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Milho e Sorgo

Milho safrinha: colheita supera 90%, mas 40% da produção ainda busca comprador

Com exportações abaixo dos últimos anos, elevada oferta interna e diferenças regionais de preços, produtores precisam acelerar estratégias de comercialização e proteger as margens da safra 2026/27


Publicado em: 04/09/2026 às 10:30hs

Milho safrinha: colheita supera 90%, mas 40% da produção ainda busca comprador
Foto: Brandt

A colheita do milho safrinha 2025/26 avança para a reta final, mas uma parcela significativa da produção brasileira ainda precisa ser comercializada. Mais de 90% da área já havia sido colhida até o fim de agosto, enquanto as vendas alcançavam aproximadamente 60% do volume produzido.

O descompasso entre a retirada do cereal das lavouras e o ritmo dos negócios mantém elevada a disponibilidade nas principais regiões produtoras. Com isso, o mercado entra em uma nova fase: a atenção deixa de estar concentrada no tamanho da safra e passa a se voltar para a capacidade de absorção da oferta pelos setores consumidor e exportador.

Segundo análise da Biond Agro, a entrada do milho no mercado ocorreu em velocidade superior à comercialização. Ao mesmo tempo, os embarques brasileiros permanecem abaixo dos níveis registrados nos últimos dois anos, aumentando a importância do consumo doméstico para o equilíbrio entre oferta e demanda.

Para Yedda Monteiro, analista de inteligência e estratégia da Biond Agro, o produtor precisa acompanhar as possíveis janelas de comercialização. Com a colheita praticamente encerrada, a questão central passa a ser quando e de que forma o volume disponível será absorvido pelo mercado.

Exportações de milho ficam abaixo dos últimos anos

O volume de milho embarcado e programado para exportação somava 16,7 milhões de toneladas até o fim de agosto. O resultado ficou bem abaixo dos quase 30 milhões de toneladas observados no mesmo período de 2024 e 2025.

A menor velocidade dos embarques amplia o volume que precisa encontrar espaço no mercado doméstico. Nesse cenário, indústrias de ração, confinamentos, granjas e usinas de etanol de milho ganham relevância na sustentação da demanda.

A concorrência internacional também limita o avanço das exportações brasileiras. A Argentina dispõe de uma safra elevada e mantém preços competitivos, enquanto a redução das compras do Irã enfraquece a participação de um destino tradicionalmente importante para o cereal brasileiro.

Esse quadro poderá mudar caso ocorra aceleração do line-up nos portos, aumento da atuação das empresas exportadoras ou intensificação da disputa pelo milho entre indústrias de alimentação animal e usinas de etanol.

De acordo com a Biond Agro, a recuperação da presença brasileira no mercado externo será determinante para definir quanto milho permanecerá disponível até a chegada do próximo ciclo.

Cenário internacional pode abrir espaço para valorização

Apesar das dificuldades atuais de escoamento, as perspectivas para o milho são consideradas mais favoráveis nos quatro últimos meses do ano. O mercado global trabalha com estoques mais ajustados e uma demanda que permanece ativa.

Na Europa, as projeções indicam a possibilidade de uma das menores safras já registradas. Nos Estados Unidos, a deterioração das condições das lavouras também desperta atenção, diante do risco de perdas produtivas antes do avanço da colheita, previsto para começar em meados de setembro.

Uma eventual redução da oferta internacional poderá favorecer as cotações e ampliar a competitividade do milho brasileiro. Para que esse movimento beneficie efetivamente o produtor, no entanto, será necessário acompanhar a formação dos preços nas praças regionais.

Alta na B3 e em Chicago nem sempre chega ao produtor

A valorização dos contratos futuros na B3 ou na Bolsa de Chicago não é necessariamente transferida de forma integral para o preço disponível no interior do Brasil.

Custos logísticos, distância dos portos, disponibilidade regional, demanda local e comportamento do basis — diferença entre o preço físico e a referência futura — interferem diretamente no valor recebido pelo produtor.

