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Fruticultura e Horticultura

Nanofertilizante feito com caroço de açaí aumenta crescimento de milho e sorgo e abre novas possibilidades para agricultura sustentável

Tecnologia desenvolvida por pesquisadores da Embrapa e UFC transforma resíduo agroindustrial em nanoproduto capaz de estimular raízes, melhorar a fotossíntese e aumentar o desenvolvimento das plantas


Publicado em: 12/08/2026 às 16:00hs

Nanofertilizante feito com caroço de açaí aumenta crescimento de milho e sorgo e abre novas possibilidades para agricultura sustentável
Foto: Ronaldo Rosa

Pesquisadores da Embrapa Agroindústria Tropical e da Universidade Federal do Ceará desenvolveram um nanofertilizante produzido a partir do caroço de açaí com potencial para aumentar o crescimento de culturas agrícolas como milho e sorgo.

Em testes experimentais, a aplicação de pequenas doses do produto promoveu ganhos expressivos no desenvolvimento das plantas. No milho, o crescimento relativo aumentou 24%, enquanto no sorgo o avanço chegou a 164%. O sistema radicular também apresentou evolução significativa, com aumento de 23% no milho e 59% no sorgo em comparação com plantas que não receberam o tratamento.

A inovação transforma um resíduo abundante da cadeia do açaí em uma tecnologia agrícola de alto valor agregado, unindo nanotecnologia, sustentabilidade e eficiência no uso de nutrientes.

Caroço de açaí vira matéria-prima para fertilizante inteligente

O caroço do açaí representa um dos principais resíduos gerados pela indústria de processamento da fruta. Para cada tonelada de açaí utilizada na produção de polpa, aproximadamente 700 quilos de sementes são descartados.

Esse material normalmente tem baixo aproveitamento econômico, sendo destinado principalmente à queima em caldeiras ou acumulado em áreas urbanas próximas aos centros produtores.

Segundo os pesquisadores, a composição rica em carbono e minerais faz do caroço de açaí uma matéria-prima estratégica para a produção de nanopartículas com aplicação agrícola.

“O caroço do açaí funciona como um kit natural de sobrevivência da planta, reunindo nutrientes importantes para o desenvolvimento inicial em ambientes adversos”, explicam os pesquisadores envolvidos no estudo.

Nanopartículas estimulam fotossíntese e absorção de nutrientes

O nanofertilizante é produzido por meio de um processo chamado síntese hidrotermal, no qual o pó da semente do açaí é submetido a altas temperaturas e pressão controlada.

O resultado são nanopartículas fluorescentes conhecidas como pontos quânticos de carbono (carbon quantum dots), estruturas extremamente pequenas, com cerca de quatro nanômetros.

Após a aplicação nas plantas, essas partículas conseguem penetrar nos tecidos foliares e atuar como transportadoras de nutrientes, além de estimular processos relacionados à fotossíntese.

Os pontos quânticos absorvem radiação ultravioleta e emitem uma luz azul que auxilia o sistema fotoquímico das plantas, aumentando a eficiência no aproveitamento da energia luminosa.

De acordo com o pesquisador Cláudio Carvalho, da Embrapa Agroindústria Tropical, o tamanho reduzido das partículas permite maior eficiência na entrega de nutrientes diretamente às células vegetais.

Além disso, os nanofertilizantes podem contribuir para a ativação de enzimas relacionadas à defesa das plantas contra estresses oxidativos.

Tecnologia pode reduzir uso de fertilizantes convencionais

Uma das principais vantagens dos nanofertilizantes é a possibilidade de alcançar resultados agrícolas com menores doses de aplicação.

Segundo os pesquisadores, a tecnologia pode reduzir perdas de nutrientes, diminuir o escoamento superficial e minimizar impactos ambientais associados ao uso tradicional de fertilizantes.

“Com doses menores, os nanofertilizantes apresentam potencial para aumentar a eficiência nutricional das plantas e contribuir para sistemas agrícolas mais sustentáveis”, destacam os especialistas.

A expectativa é que a inovação possa representar uma alternativa para melhorar a eficiência do uso de nutrientes, especialmente em regiões onde o acesso a insumos agrícolas é mais limitado.

Testes iniciais mostram potencial para milho e sorgo no semiárido

Nos experimentos foram utilizadas as variedades de milho BRS-Gorutuba e sorgo 2502, ambas adaptadas a ciclos curtos e recomendadas para regiões do semiárido brasileiro.

O crescimento das raízes chamou atenção principalmente no sorgo, uma característica importante para ampliar a capacidade da planta de explorar água e nutrientes disponíveis no solo.

Esse avanço pode favorecer maior resistência das culturas em ambientes com restrições hídricas e condições adversas de produção.

Pesquisa avança para novas culturas agrícolas

Os pesquisadores pretendem ampliar os estudos para outras espécies agrícolas, incluindo feijão, batata-doce, abóbora, hortaliças e mudas de açaizeiro.

A expectativa é que, após etapas de validação, regulamentação e escalonamento industrial, o produto possa ser utilizado em diferentes sistemas produtivos, desde viveiros até áreas agrícolas comerciais.

O professor Pierre Fechine, coordenador do Laboratório do Grupo de Química de Materiais Avançados (GQMat) da UFC, destaca que o Brasil possui grande disponibilidade de resíduos agroindustriais que podem se transformar em matérias-primas para novas tecnologias.

“Resíduos agrícolas representam uma fonte abundante e de baixo custo para o desenvolvimento de materiais inovadores”, afirma o pesquisador.

Desafios para levar a tecnologia ao campo

Apesar dos resultados positivos em laboratório, os cientistas apontam que ainda existem desafios antes da adoção comercial do nanofertilizante.

Um dos principais obstáculos é garantir que a produção em escala industrial mantenha as mesmas características químicas, ópticas e biológicas observadas nos testes experimentais.

Também será necessário aperfeiçoar os custos relacionados ao processo de fabricação, incluindo consumo energético, purificação do material e logística de coleta da biomassa.

Estudo internacional comprova potencial dos pontos quânticos de carbono

Os resultados da pesquisa foram publicados no artigo científico “Carbon-based nanopigments derived from açaí seed residues with tunable optical properties and biofunctional performance”, na revista internacional Dyes and Pigments.

O trabalho demonstra como um resíduo agroindustrial pode ser convertido em um material inteligente capaz de interagir com sistemas biológicos e estimular o crescimento vegetal.

Os pontos quânticos de carbono vêm ganhando destaque mundial em áreas como sensores, medicina, energia, tratamento de água e agricultura.

No setor agrícola, essas nanopartículas são estudadas como ferramentas para aumentar a eficiência fotossintética, melhorar o transporte de nutrientes e desenvolver sistemas produtivos mais sustentáveis.

Nanotecnologia agrícola transforma resíduos em inovação no campo

A pesquisa desenvolvida pela Embrapa e UFC reforça uma tendência crescente do agronegócio: transformar resíduos da agroindústria em soluções tecnológicas capazes de gerar valor, reduzir impactos ambientais e aumentar a eficiência produtiva.

O nanofertilizante produzido com caroço de açaí representa uma nova fronteira da agricultura sustentável, combinando economia circular, nanotecnologia e maior aproveitamento dos recursos naturais.

Fonte: Portal do Agronegócio

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