, revertendo o lucro de US$ 528 milhões registrado no segundo trimestre de 2025. O resultado contábil foi afetado por itens não recorrentes.

Excluídos esses efeitos, o lucro ajustado ficou em US$ 218 milhões, queda de 62,3% na comparação anual.

O balanço reforça uma das principais conclusões do trimestre: crescimento elevado da receita não garante maior lucro quando os custos avançam e as margens das principais operações diminuem.

Baixa oferta de gado afeta JBS nos Estados Unidos

A divisão Beef North America permaneceu pressionada pela menor disponibilidade de bovinos para abate nos Estados Unidos.

A redução do rebanho norte-americano aumentou os preços pagos pelo gado e limitou a capacidade dos frigoríficos de repassar integralmente os custos ao mercado consumidor.

Com margens comprimidas, a unidade continuou apresentando resultado operacional negativo. O problema contrasta com o desempenho mais favorável das operações da JBS na Austrália, no Brasil e na Seara.

A duração do ciclo de baixa oferta de gado será determinante para a recuperação da rentabilidade nos Estados Unidos.

JBS reorganiza operação de carne bovina

Como resposta ao cenário adverso, a JBS anunciou o fechamento de duas plantas e a reorganização dos negócios Fed Beef, Regional Beef e Case Ready sob uma única estrutura denominada Beef USA.

A consolidação pretende reduzir sobreposições, elevar a eficiência e simplificar a gestão da operação norte-americana.

O resultado dependerá da capacidade da empresa de ajustar a estrutura à oferta disponível de animais e reduzir custos sem comprometer sua presença comercial.

A reorganização indica que a pressão sobre o setor não é considerada apenas conjuntural. A companhia está promovendo mudanças estruturais para atravessar um período prolongado de margens reduzidas.

Sucessão na JBS aumenta atenção do mercado

A JBS também anunciou uma mudança na liderança global no mesmo dia da divulgação dos resultados. Wesley Batista Filho deverá assumir o cargo de CEO global em janeiro de 2027.

A combinação entre prejuízo contábil, queda do lucro ajustado, dificuldades nos Estados Unidos e transição de comando ampliou a cautela dos investidores.

As ações recuaram aproximadamente 5,7% na Bolsa de Nova York após os anúncios.

O mercado deverá acompanhar a condução do processo sucessório e as prioridades da nova administração, especialmente em relação à alocação de capital, à dívida e à recuperação da Beef USA.

M. Dias Branco aumenta volume e ganha participação

A M. Dias Branco registrou receita líquida de R$ 2,70 bilhões, praticamente estável em relação ao segundo trimestre de 2025, com recuo de 0,9%.

O volume vendido, por outro lado, aumentou 4,4% e chegou a 477,3 mil toneladas. Foi o quarto trimestre consecutivo de crescimento.

A companhia também conquistou participação em um mercado que, segundo dados da Nielsen, apresentou retração de aproximadamente 4%.

O resultado mostra que a empresa conseguiu ampliar sua presença comercial, mas precisou trabalhar com preços menores para sustentar o avanço dos volumes.

Preços menores limitam receita da M. Dias Branco

Os preços médios recuaram entre 3% e 5% na comparação anual, principalmente nos segmentos de farinha industrial e gordura vegetal.

A redução dos preços neutralizou o aumento de volume e impediu um avanço mais expressivo da receita.

Em compensação, a queda nos custos variáveis favoreceu a margem bruta. O custo médio recuou de R$ 3,20 para R$ 2,90 por quilo, permitindo que a margem avançasse 0,82 ponto percentual, para 34,2%.

A melhora demonstra que a redução dos custos das matérias-primas e a eficiência produtiva ajudaram a compensar parte da pressão comercial.

Despesas elevadas reduzem EBITDA e lucro

Apesar da recuperação da margem bruta, o EBITDA da M. Dias Branco caiu 17,5% e ficou em R$ 284,4 milhões. A margem EBITDA atingiu 10,5%.

O lucro líquido recuou 22%, para R$ 168,9 milhões.

A principal pressão veio das despesas com vendas, gerais e administrativas, que chegaram a 27,4% da receita líquida. Marketing e iniciativas vinculadas à Copa do Mundo contribuíram para o aumento.

A companhia considera essas despesas importantes para sustentar participação de mercado e construir marcas, e não apenas como custos pontuais do trimestre.

Marcas adjacentes ganham espaço no portfólio

Os negócios considerados adjacentes, como Jasmine, Frontera, Smart e Tyrrells, permaneceram entre os principais motores de expansão da M. Dias Branco.

Essas marcas atuam em categorias diferentes do núcleo tradicional de massas e biscoitos e apresentam crescimento de dois dígitos.

A estratégia reduz a dependência das categorias mais maduras e permite à companhia disputar mercados com maior valor agregado.

No negócio principal, o crescimento continua mais associado à conquista de participação do que à expansão do mercado como um todo.

MBRF fatura R$ 40,7 bilhões no segundo trimestre

A MBRF registrou receita consolidada de R$ 40,72 bilhões, crescimento anual de 4,9%.

O volume comercializado alcançou o recorde de 1,969 milhão de toneladas. O mercado externo liderou a expansão, com avanço de 16,5%, enquanto o mercado interno cresceu apenas 0,4%.

O lucro bruto chegou a R$ 4,87 bilhões, com margem de 12%. O EBITDA ajustado avançou 5,4%, para R$ 3,20 bilhões.

O resultado mostra que a companhia conseguiu ampliar sua geração operacional, apesar das diferenças acentuadas entre as unidades de negócio.

