Dólar dispara e pressiona cotações do café em outubro; arábica cai 1,1% e robusta recua 6,7%
Oscilações cambiais ampliaram a volatilidade nas bolsas de Nova York e Londres. Estoques reduzidos, qualidade da safra brasileira, clima e ritmo das exportações mantiveram o mercado dividido entre fatores de alta e de baixa.
Publicado em: 30/10/2026 às 16:00hs
O mercado internacional de café atravessou outubro sob forte volatilidade, com oscilações nas bolsas de futuros de Nova York, referência para o arábica, e Londres, onde é negociado o robusta. Além dos fundamentos de oferta e demanda, as variações do dólar frente ao real tiveram influência decisiva sobre as cotações, especialmente no encerramento do mês.
A valorização da moeda americana no Brasil aumentou a pressão sobre os contratos internacionais, ao mesmo tempo que ofereceu sustentação aos preços do café negociado em reais no mercado interno.
No balanço de outubro, o contrato de dezembro do café arábica na Bolsa de Nova York acumulou queda de 1,1%. A cotação passou de 290,70 centavos de dólar por libra-peso no encerramento de setembro para 287,60 centavos até as 11h de sexta-feira, 30 de outubro.
Em Londres, o contrato janeiro de 2027 do robusta registrou recuo mais expressivo, de 6,7% no mesmo período.
Dólar e cenário político ampliam volatilidade do café
O comportamento do câmbio foi um dos principais fatores de influência sobre o mercado ao longo do mês. No início de outubro, a queda do dólar após o primeiro turno das eleições presidenciais brasileiras contribuiu para dar suporte às cotações internacionais do café.
Naquele momento, as movimentações do mercado financeiro refletiam as expectativas dos investidores em relação ao cenário político e à condução futura da economia brasileira.
No encerramento do mês, porém, a valorização da moeda americana diante do real voltou a pressionar os contratos futuros. Um dólar mais forte em relação à moeda brasileira tende a aumentar a competitividade das exportações do café brasileiro, ampliando a oferta potencial do produto no mercado internacional.
A moeda americana passou de R$ 5,173 no fechamento de setembro para R$ 5,4257 em 30 de outubro, às 11h, acumulando valorização de 4,9% no período.
Estoques reduzidos em Nova York sustentam preocupação com a oferta
Entre os fatores de sustentação das cotações está o nível historicamente baixo dos estoques certificados de café na Bolsa de Nova York.
A disponibilidade reduzida mantém o mercado atento à oferta de curto prazo, especialmente do café arábica, cuja qualidade e disponibilidade são importantes para o abastecimento de compradores internacionais.
Apesar disso, os estoques começam a apresentar sinais de possível recuperação. Segundo informações citadas pela Reuters, aproximadamente 42 mil sacas de café chegaram aos armazéns certificados da bolsa e aguardavam classificação.
Caso esses volumes sejam aprovados e incorporados aos estoques certificados, poderão contribuir para reduzir parte da preocupação com a disponibilidade imediata do produto.
Qualidade da safra brasileira de 2026 entra no radar internacional
Outro fator de atenção é a qualidade dos grãos da safra brasileira de 2026, cuja colheita foi encerrada.
Embora as expectativas apontem para uma produção recorde, o excesso de umidade durante as etapas de colheita e secagem prejudicou a qualidade de parte dos cafés produzidos.
O aspecto é relevante para o mercado internacional porque o Brasil ocupa posição central na produção e exportação mundial de café. Problemas de qualidade podem restringir a oferta de determinados padrões de arábica, mesmo em um cenário de volume elevado de produção.
Assim, o tamanho da safra não representa, necessariamente, disponibilidade equivalente de café com as características exigidas pelos compradores.
El Niño aumenta incertezas para a safra de café de 2027
As perspectivas climáticas também contribuíram para a volatilidade. As preocupações com os possíveis impactos do El Niño sobre a produção brasileira e de outros países produtores ganharam espaço nas avaliações do mercado.
