Publicidade
Fruticultura e Horticultura

Falta de mão de obra ameaça produção de frutas, legumes e verduras no Brasil

Pesquisa revela que 93,3% dos produtores perceberam redução na oferta de trabalhadores; escassez já provoca atrasos, eleva custos e limita a área plantada


Publicado em: 20/08/2026 às 18:20hs

Falta de mão de obra ameaça produção de frutas, legumes e verduras no Brasil
Foto: Agência Brasil

A falta de mão de obra tornou-se o principal desafio para os produtores brasileiros de frutas, legumes e verduras. Pesquisa publicada pela revista Hortifrúti Brasil, do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), mostra que 93,3% dos entrevistados perceberam uma redução na disponibilidade de trabalhadores nos últimos cinco anos.

O problema já preocupa mais os produtores do que os custos financeiros, as mudanças climáticas, os gargalos logísticos e as incertezas econômicas. Além de comprometer as atividades diárias das propriedades, a escassez de profissionais começa a limitar a capacidade produtiva do setor.

Escassez de trabalhadores aumenta custos e reduz área cultivada

De acordo com o levantamento, a dificuldade para contratar trabalhadores vem causando impactos diretos nas operações das propriedades rurais. Entre os produtores consultados:

  • 61% relataram atrasos nas atividades;
  • 58% registraram aumento dos custos;
  • 44% perceberam perda de qualidade dos produtos;
  • 43% apontaram queda de produtividade;
  • 39% reduziram a área plantada.

Para o head da Ascenza Brasil, Hugo Centurion, a situação deixou de representar apenas uma dificuldade operacional e passou a ameaçar a eficiência e a rentabilidade de toda a cadeia hortifrutícola.

Segundo o executivo, a redução da área cultivada é um dos sinais mais preocupantes, pois demonstra que a ausência de trabalhadores já interfere na oferta de alimentos ao mercado.

Hortifrúti está entre os setores que mais geram empregos no campo

A fruticultura e a olericultura apresentam elevada demanda por mão de obra, especialmente quando comparadas às grandes culturas mecanizadas. Dados setoriais atribuídos à Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e à Associação Brasileira dos Produtores Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas) indicam que a cadeia pode reunir entre 5 milhões de empregos diretos e até 13 milhões de postos diretos e indiretos.

As oportunidades estão distribuídas entre diferentes etapas, como produção, colheita, beneficiamento, embalagem, transporte e comercialização.

As estimativas apontam aproximadamente 6 milhões de ocupações diretas e indiretas relacionadas à fruticultura e outras 7 milhões ligadas à produção de legumes e hortaliças.

Em média, o segmento hortifrutícola demanda 2,6 trabalhadores por hectare, o equivalente a aproximadamente 6,3 pessoas por alqueire paulista, medida correspondente a 2,42 hectares.

Uva, morango, tomate e mamão exigem mais trabalho manual

A necessidade de trabalhadores varia conforme a cultura, o nível tecnológico da propriedade e a possibilidade de mecanização. Produções intensivas, como uva de mesa, morango, tomate de mesa e mamão, podem exigir entre três e seis trabalhadores por hectare.

Isso representa de sete a 14 pessoas por alqueire, principalmente para atividades como poda, raleio, seleção e colheita contínua.

Na comparação com a soja e o milho, o hortifrúti pode empregar entre 25 e 30 vezes mais pessoas por área cultivada. Nas lavouras de grãos, a mecanização permite que um único profissional opere em áreas superiores a 100 hectares.

A colheita permanece como um dos maiores obstáculos à automação. Frutas, legumes e hortaliças frequentemente exigem avaliação visual, seleção individual e manuseio cuidadoso para evitar danos e perdas de qualidade.

Déficit de trabalhadores deixa de ser sazonal e se torna crônico

A falta de mão de obra, antes concentrada nos períodos de pico da safra, passou a ser considerada um problema estrutural. Regiões importantes, como o Vale do São Francisco, entre Pernambuco e Bahia, o Cinturão Verde de São Paulo e o Sul de Minas Gerais, enfrentam dificuldades recorrentes de contratação.

