Café recua até 8% com avanço da safra, mas clima mantém mercado em alerta para 2027/28
Maior oferta brasileira pressiona as cotações do arábica e do conilon, enquanto chuvas, floradas e qualidade dos grãos passam a direcionar as expectativas para o próximo ciclo
Publicado em: 16/09/2026 às 20:00hs
A entrada da nova safra brasileira aumentou a disponibilidade de café no mercado e provocou uma correção nas cotações internacionais e domésticas. Apesar do movimento de baixa, os preços permanecem em patamares historicamente elevados, mantendo oportunidades de comercialização para os produtores.
A avaliação consta no Agro Mensal, relatório elaborado pela Consultoria Agro do Itaú BBA. Segundo a análise, o mercado começa a direcionar suas atenções para a safra 2027/28, especialmente para a regularidade das chuvas, o pegamento das floradas e as temperaturas durante a primavera.
Entrada da safra brasileira pressiona preços do café
Depois de meses de forte valorização, o mercado de café passou por um ajuste com o avanço da colheita no Brasil. A ampliação da oferta física, combinada ao crescimento das exportações, reduziu parte das preocupações relacionadas à disponibilidade global no curto prazo.
Em Nova York, o contrato de café arábica com vencimento em dezembro de 2026 encerrou o dia 10 de setembro cotado a 288,15 centavos de dólar por libra-peso. O valor representa queda de 8% em 30 dias.
Na Bolsa de Londres, o conilon — negociado internacionalmente como robusta — registrou retração de 7% no mesmo intervalo, para US$ 3.524 por tonelada.
A pressão também foi observada no mercado físico brasileiro. Com a colheita praticamente concluída e maior volume de produto disponível, os compradores passaram a encontrar mais facilidade para originar café, reduzindo os prêmios pagos anteriormente.
Exportações reforçam oferta e aliviam preocupações
As exportações brasileiras ganharam ritmo e contribuíram para ampliar a disponibilidade no mercado internacional. Em agosto, os embarques alcançaram valor recorde para o período, conforme dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).
Esse desempenho ajudou a recompor a oferta e diminuiu a percepção de risco de desabastecimento que havia sustentado as cotações nos meses anteriores.
O Agro Mensal também destaca que os diferenciais permanecem abaixo da média histórica. O cenário está relacionado à maior presença de café no mercado físico e à consequente redução dos prêmios de originação.
Outro fator de pressão veio dos fundos de investimento, que diminuíram parte das posições compradas nas bolsas internacionais. O movimento financeiro intensificou a correção dos preços.
Chuvas favorecem floradas da safra 2027/28
Com a safra atual entrando em sua fase final, o mercado começa a monitorar as condições para o ciclo 2027/28. As chuvas registradas em setembro favoreceram as primeiras floradas e melhoraram os níveis de umidade no solo das principais regiões produtoras.
Nas lavouras de conilon, as precipitações contribuíram para o pegamento das flores e para a formação dos primeiros frutos, conhecidos como “chumbinhos”. No arábica, a umidade estimulou a abertura das floradas iniciais.
O desenvolvimento da próxima safra, entretanto, dependerá da continuidade das chuvas. A regularidade das precipitações será fundamental para evitar o abortamento floral e assegurar a formação dos frutos.
Além da umidade, as temperaturas durante a primavera também serão decisivas para definir o potencial produtivo das lavouras brasileiras.
Bienalidade negativa amplia atenção sobre o arábica
A safra 2027/28 deverá coincidir com um ciclo de bienalidade negativa para o café arábica. O fenômeno natural ocorre porque as plantas alternam períodos de maior e menor produção, especialmente após uma temporada de elevada carga produtiva.
Nesse contexto, a consolidação das floradas ganha ainda mais importância. Falhas na distribuição das chuvas ou episódios de calor excessivo podem comprometer o pegamento e reduzir o potencial da próxima colheita.
Por isso, o clima deverá continuar provocando volatilidade nas bolsas. Qualquer mudança nas previsões meteorológicas para as regiões cafeeiras tende a influenciar rapidamente as expectativas de oferta e o comportamento dos preços.
Qualidade dos grãos aumenta diferenciação no mercado físico
A qualidade da safra recém-colhida também está no radar dos compradores. Chuvas ocorridas durante o período de colheita geraram preocupação com a qualidade dos grãos, principalmente nas regiões produtoras de café arábica.
Os lotes de melhor padrão permanecem mais disputados e são comercializados de maneira mais seletiva. Já os cafés de qualidade inferior enfrentam maior pressão de venda.
Esse ambiente aumenta a diferença de preços entre os diversos tipos de produto. Características como bebida, peneira, percentual de defeitos e regularidade dos lotes passam a exercer influência ainda maior sobre as negociações.
Produção mundial de café pode alcançar 190 milhões de sacas
As estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) apontam para uma produção mundial de 190 milhões de sacas na temporada 2026/27, aumento de 6,1% em relação ao ciclo anterior.
O Brasil deverá liderar a expansão, com produção projetada em 71,9 milhões de sacas, crescimento anual de 14,1%. Para o Vietnã, a estimativa é de 32,5 milhões de sacas, avanço de 2,5%.
A Colômbia poderá colher 13,4 milhões de sacas, alta de 7,2%, enquanto a produção da Etiópia está estimada em 12,1 milhões, crescimento de 4,7%. A Indonésia aparece na direção oposta, com previsão de queda de 8%, para 11,4 milhões de sacas.
O consumo global deve atingir 180 milhões de sacas, aumento de 3,6%. Com isso, a produção poderá superar a demanda em aproximadamente 9,9 milhões de sacas. Os estoques finais são projetados em 26 milhões de sacas, com relação estoque-consumo de 15%.
Preços ainda oferecem oportunidades ao produtor
Embora a entrada da safra tenha provocado uma correção nas cotações, os preços do café continuam elevados em comparação com os padrões históricos. O cenário mantém abertas oportunidades de venda, especialmente para produtores com cafés de melhor qualidade.
A tendência, porém, é de continuidade da volatilidade. O mercado deverá acompanhar de perto a distribuição das chuvas, o desenvolvimento das floradas, as temperaturas da primavera e a evolução da oferta brasileira.
Nesse ambiente, estratégias de comercialização escalonada e acompanhamento constante das condições climáticas podem ajudar o cafeicultor a reduzir riscos e aproveitar momentos favoráveis de preço.
Fonte: Portal do Agronegócio
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