Por esse motivo, eventuais movimentos de alta devem ser avaliados de acordo com a realidade de cada praça. Quando a valorização das bolsas alcançar o mercado físico, a orientação é aproveitar as oportunidades para avançar gradualmente nas vendas.

Caso o preço disponível não acompanhe as referências futuras, instrumentos como contratos futuros e opções podem ser utilizados para complementar a estratégia comercial e buscar uma média mais compatível com o orçamento da propriedade.

Para a safra 2025/26, a recomendação é administrar o milho ainda disponível, reduzir progressivamente a exposição ao mercado e aproveitar as janelas de valorização sem concentrar toda a comercialização em um único momento.

Safrinha 2026/27 tem apenas 10% da produção negociada

Enquanto a safra atual exige decisões relacionadas ao escoamento, o ciclo 2026/27 começa a ser planejado com a maior parte da produção ainda exposta às oscilações do mercado.

Até o fim de agosto, somente 10% do milho projetado para a próxima safrinha havia sido comercializado. Isso significa que aproximadamente 90% do volume futuro permanecia sem proteção de preço justamente no período em que os produtores iniciavam a compra de insumos e a definição do orçamento da nova temporada.

A baixa comercialização antecipada aumenta a exposição às variações do câmbio, dos fertilizantes e das cotações do cereal. Ao mesmo tempo, vender uma parcela excessiva da produção antes de haver maior segurança sobre área, produtividade e clima também pode comprometer a flexibilidade do produtor.

Atraso no plantio da soja ameaça janela do milho

Um dos principais riscos para a safrinha 2026/27 está relacionado ao calendário da soja. Eventuais atrasos na semeadura ou no desenvolvimento da oleaginosa podem adiar sua colheita e reduzir a janela ideal para o plantio do milho.

Quanto mais tarde ocorrer a implantação da segunda safra, maior será a exposição das lavouras à redução das chuvas e às condições climáticas adversas no fim do ciclo. Esse risco poderá afetar diretamente a produtividade e o volume de milho produzido em 2027.

Por isso, o planejamento comercial da próxima safrinha deverá caminhar junto com o acompanhamento das condições climáticas, do calendário da soja e da evolução dos custos de produção.

Relação entre milho e ureia pressiona planejamento

A relação de troca entre milho e ureia voltou a níveis próximos da média dos últimos cinco anos. Atualmente, são necessárias cerca de 57 sacas de milho para adquirir uma tonelada do fertilizante.

As referências da ureia no mercado brasileiro também voltaram a ganhar firmeza, com ofertas entre US$ 430 e US$ 445 por tonelada CFR. A valorização do insumo aumenta a necessidade de analisar conjuntamente o preço de venda do cereal e o custo de implantação da lavoura.

Na avaliação da Biond Agro, a decisão para a temporada 2026/27 não deve considerar isoladamente o maior preço do milho ou o menor valor dos fertilizantes. O ponto central é identificar momentos em que a relação entre receita projetada e custos permita assegurar uma margem considerada saudável.

Estratégias devem ser diferentes para cada safra

O cenário exige que o produtor separe claramente as decisões comerciais dos dois ciclos. Para o milho 2025/26, a prioridade está na administração dos estoques, na redução da exposição e no aproveitamento de eventuais recuperações dos preços.

Já para a safrinha 2026/27, o foco deve estar na construção antecipada de margens e na gestão dos riscos relacionados ao clima, ao câmbio e aos custos.

A orientação é evitar tanto a venda agressiva de toda a produção futura quanto a manutenção de 100% do volume em aberto. O caminho considerado mais equilibrado envolve negociações parciais quando as margens forem atrativas, preservando uma parcela da safra para decisões posteriores, quando houver maior definição sobre o calendário da soja, as condições climáticas e o potencial produtivo.

Com a colheita 2025/26 próxima do encerramento, a comercialização passa a ocupar o centro das decisões. Para a temporada 2026/27, o desafio será transformar preços e custos em margens sustentáveis, mantendo flexibilidade para enfrentar as oscilações do mercado e os riscos da próxima safra.

Fonte: Portal do Agronegócio

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