Entre as possíveis causas estão a saída de jovens do meio rural, o envelhecimento dos trabalhadores, o esforço físico exigido por determinadas funções e a concorrência com atividades urbanas, como construção civil e prestação de serviços.

Na avaliação dos produtores entrevistados, 67% associaram a dificuldade de contratação aos programas sociais. Esse resultado representa a percepção dos participantes da pesquisa e não estabelece, por si só, uma relação direta de causa e efeito.

Outros fatores mencionados foram:

  • envelhecimento da mão de obra rural, com 36%;
  • êxodo rural, com 25%;
  • falta de qualificação profissional, com 20%;
  • urbanização das áreas rurais, com 19%.

Diante desse cenário, a publicação avalia que o desafio até 2035 não será apenas encontrar novos trabalhadores, mas desenvolver outro modelo de produção para a horticultura brasileira.

Mecanização e manejo eficiente estão entre as principais estratégias

Os produtores apontaram diferentes alternativas para enfrentar a escassez de profissionais. A mecanização e a adoção de técnicas de manejo mais eficientes lideraram as respostas, ambas citadas por 21,9% dos participantes.

Também foram mencionadas:

  • terceirização das atividades, por 13,3%;
  • melhoria das condições de trabalho, por 13,3%;
  • bonificação dos trabalhadores, por 12,4%.

A tendência é que a solução envolva uma combinação de tecnologia, capacitação, reorganização das propriedades e valorização das equipes. Para Centurion, o avanço tecnológico será indispensável para manter a produtividade e garantir a oferta de alimentos com um contingente menor de trabalhadores.

Drones, fertirrigação e automação ganham espaço no campo

Entre as ferramentas que podem reduzir a dependência de operações manuais estão drones para pulverização, equipamentos para aplicação de insumos, sensores, sistemas automatizados e máquinas adaptadas às necessidades de cada cultivo.

A fertirrigação também aparece como alternativa estratégica ao permitir que irrigação e fornecimento de nutrientes sejam realizados simultaneamente, reduzindo operações separadas e melhorando a eficiência no uso dos recursos.

O planejamento das tarefas e dos cronogramas deverá receber maior atenção. Outra possibilidade é a cooperação entre produtores, com compartilhamento de máquinas, equipamentos e trabalhadores.

A organização conjunta dos calendários de colheita pode ajudar a evitar a concentração de demanda em determinados períodos, diminuindo a ociosidade e tornando mais eficiente o aproveitamento das equipes disponíveis.

Valorização será essencial para manter trabalhadores no campo

Mesmo com a ampliação da mecanização, determinadas tarefas continuarão dependentes do trabalho humano. Por isso, a retenção de profissionais passa pela oferta de melhores condições, capacitação e oportunidades de crescimento.

Entre as medidas sugeridas estão bonificações por produtividade, transporte adequado, alimentação, alojamentos de melhor qualidade e programas permanentes de treinamento.

A combinação entre profissionais qualificados e novas tecnologias pode permitir que as propriedades produzam mais, reduzam perdas e preservem a qualidade dos alimentos.

Experiências internacionais apontam caminhos para o Brasil

Países com forte presença na produção hortifrutícola já adotam diferentes estratégias para enfrentar a redução da mão de obra disponível.

Na Espanha, o setor investe em mecanização seletiva, inovação em estufas e sistemas modernos de irrigação. As tecnologias são adaptadas às características de cada cultura e às diferentes etapas produtivas.

A Holanda combina ambientes controlados, integração de dados, automação e gestão de alta eficiência para ampliar a produtividade. Nos Estados Unidos, a mecanização é acompanhada por programas regulamentados de contratação temporária de trabalhadores imigrantes.

O Chile, por sua vez, aposta na formalização das relações de trabalho, em programas de capacitação e na melhoria das condições oferecidas aos profissionais.

Para o hortifrúti brasileiro, o levantamento sinaliza que o futuro dependerá da capacidade dos produtores de integrar mecanização, gestão, cooperação e valorização das pessoas. Sem essa transformação, a falta de trabalhadores poderá comprometer a produtividade, a rentabilidade das propriedades e o abastecimento de frutas, legumes e verduras no país.

Fonte: Portal do Agronegócio

◄ Leia outras notícias