Publicidade
Fruticultura e Horticultura

Importação de morango do Egito cresce 35% e ameaça renda dos produtores brasileiros

Brasil comprou 34 mil toneladas de morango congelado entre janeiro e julho de 2026; produto egípcio, vendido abaixo do custo nacional, amplia pressão sobre o mercado às vésperas do pico da safra


Publicado em: 26/08/2026 às 10:00hs

Importação de morango do Egito cresce 35% e ameaça renda dos produtores brasileiros
Foto: CNA

O avanço das importações de morango congelado acendeu um alerta entre os produtores brasileiros. De janeiro a julho de 2026, o País adquiriu aproximadamente 34 mil toneladas do produto, volume quase 35% superior ao registrado no mesmo período de 2025, segundo dados do Comex Stat, sistema do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).

O Egito consolidou-se como o principal fornecedor, respondendo por 93,4% das compras brasileiras no período. A entrada crescente do produto ocorre às vésperas do pico da safra nacional e pode reduzir a demanda da indústria pela fruta produzida no Brasil, pressionando os preços e a rentabilidade no campo.

Diante do cenário, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) encaminhou ofícios aos ministérios da Agricultura e Pecuária (Mapa) e do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. A entidade solicita o monitoramento das importações e a avaliação dos impactos sobre a cadeia produtiva nacional.

Brasil importou 34 mil toneladas de morango congelado em sete meses

As importações brasileiras de morango congelado já vinham apresentando volume expressivo. Em 2025, o País comprou aproximadamente 42 mil toneladas, das quais 83% foram fornecidas pelo Egito.

Nos primeiros sete meses de 2026, as aquisições alcançaram cerca de 34 mil toneladas. Desse total, aproximadamente 32 mil toneladas tiveram origem egípcia, elevando para 93,4% a participação do país africano no mercado importador brasileiro.

Na comparação com o intervalo entre janeiro e julho de 2025, o crescimento foi de quase 35%.

De acordo com os números apresentados pela Faesp, as importações realizadas em 2025 corresponderam a aproximadamente 30% do mercado brasileiro. Somente entre janeiro e julho de 2026, as compras externas já representaram quase 25%.

Com a possibilidade de novos desembarques ao longo do segundo semestre, a preocupação é que o morango estrangeiro ocupe uma parcela ainda maior do segmento tradicionalmente abastecido pela produção nacional destinada ao processamento industrial.

Morango importado chega ao Brasil por preço inferior ao custo nacional

Além do aumento do volume, a queda no preço médio do morango congelado importado amplia a pressão sobre os agricultores brasileiros.

Entre janeiro e julho de 2026, o produto desembarcou no País pelo valor médio de US$ 0,83 por quilo. Em julho, o preço recuou para US$ 0,75 por quilo, o menor nível da série recente. Considerando a taxa média de câmbio do período, o valor corresponde a aproximadamente R$ 4,38 por quilo.

No Brasil, estudos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq-USP), referentes à safra 2022/23, indicaram custos médios entre R$ 8,34 e R$ 8,51 por quilo para pequenos produtores de morango em Minas Gerais.

Embora os valores se refiram a períodos diferentes e possam sofrer alterações conforme região, sistema produtivo, produtividade e preços dos insumos, a diferença evidencia a dificuldade de competição enfrentada pelo produto nacional.

A pressão tende a aumentar com a chegada do pico da safra brasileira, quando o maior volume colhido exige rápida comercialização.

Indústria pode reduzir compras de morango brasileiro

Um dos principais efeitos das importações ocorre no segmento industrial. Parte dos morangos que não apresenta tamanho, formato ou aparência adequados para o mercado in natura é encaminhada para processamento.

A indústria absorve essa fruta para produção de polpas, geleias, doces, iogurtes, sorvetes, bebidas e outros alimentos. Esse canal permite reduzir perdas, aproveitar o produto fora do padrão visual e agregar valor à atividade.

Quando os processadores substituem a matéria-prima brasileira pelo morango congelado importado, diminui o mercado disponível para o agricultor nacional.

Em Atibaia, um dos principais polos de produção e comercialização de morangos de São Paulo, levantamentos apresentados pela Faesp indicam que o processamento industrial pode absorver até 25% da produção durante a safra.

A redução dessas compras pode levar uma parcela maior da colheita ao mercado de frutas frescas. O aumento da oferta, sem crescimento proporcional da demanda, tende a pressionar para baixo os preços recebidos pelos produtores.

Perecibilidade deixa produtor mais exposto à queda dos preços

A elevada perecibilidade do morango aumenta a vulnerabilidade econômica da cadeia. A fruta possui vida útil curta, exige cuidados durante a colheita e depende de estruturas adequadas de refrigeração, transporte e comercialização.

Diferentemente de grãos e outros produtos armazenáveis, o morango não pode permanecer por longos períodos aguardando melhores condições de mercado. A necessidade de venda rápida reduz o poder de negociação do agricultor.

Quando a oferta aumenta e a indústria reduz as compras, o produtor precisa encontrar alternativas em pouco tempo para evitar a deterioração da fruta. Esse desequilíbrio pode provocar queda das cotações, desperdício da produção e comprometimento da margem financeira.

A situação afeta principalmente pequenos agricultores, que predominam na cadeia e possuem menor capacidade de armazenamento, processamento próprio e negociação com compradores.

Acordo entre Mercosul e Egito prevê medidas de salvaguarda

A entrada do morango egípcio ocorre no âmbito do Acordo de Livre Comércio Mercosul–Egito, que estabelece a redução gradual das tarifas aplicadas aos produtos negociados entre os países.

O tratado também prevê mecanismos de salvaguarda quando o aumento das importações causar ou ameaçar causar dano grave à produção doméstica.

No Brasil, a aplicação de uma eventual medida depende do cumprimento dos requisitos legais e da realização de uma investigação conduzida pela Secretaria de Comércio Exterior (Secex), vinculada ao MDIC.

O procedimento deve avaliar fatores como evolução do volume importado, preços, participação no mercado, impacto sobre a produção nacional, rentabilidade, emprego e possíveis danos à cadeia produtiva.

Faesp e CNA pedem monitoramento das importações

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) já havia alertado o Mapa e o MDIC sobre o crescimento das compras externas por meio da Nota Técnica nº 14/2026.

Com a atualização dos dados até julho, a Faesp considera necessário intensificar o acompanhamento das entradas do produto e de seus efeitos sobre os produtores brasileiros.

Nos ofícios encaminhados aos ministérios, a federação solicita:

  • Monitoramento permanente das importações de morango;
  • Avaliação técnica dos impactos sobre a produção nacional;
  • Consolidação de dados econômicos e produtivos;
  • Diálogo com as entidades representativas da cadeia;
  • Análise de possíveis instrumentos de defesa comercial, caso os requisitos legais sejam atendidos.

A mobilização ocorre em um momento sensível para o setor. Com a aproximação do período de maior oferta nacional, produtores temem que a presença crescente do morango congelado egípcio reduza o espaço da fruta brasileira na indústria e provoque uma pressão adicional sobre o mercado in natura.

Para as entidades, o acompanhamento do cenário será fundamental para preservar a competitividade da produção brasileira, a renda dos agricultores e a sustentabilidade econômica da cadeia do morango.

Fonte: Portal do Agronegócio

◄ Leia outras notícias