A expectativa de fortalecimento do fenômeno em novembro e dezembro aumenta a atenção para possíveis irregularidades nas chuvas e temperaturas elevadas em regiões cafeeiras do Brasil.
Essas condições podem afetar o desenvolvimento das lavouras e o potencial produtivo da safra de 2027, dependendo da intensidade e da distribuição dos fenômenos climáticos.
Por outro lado, até o momento, as condições observadas são consideradas favoráveis ao desenvolvimento da próxima safra brasileira. As chuvas registradas têm contribuído para a abertura e o pegamento das floradas, etapas importantes para a formação da produção futura.
No Vietnã, as condições também são apontadas como positivas para o desenvolvimento do robusta, o que oferece maior tranquilidade em relação ao abastecimento global nos próximos meses.
Exportações brasileiras serão decisivas para o mercado de arábica
O ritmo dos embarques mundiais é outro indicador acompanhado de perto pelos agentes do setor. A expectativa é de que as exportações ganhem força nos próximos meses, com o Brasil no centro das atenções.
Segundo Gil Barabach, analista da Safras & Mercado, as exportações brasileiras cresceram nos três primeiros meses da temporada 2026/27 em comparação com o mesmo intervalo do ciclo anterior. Entretanto, o desempenho ficou abaixo das expectativas, principalmente no café arábica.
Em contrapartida, os embarques de canéfora, que incluem conilon e robusta, apresentaram resultado melhor do que o esperado.
Para a Bolsa de Nova York, a disponibilidade de arábica continua sendo o principal ponto de atenção.
Barabach avalia que, para atingir a projeção de 50 milhões de sacas exportadas na temporada, o Brasil precisará acelerar o ritmo dos embarques e manter uma média mensal superior a 4 milhões de sacas no restante do ciclo.
O analista considera desejável que os volumes fiquem entre 4,5 milhões e 5 milhões de sacas por mês nos próximos três meses. Esse desempenho criaria uma margem para a desaceleração sazonal normalmente observada no primeiro semestre de 2027.
O comportamento das exportações será, portanto, um dos principais indicadores para acompanhar o mercado no curto prazo.
Um fluxo mais intenso de café brasileiro poderá aliviar as preocupações dos importadores, que ainda convivem com estoques reduzidos e incertezas sobre a regularidade do abastecimento de arábica.
Preços do café no Brasil recebem suporte do câmbio
No mercado físico brasileiro, as cotações acompanharam o comportamento das bolsas internacionais, mas a valorização do dólar ajudou a sustentar os preços em reais.
No Sul de Minas Gerais, o café arábica bebida boa permaneceu estável no balanço de outubro até o dia 29, cotado a R$ 1.650,00 por saca na base de compra.
Já o conilon tipo 7, com referência de compra em Vitória, no Espírito Santo, passou de R$ 980,00 para R$ 960,00 por saca, acumulando queda de 2% no mês.
O comportamento distinto dos preços internos em relação às bolsas internacionais evidencia a influência do câmbio na formação das cotações brasileiras. Mesmo com a pressão externa, a valorização do dólar pode amortecer parte das perdas quando os preços são convertidos para a moeda nacional.
Mercado de café segue dividido entre oferta, clima e câmbio
O balanço de outubro mostra um mercado influenciado por fatores que apontam em direções diferentes.
De um lado, estoques certificados reduzidos, preocupações com a qualidade de parte da safra brasileira de 2026 e incertezas climáticas para 2027 mantêm o suporte às cotações.
De outro, as condições favoráveis ao desenvolvimento das próximas safras no Brasil e no Vietnã, a possibilidade de recuperação dos estoques e a expectativa de aceleração das exportações aumentam a pressão sobre os preços.
Nesse cenário, o comportamento do dólar, a evolução das condições climáticas e o ritmo dos embarques brasileiros continuarão entre os principais indicadores para acompanhar as bolsas de café.
Para produtores, cooperativas, exportadores e compradores, a combinação desses fatores reforça a necessidade de atenção às oscilações do mercado e ao planejamento comercial nos próximos meses.
Fonte: Portal do Agronegócio
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