Madeira da Amazônia pode revelar sua origem por análise química e inteligência artificial, aponta pesquisa
Estudo conduzido pela USP, em parceria com IPEN e Embrapa, já analisou 228 amostras de 38 espécies para desenvolver ferramentas de rastreabilidade e apoio à fiscalização ambiental
Publicado em: 01/10/2026 às 13:30hs
A composição química da madeira pode trazer pistas sobre a região onde uma árvore cresceu. É com base nessa característica que pesquisadores buscam desenvolver uma ferramenta para verificar a origem de espécies nativas da Amazônia e auxiliar na identificação de irregularidades no comércio madeireiro.
O estudo reúne equipes do Centro de Energia Nuclear na Agricultura da Universidade de São Paulo (CENA/USP), da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), do Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (IPEN-CNEN) e da Embrapa. Até agora, 228 das 272 amostras coletadas foram analisadas. O material abrange 38 espécies provenientes de estados da Amazônia Legal, entre eles Rondônia, Pará, Acre, Amapá, Amazonas, Mato Grosso e Roraima.
A proposta é combinar análises de isótopos e elementos químicos com métodos estatísticos e inteligência artificial. Com isso, os pesquisadores pretendem identificar padrões que ajudem a comparar a procedência declarada da madeira com suas características naturais.
Estrôncio presente na madeira oferece pistas sobre a origem
Um dos principais elementos investigados é o estrôncio. As proporções de seus isótopos na madeira podem refletir características do solo da região onde a árvore se desenvolveu, funcionando como parte de uma assinatura de origem.
Segundo Gabriele Rossini Moreira, doutoranda do CENA/USP, a composição isotópica do estrôncio nas amostras apresentou variações associadas à procedência geográfica e acompanhou a assinatura encontrada na fração do solo disponível às plantas.
Nas amostras estudadas, o Amapá apresentou razões isotópicas de estrôncio menores e menos variáveis. O Pará registrou valores maiores, enquanto Rondônia mostrou razões mais elevadas e maior heterogeneidade. A equipe também identificou a importância de elementos como bário e estrôncio para diferenciar amostras de determinadas regiões.
Inteligência artificial ajuda a analisar os padrões
A identificação da origem não depende de um único componente químico. Uma mesma espécie pode crescer em regiões diferentes, enquanto certos elementos variam tanto conforme a espécie quanto conforme o local. Por isso, os pesquisadores analisam a combinação de características da madeira.
Entre as ferramentas empregadas estão a Análise de Componentes Principais (PCA), que ajuda a visualizar diferenças entre as amostras, e o Random Forest, método de aprendizado de máquina usado para reconhecer padrões e testar a classificação geográfica. Parte das medições isotópicas foi realizada por Gabriele na Universidade de Ghent, na Bélgica, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
A pesquisa inclui espécies de importância econômica, como ipê, cumaru, castanheira e roxinho. A próxima etapa prevista é ampliar a base de dados sobre a composição química e isotópica da madeira e desenvolver modelos de classificação que possam ser usados como apoio à fiscalização.
O Documento de Origem Florestal (DOF) é utilizado para o controle da procedência legal da madeira. A ferramenta em desenvolvimento poderá acrescentar uma forma de verificação material da origem declarada, mas os resultados apresentados até agora fazem parte de uma pesquisa em andamento.
O trabalho é financiado pela FAPESP no âmbito do projeto temático “Transparência nas cadeias produtivas brasileiras de commodities agrícolas de exportação: Estudo holístico de marcadores elementares e isotópicos”.
Fonte: Portal do Agronegócio
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