Café do Jacu transforma ave da Mata Atlântica em aliada de produtoras de Araponga
Produzido com grãos selecionados naturalmente pelo pássaro, café especial das Matas de Minas pode alcançar R$ 1.500 o quilo e ainda gera renda para mulheres da região
Publicado em: 20/08/2026 às 12:30hs
Quando os frutos maduros dão cor aos cafezais de Araponga, na região das Matas de Minas, a presença do jacu deixa de ser encarada apenas como uma ameaça à produção. A ave nativa da Mata Atlântica tornou-se uma importante aliada na elaboração de um dos cafés mais raros, exclusivos e valorizados do mercado.
Produzido a partir dos grãos encontrados nas fezes do pássaro, o Café do Jacu pode alcançar R$ 1.500 o quilo. A combinação entre seleção natural dos frutos, baixa escala e cuidados rigorosos durante o processamento ajuda a explicar o elevado valor da iguaria.
Cafeicultora transforma desafio em oportunidade
A cafeicultora Kátia Martins começou a investir na produção do Café do Jacu há três anos. Desde então, mudou sua percepção sobre a presença da ave na propriedade rural.
“Alguns veem o jacu como inimigo, eu o vejo como sócio”, afirma a produtora.
Atualmente, a produção anual chega a aproximadamente 30 quilos. Embora o volume seja pequeno, o alto valor agregado permite explorar um nicho interessado em cafés especiais, experiências sensoriais e produtos ligados à origem e à biodiversidade.
Produção gera renda para mulheres das Matas de Minas
A atividade também ganhou uma dimensão coletiva. Dez mulheres da região passaram a recolher os grãos e comercializá-los com Kátia, fortalecendo a cadeia local e criando uma fonte complementar de renda.
“Formamos uma espécie de associação. Todas ganhamos. É uma maneira de garantir que elas tenham seu próprio dinheiro, em uma troca justa”, explica a cafeicultora.
A iniciativa mostra como a produção de cafés exclusivos pode associar valorização ambiental, inclusão econômica e protagonismo feminino no campo.
Exclusividade e manejo cuidadoso elevam o preço
Segundo Daniel Prado, supervisor do programa de Assistência Técnica e Gerencial ATeG Café+Forte, do Sistema Faemg Senar, o preço elevado está relacionado à raridade do produto e à complexidade do processo.
A coleta deve ser realizada rapidamente após a eliminação dos grãos pela ave. Em seguida, são necessários cuidados rigorosos para impedir a proliferação de fungos e preservar a qualidade do café.
Como os lotes são limitados e dependem do comportamento natural dos jacus, a produção não pode ser ampliada da mesma forma que em um sistema convencional. Essa limitação reforça a exclusividade comercial do produto.
Como o Café do Jacu é produzido
O processo começa com a seleção natural feita pela própria ave. O jacu se alimenta preferencialmente dos frutos mais maduros disponíveis no cafezal.
Durante a digestão, a polpa é aproveitada pelo pássaro, enquanto os grãos permanecem intactos. Após serem eliminados, eles são recolhidos manualmente e submetidos a diferentes etapas:
- higienização criteriosa;
- secagem controlada;
- beneficiamento;
- seleção dos melhores grãos;
- torra adequada ao perfil sensorial.
A execução correta dessas fases é fundamental para garantir a segurança, a estabilidade e a qualidade final da bebida.
Café apresenta notas doces, florais e frutadas
De acordo com Kátia Martins, o Café do Jacu resulta em uma bebida sofisticada, com baixo amargor, acidez equilibrada e notas sensoriais adocicadas, florais e frutadas.
O produto representa uma oportunidade de diferenciação para a cafeicultura das Matas de Minas, região reconhecida pela produção artesanal em áreas montanhosas e pela diversidade de sabores encontrados nos cafés.
Além de agregar valor aos grãos, a iniciativa de Araponga demonstra que a convivência com a fauna nativa pode criar novas oportunidades econômicas, fortalecer comunidades rurais e ampliar o reconhecimento dos cafés especiais brasileiros.
Fonte: Portal do Agronegócio
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