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Soja

Manejo do solo eleva produtividade da soja e reduz risco de perdas por seca, mostra Embrapa

Estudo com 28 safras em Mato Grosso do Sul validou metodologia do Zarc que considera a conservação do solo; melhores níveis de manejo também permitem maior subvenção ao seguro rural


Publicado em: 01/10/2026 às 17:00hs

Manejo do solo eleva produtividade da soja e reduz risco de perdas por seca, mostra Embrapa

A qualidade do manejo do solo está diretamente associada à produtividade da soja e à capacidade da lavoura de enfrentar períodos de estiagem. Pesquisa da Embrapa Agropecuária Oeste, realizada em Dourados (MS), identificou um avanço médio de aproximadamente 11,1 pontos percentuais na produtividade relativa a cada nível superior de manejo.

O estudo validou, em condições de campo, a metodologia do Zoneamento Agrícola de Risco Climático – Níveis de Manejo (ZarcNM). A ferramenta classifica os talhões em quatro categorias, do NM1, de menor qualidade, ao NM4, que reúne as melhores condições de manejo.

Os resultados foram obtidos em um experimento de longa duração, instalado há cerca de 30 anos. A avaliação reuniu 28 safras consecutivas de soja, entre 1998 e 2026, e mais de 4,3 mil pontos georreferenciados, com registros de análises químicas, cobertura do solo e produtividade.

Produtividade aumenta conforme a qualidade do manejo

A análise mostrou uma relação linear entre os níveis de manejo e o desempenho da soja. Na média das safras avaliadas, a produtividade relativa foi de 44,0% no NM1, 55,1% no NM2, 66,2% no NM3 e 77,2% no NM4.

Esses valores representam uma diferença de aproximadamente 11,1 pontos percentuais entre níveis consecutivos. O resultado evidencia a contribuição das práticas conservacionistas para o rendimento da cultura, especialmente quando há restrição de água.

Segundo o pesquisador Júlio Cesar Salton, o manejo influencia o armazenamento de água no solo e as condições para o desenvolvimento das raízes. Com uma estrutura mais favorável, as plantas conseguem enfrentar melhor as oscilações climáticas.

Ao longo da série, os rendimentos variaram amplamente, com registros que, na maioria das avaliações, oscilaram entre duas e cerca de 90 sacas por hectare. Essa variação esteve relacionada à distribuição das chuvas, à duração dos veranicos e aos sistemas de produção utilizados.

ZarcNM incorpora conservação do solo à análise de risco climático

O Zarc tradicional considera clima, tipo de solo, época de semeadura e ciclo das cultivares para indicar períodos de plantio com menor risco de perdas. O ZarcNM acrescenta a essa avaliação a qualidade do manejo adotado em cada talhão.

O NM1 está associado a sistemas de menor qualidade, como preparo convencional, monocultivo de soja e degradação gradual do solo. Já o NM4 corresponde às melhores condições de manejo, favorecidas por práticas como plantio direto e integração lavoura-pecuária.

A validação comparou três modelos de produção: preparo convencional com monocultivo de soja e gradagens frequentes; plantio direto com rotação de culturas; e integração lavoura-pecuária, com alternância entre soja e pastagens.

Os pesquisadores avaliaram atributos químicos, cobertura vegetal, diversidade de cultivos e tempo sem revolvimento do solo para relacionar as condições de cada área ao desempenho produtivo.

Seis indicadores definem o nível de manejo

A classificação do ZarcNM utiliza seis indicadores: tempo sem revolvimento do solo, cobertura vegetal antes da semeadura, saturação por bases na camada superficial, teor de cálcio e saturação por alumínio em camadas mais profundas, além da diversidade de cultivos nos três últimos anos agrícolas.

Segundo a pesquisa, áreas de monocultivo tendem a permanecer nas categorias inferiores. A rotação de culturas e a integração lavoura-pecuária favorecem o enquadramento nos níveis mais elevados.

A diversidade de espécies contribui para melhorar a estrutura do solo, ampliar a atividade biológica e favorecer a infiltração de água. Essas condições permitem que as raízes explorem camadas mais profundas, aumentando o acesso à água durante períodos sem chuva.

Benefícios são maiores em situações de déficit hídrico moderado

As diferenças entre os sistemas ficaram mais evidentes nos anos de déficit hídrico moderado. Nessas condições, os talhões classificados como NM3 e NM4 apresentaram produtividade significativamente superior à dos sistemas convencionais.

A pesquisa também identificou limites para a proteção proporcionada pelo manejo. Em episódios de seca extrema, houve perdas expressivas mesmo nas áreas conservacionistas, embora esses sistemas tenham reduzido parcialmente os prejuízos.

O pesquisador Carlos Ricardo Fietz destaca que veranicos frequentes e a baixa retenção de água de parte dos solos comprometem historicamente a soja no centro-sul de Mato Grosso do Sul. Entre os exemplos estão as safras 2003/04 e 2020/21, marcadas por volumes muito reduzidos de precipitação.

Para Salton, conservar o solo aumenta a estabilidade produtiva e reduz a vulnerabilidade da lavoura, mas não elimina os efeitos de uma seca severa.

Melhor manejo pode ampliar subvenção ao seguro rural

Além de apoiar decisões agronômicas, o ZarcNM pode contribuir para políticas de gestão de risco. A pesquisadora Michely Tomazi ressalta que considerar o manejo permite avaliar a probabilidade de perdas por seca com maior precisão.

Segundo dados de 2022 do Ministério da Agricultura, 80,5% dos sinistros registrados em Mato Grosso do Sul estavam relacionados à deficiência hídrica.

Em caráter experimental, o ZarcNM contempla a soja nos três estados do Sul e em Mato Grosso do Sul, além do milho de segunda safra no Paraná e em Mato Grosso do Sul.

Na soja, os percentuais de subvenção ao prêmio do seguro rural informados para os participantes são de 40% no NM4, 35% no NM3, 30% no NM2 e 20% no NM1. Para o milho de segunda safra, os percentuais são de 50% nos níveis NM3 e NM4, 45% no NM2 e 40% no NM1.

Participação começa com análise de solo

Os produtores interessados devem procurar operadores credenciados. O processo começa pela análise de solo, cujos resultados são inseridos pelo laboratório no Sistema de Informações de Níveis de Manejo (SiNM).

Em seguida, o operador de contrato — que pode ser uma seguradora, um banco ou uma cooperativa — registra os dados do produtor e da propriedade e aciona o levantamento das informações de geoprocessamento. Com esse conjunto de dados, o sistema calcula o nível de manejo do talhão.

A experiência piloto começou na safra 2025/26, com soja no Paraná, e foi ampliada na temporada 2026/27. A expectativa é de expansão gradual para outras regiões e culturas.

Fonte: Portal do Agronegócio

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