BRF responde por 79% do EBITDA da MBRF

A BRF foi responsável por 79% do EBITDA ajustado consolidado da MBRF. O segmento Beef América do Sul contribuiu com 17%, enquanto Beef América do Norte respondeu por apenas 4%.

A distribuição evidencia a relevância dos negócios de aves, suínos e alimentos processados para a rentabilidade do grupo.

As operações da BRF e de carne bovina na América do Sul apresentaram crescimento de dois dígitos e concentraram a maior parte da geração de caixa.

Em contrapartida, a National Beef registrou margem de somente 0,7%, reflexo da baixa disponibilidade e dos custos elevados do gado nos Estados Unidos.

Lucro da MBRF cai e alavancagem chega a 3,41 vezes

O lucro líquido da MBRF ficou em R$ 69 milhões, queda anual de 19,6%.

O recuo ocorreu apesar da expansão do EBITDA e foi influenciado pela piora do resultado financeiro. A alavancagem alcançou 3,41 vezes a relação entre dívida líquida e EBITDA.

O nível elevado reduz a flexibilidade para novos investimentos, aquisições e distribuição de recursos aos acionistas.

A situação reforça a importância de transformar as sinergias da fusão em geração de caixa e redução efetiva do endividamento.

Programa MBRF+ concentra estratégia de rentabilidade

A companhia apresentou o programa MBRF+ como uma das principais alavancas para capturar sinergias após a combinação dos negócios.

O plano vai além da integração administrativa. A expectativa é gerar ganhos em compras, logística, operações industriais, distribuição, portfólio e despesas corporativas.

A execução será essencial para ampliar as margens e justificar a estrutura de capital criada após a fusão.

Os investimentos estão concentrados principalmente na BRF e na Beef América do Sul, operações que apresentam maior crescimento e rentabilidade. A National Beef permanece com contribuição limitada.

Margem supera volume como indicador decisivo

A comparação dos quatro balanços mostra que o volume isolado perdeu importância como principal medida de desempenho.

A JBS aumentou a receita em 13,8%, mas viu o EBITDA ajustado cair 18,5% e o lucro ajustado recuar 62,3%. Na M. Dias Branco, o volume avançou 4,4%, enquanto EBITDA e lucro diminuíram.

A MBRF apresentou volume recorde, mas o lucro líquido caiu. A Ambev conseguiu ampliar margens e lucro ajustado, embora a receita tenha ficado praticamente estável.

O trimestre confirmou que preço, mix, custos, despesas e eficiência financeira são determinantes para transformar vendas em rentabilidade.

Premiumização avança como resposta à pressão de custos

A busca por produtos de maior valor agregado apareceu como estratégia comum entre as empresas.

Na Ambev, o avanço da Michelob Ultra reforçou o potencial das cervejas premium. Na M. Dias Branco, marcas adjacentes ampliaram a presença em categorias diferenciadas.

Na MBRF, a BRF segue apoiada em marcas fortes e alimentos processados, que apresentam maior possibilidade de diferenciação do que as proteínas vendidas como commodities.

A premiumização permite reduzir a dependência da competição por preço, embora exija investimentos contínuos em inovação, distribuição e marketing.

Copa do Mundo favorece consumo, mas eleva despesas

A Copa do Mundo de 2026 funcionou como acelerador sazonal para cervejas, alimentos processados e produtos de consumo rápido.

A Ambev utilizou o evento para ampliar volumes e ativações comerciais. A M. Dias Branco aumentou os investimentos em marketing para proteger e conquistar participação.

O efeito sobre os resultados, porém, não é uniforme. As campanhas podem elevar vendas, mas também aumentam despesas. O retorno depende da capacidade de reter consumidores e preservar participação depois do evento.

Consumidor pressionado limita reajustes

O ambiente de juros elevados continua pressionando a renda e o consumo das famílias.

Nesse cenário, as companhias encontram dificuldades para repassar integralmente aumentos de custos. Elevações mais fortes de preços podem provocar redução de volume, migração para marcas mais baratas e perda de participação.

A M. Dias Branco exemplifica esse desafio: aumentou o volume e ganhou mercado, mas com preços médios menores. Para proteger a rentabilidade, as empresas precisam combinar produtividade, gestão de custos e portfólios de maior valor.

Reabertura mexicana pode aliviar frigoríficos nos EUA

A retomada das importações norte-americanas de gado mexicano aparece como um possível fator de alívio para a indústria frigorífica dos Estados Unidos.

Uma entrada maior de animais pode ampliar a oferta disponível para abate e reduzir parte da pressão sobre os custos da JBS Beef USA e da National Beef, controlada pela MBRF.

O impacto dependerá do volume efetivamente importado, das condições sanitárias e do ritmo de recomposição do rebanho norte-americano.

Mesmo com a retomada, uma recuperação estrutural das margens deverá exigir mais tempo, já que o ciclo pecuário não é revertido rapidamente.

Setor entra no segundo semestre com cautela

Os balanços do segundo trimestre mostram empresas maiores em receita e volume, mas ainda pressionadas na rentabilidade.

A diversificação geográfica e de produtos permanece como vantagem para JBS e MBRF, enquanto Ambev e M. Dias Branco apostam em marcas premium, ganho de participação e novas categorias.

Entre as oportunidades estão a captura de sinergias, a redução de custos, a expansão internacional e a premiumização. Os principais riscos são o consumidor enfraquecido, os juros elevados, a baixa oferta de bovinos nos Estados Unidos e o endividamento.

O desempenho no restante de 2026 dependerá menos do crescimento isolado das vendas e mais da capacidade de transformar receita em caixa, reduzir despesas e preservar margens. Para o mercado, a qualidade e a recorrência do lucro continuarão no centro da avaliação das empresas de alimentos e bebidas.

Fonte: Portal do Agronegócio

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