Oferta de cacau melhora no Brasil, mas recuperação da demanda ainda limita avanço da indústria
Dados do primeiro semestre de 2026 mostram forte crescimento no recebimento de amêndoas, redução das importações e recuperação da produção, mas moagem segue quase 20% abaixo do período pré-crise.
Publicado em: 13/07/2026 às 11:30hs
A cadeia brasileira do cacau apresentou sinais de recuperação no primeiro semestre de 2026, com aumento expressivo na disponibilidade de matéria-prima após dois anos marcados pela escassez de amêndoas. Apesar do avanço da produção nacional, o setor ainda enfrenta um desafio central: transformar a maior oferta de cacau em aumento da moagem, geração de valor e fortalecimento da indústria.
Dados compilados pelo SindiDados – Campos Consultores e divulgados pela Associação Nacional das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC) indicam que o recebimento de amêndoas alcançou 95.108 toneladas entre janeiro e junho de 2026, crescimento de 63,4% em relação ao mesmo período de 2025 e volume praticamente equivalente ao registrado antes da crise de oferta, em 2023.
Produção brasileira de cacau mostra recuperação no primeiro semestre
O avanço foi impulsionado principalmente pelo desempenho do segundo trimestre, quando o recebimento de amêndoas chegou a 66.503 toneladas, alta de 64,5% na comparação anual.
Para a AIPC, os números indicam uma retomada positiva da produção nacional, mas a consolidação desse movimento dependerá da capacidade da cadeia de manter o crescimento nos próximos ciclos e ampliar a transformação da matéria-prima em produtos de maior valor agregado.
“A produção de amêndoas de cacau no Brasil voltou a apresentar uma sinalização positiva de crescimento. O desafio é consolidar esse movimento para que ele se mantenha nos próximos ciclos e para que essa produção se traduza em mais processamento, maior competitividade e valor para toda a cadeia”, avalia Anna Paula Losi, presidente-executiva da entidade.
Moagem de cacau ainda está abaixo dos níveis pré-crise
Apesar da recuperação da oferta, a indústria ainda opera abaixo dos volumes registrados antes da crise de abastecimento.
No primeiro semestre de 2026, a moagem brasileira de cacau totalizou 101.426 toneladas, crescimento de apenas 3,6% frente às 97.904 toneladas processadas no mesmo período de 2025.
Na comparação com 2023, quando a cadeia ainda operava em um cenário mais equilibrado, o volume atual permanece 19,8% inferior.
Entre abril e junho, a moagem atingiu 49.711 toneladas, aumento de 8,6% em relação ao segundo trimestre de 2025, mas ainda 20,4% abaixo do registrado no mesmo período de 2023.
Os números mostram que a recuperação da produção ainda não se converteu em uma retomada proporcional da demanda por derivados de cacau.
Menor necessidade de importações reflete maior oferta nacional
O aumento da produção brasileira reduziu significativamente a dependência de importações de amêndoas.
No primeiro semestre de 2026, o país importou 18,1 mil toneladas, volume 57,1% menor que o registrado no mesmo período de 2025 e o menor da série recente.
O movimento foi ainda mais significativo no segundo trimestre, quando o Brasil não precisou importar amêndoas pela primeira vez em quatro anos.
Segundo a AIPC, o resultado deve ser analisado com cautela. A menor necessidade de compras externas reflete uma combinação entre maior disponibilidade interna de cacau e ritmo mais moderado da demanda industrial, não significando autossuficiência estrutural da produção brasileira.
Exportações de derivados seguem abaixo do potencial
O desempenho das exportações reforça o cenário de recuperação gradual da indústria.
Os embarques brasileiros de derivados de cacau somaram 26.739 toneladas no primeiro semestre de 2026, queda de 7% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Embora o segundo trimestre tenha apresentado crescimento de 13% frente ao primeiro trimestre, o resultado ainda não foi suficiente para compensar a retração acumulada.
A Argentina permaneceu como principal destino dos produtos brasileiros, concentrando 45% das exportações, seguida pelos Estados Unidos, com 19%, e pelo Chile, com 9%.
As importações de derivados também recuaram. O volume adquirido pelo Brasil caiu para 23.336 toneladas, redução de 8,1% em relação ao primeiro semestre de 2025.
Indústria precisa transformar oferta em valor agregado
Para a AIPC, o principal desafio da cadeia brasileira é ampliar a transformação do cacau produzido internamente em produtos industrializados.
A entidade destaca que uma maior produção só gera impacto econômico quando acompanhada de aumento da moagem, investimentos industriais e expansão da demanda por derivados.
“Produzir mais cacau é apenas o primeiro passo. O fortalecimento da cadeia ocorre quando essa produção é transformada em produtos de maior valor agregado”, destaca Anna Paula Losi.
Segundo a executiva, ampliar a capacidade de processamento será fundamental para reduzir a ociosidade industrial, gerar empregos e aumentar a competitividade brasileira no mercado internacional.
Bahia lidera produção, enquanto Pará amplia participação
A recuperação da oferta ocorreu de maneira diferente entre os principais estados produtores.
A Bahia manteve a liderança nacional, respondendo por 56,8% do cacau recebido pela indústria no primeiro semestre de 2026. Apesar da posição dominante, a participação relativa do estado diminuiu em relação aos anos anteriores.
O Pará ampliou sua presença no mercado e passou a representar 38,8% do recebimento nacional, consolidando o avanço da produção na região Norte.
O Espírito Santo respondeu por 3,1%, enquanto Rondônia alcançou 1,2%, mantendo a trajetória de crescimento observada nos últimos anos.
Mercado internacional de cacau segue marcado por volatilidade
No cenário global, o mercado internacional de cacau continua operando em um ambiente de incerteza, equilibrando uma oferta mais confortável com riscos climáticos e recuperação gradual da demanda.
Segundo análise da StoneX, os contratos futuros oscilaram entre US$ 3.500 e US$ 5.500 por tonelada no segundo trimestre de 2026, patamar ainda elevado historicamente, mas abaixo dos recordes registrados entre 2024 e 2025.
A principal pressão baixista veio da melhora da safra africana, especialmente na Costa do Marfim, onde as entregas superaram as expectativas e contribuíram para uma recomposição dos estoques globais após três temporadas consecutivas de déficit.
Clima continua sendo principal fator de risco para o cacau
Apesar do cenário mais confortável no curto prazo, o mercado já acompanha a próxima safra global, com atenção especial às condições climáticas na África Ocidental.
A possibilidade de ocorrência de um episódio de El Niño mantém um prêmio de risco sobre os preços, considerando os impactos históricos do fenômeno sobre regiões produtoras como Costa do Marfim e Gana.
No Brasil, os efeitos podem variar conforme a região. Enquanto algumas áreas podem enfrentar riscos de estiagem, outras podem apresentar condições favoráveis dependendo do comportamento climático.
Recuperação sustentável depende de produção e indústria alinhadas
A melhora da oferta de cacau representa uma oportunidade importante para o Brasil, mas ainda não caracteriza uma mudança estrutural na cadeia produtiva.
Para consolidar a recuperação, o setor precisará combinar aumento da produção, investimentos em tecnologia, renovação de lavouras, sustentabilidade e expansão da capacidade industrial.
A próxima etapa da cacauicultura brasileira dependerá da capacidade de transformar uma maior disponibilidade de matéria-prima em mais processamento, maior agregação de valor e fortalecimento da presença do país nos mercados nacional e internacional.
Fonte: Portal do Agronegócio
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