Café dispara com chuvas na colheita, mas safra recorde no Brasil pode aliviar oferta global
Atraso dos trabalhos no campo, menor disponibilidade e risco de perda de qualidade sustentam os preços; Itaú BBA aponta produção brasileira de 71,9 milhões de sacas em 2026/27
Publicado em: 19/08/2026 às 19:20hs
O mercado do café voltou a registrar forte valorização entre julho e agosto, impulsionado pelas chuvas nas principais regiões produtoras do Brasil, pelo atraso da colheita e pelas preocupações com a qualidade dos grãos. Apesar da pressão de curto prazo, a perspectiva de uma safra brasileira recorde em 2026/27 poderá ampliar a oferta mundial e favorecer a recomposição dos estoques.
A análise faz parte do Agro Mensal de agosto, relatório divulgado pela Consultoria Agro do Itaú BBA. O levantamento destaca que o mercado atravessa um período de elevada volatilidade, dividido entre a menor disponibilidade imediata de café e as projeções de crescimento da produção global.
Chuvas atrasam colheita e reduzem oferta de café
Após a correção das cotações observada durante o primeiro semestre, os preços do café voltaram a subir no decorrer da colheita brasileira.
As chuvas registradas nas principais regiões produtoras atrasaram os trabalhos no campo, provocaram a queda de frutos e dificultaram o recolhimento, a secagem e o beneficiamento dos grãos.
Essas condições reduziram a disponibilidade imediata de café para comercialização e ampliaram as preocupações com a qualidade da safra. O impacto tornou-se mais relevante porque os estoques mundiais ainda permanecem em níveis ajustados após sucessivos ciclos de oferta restrita.
Com isso, o mercado voltou a incorporar prêmios de risco às cotações, especialmente nos contratos de curto prazo negociados nas bolsas internacionais.
Café arábica sobe 16% em apenas um dia
A menor oferta imediata provocou movimentos expressivos de valorização no mercado internacional. Em 6 de julho, o contrato de café arábica com vencimento em setembro de 2026 avançou aproximadamente 16% em Nova York, atingindo 363 centavos de dólar por libra-peso.
Na Bolsa de Londres, o robusta também apresentou forte reação, com alta de 9% e cotação de US$ 4.064 por tonelada.
Parte dos ganhos foi devolvida posteriormente, em meio à realização de lucros e aos ajustes técnicos dos fundos de investimento. Mesmo assim, os contratos permaneceram em níveis elevados, sustentados pelos atrasos na colheita brasileira e pela menor disponibilidade no mercado físico.
Em 12 de agosto, o primeiro vencimento do arábica encerrou a sessão em Nova York cotado a 340 centavos de dólar por libra-peso. No mesmo dia, o robusta fechou em Londres a US$ 3.769 por tonelada.
Qualidade dos grãos entra no radar do mercado
Além do atraso da colheita, as chuvas aumentaram os riscos relacionados à qualidade do café brasileiro.
A permanência dos frutos maduros nas plantas ou no solo por períodos mais longos pode prejudicar as características físicas e sensoriais dos grãos. As dificuldades de secagem também elevam o risco de fermentação indesejada e aumentam a necessidade de manejo cuidadoso no pós-colheita.
Esse cenário tende a ampliar a disputa por lotes de melhor qualidade, especialmente de café arábica, e pode sustentar diferenciais mais elevados no mercado físico.
Produção mundial de café pode alcançar 190 milhões de sacas
Apesar das dificuldades de curto prazo, as primeiras estimativas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) apontam recuperação da oferta mundial na safra 2026/27.
A produção global está projetada em 190 milhões de sacas, crescimento de 6,1% em relação às 179 milhões de sacas estimadas para o ciclo anterior.
O consumo mundial deverá alcançar 180 milhões de sacas, avanço de 3,6%. A diferença entre produção e consumo resultaria em um superávit de aproximadamente 9,9 milhões de sacas, abrindo espaço para a recomposição gradual dos estoques globais.
Os estoques finais poderão crescer de 24 milhões para 26 milhões de sacas, alta de 7,8%. Já a relação entre estoques e consumo deve passar de 14% para 15%.
Brasil pode colher recorde de 71,9 milhões de sacas
Para o Brasil, o USDA projeta produção recorde de 71,9 milhões de sacas de café na temporada 2026/27. O volume representa crescimento de 14,1% sobre as 63 milhões de sacas estimadas para o ciclo anterior.
A recuperação deverá ser liderada pelo café arábica, cuja produção está projetada em 47,5 milhões de sacas. O resultado corresponde a uma alta anual de 25%.
Segundo a análise, o avanço reflete as condições favoráveis durante o desenvolvimento das lavouras e a bienalidade positiva da cultura, período em que as plantas apresentam maior potencial produtivo.
Para o café robusta, que inclui o conilon produzido no Brasil, a estimativa é de 24,4 milhões de sacas. O volume fica ligeiramente abaixo do registrado na temporada anterior, mas permanece em patamar historicamente elevado.
Exportações brasileiras podem crescer quase 30%
A maior disponibilidade interna deverá ampliar o excedente exportável do Brasil e favorecer a normalização da oferta no mercado internacional.
O USDA estima que as exportações brasileiras de café verde poderão atingir 49,4 milhões de sacas na safra 2026/27. Caso a projeção seja confirmada, o crescimento será de quase 30% em relação à temporada anterior.
O aumento dos embarques poderá reforçar a presença brasileira nos principais mercados consumidores e compensar parcialmente o aperto observado nos estoques globais nos últimos anos.
A evolução das exportações, contudo, dependerá do ritmo da colheita, da qualidade dos grãos, da disponibilidade logística e do comportamento dos produtores na comercialização.
Vietnã e Colômbia também ampliam produção
Além do Brasil, outros importantes países produtores deverão contribuir para o crescimento da oferta global.
A safra do Vietnã está projetada em 32,5 milhões de sacas, alta de 2,5% sobre a temporada anterior. Para a Colômbia, a previsão é de 13,4 milhões de sacas, crescimento de 7,2%.
A Etiópia poderá produzir 12,1 milhões de sacas, avanço de 4,7%. Na Indonésia, por outro lado, a produção está estimada em 11,4 milhões de sacas, retração de 8%.
Balanço global do café para 2026/27
- Produção mundial: 190 milhões de sacas;
- Consumo global: 180 milhões de sacas;
- Superávit entre produção e consumo: 9,9 milhões de sacas;
- Estoque inicial: 24 milhões de sacas;
- Estoque final: 26 milhões de sacas;
- Relação estoque/consumo: 15%;
- Produção do Brasil: 71,9 milhões de sacas;
- Produção do Vietnã: 32,5 milhões de sacas;
- Produção da Colômbia: 13,4 milhões de sacas;
- Produção da Indonésia: 11,4 milhões de sacas.
Floradas antecipadas elevam preocupação com safra 2027/28
Embora a oferta projetada para 2026/27 seja mais confortável, as condições climáticas para o próximo ciclo já despertam atenção.
O Itaú BBA destaca a ocorrência de floradas antecipadas em algumas regiões devido à ausência de um período seco bem definido. Esse comportamento pode provocar desenvolvimento irregular das lavouras e maturação desuniforme dos frutos em 2027.
Floradas distribuídas em diferentes momentos dificultam o manejo e podem elevar os custos de colheita, além de criar maior variação na qualidade dos grãos.
Possível El Niño mantém prêmio de risco nos preços
Outro fator relevante é a possibilidade de formação de um El Niño de forte intensidade durante o segundo semestre.
Os efeitos do fenômeno sobre o regime de chuvas e as temperaturas serão acompanhados de perto pelo mercado, principalmente durante as floradas e o pegamento dos frutos da safra brasileira 2027/28.
Eventuais problemas climáticos poderão alterar as projeções de produção e voltar a exercer pressão sobre os preços internacionais. Por isso, mesmo diante da perspectiva de safra recorde e recuperação dos estoques, o mercado dificilmente deverá abandonar completamente os prêmios de risco climático.
Mercado do café seguirá volátil
O cenário apresentado pelo Itaú BBA indica que o mercado continuará dividido entre dois movimentos. No curto prazo, atrasos na colheita, menor disponibilidade e dúvidas sobre a qualidade oferecem sustentação às cotações. Em um horizonte mais amplo, o aumento da produção brasileira e mundial tende a limitar valorizações mais intensas.
Para os cafeicultores, o ambiente exige atenção à qualidade, ao ritmo da colheita, ao câmbio e às oportunidades de comercialização. A combinação de vendas escalonadas e proteção de preços pode ser estratégica diante da volatilidade das bolsas e das incertezas climáticas para a próxima safra.
Fonte: Portal do Agronegócio
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