Exportações de etanol do Brasil devem crescer 20% e atingir 1,53 bilhão de litros em 2026/27
Produção recorde de 40,68 bilhões de litros, impulsionada pelo etanol de milho, aumenta a necessidade de novos mercados; concorrência dos Estados Unidos e alta dos preços internos limitam embarques
Publicado em: 19/08/2026 às 19:40hs
As exportações brasileiras de etanol poderão alcançar 1,535 bilhão de litros na safra 2026/27, crescimento próximo de 20% em relação aos 1,28 bilhão de litros embarcados no ciclo anterior. A projeção, elaborada pela Argus, está apoiada principalmente no aumento da produção nacional e na expansão acelerada do etanol de milho.
Apesar da perspectiva positiva para o acumulado da temporada, os embarques começaram em ritmo moderado. O Brasil precisará ampliar significativamente as vendas externas entre agosto de 2026 e março de 2027 para atingir o volume projetado.
Produção de etanol pode atingir recorde de 40,68 bilhões de litros
A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que o Brasil produzirá 40,68 bilhões de litros de etanol na safra 2026/27. Caso o número seja confirmado, será o maior volume da série histórica de 21 anos.
O crescimento está fundamentado principalmente na expansão do etanol de milho, que ganhou participação relevante na matriz brasileira durante a última década.
Para Maria Ligia Barros, responsável pela precificação de etanol da Argus, o aumento da oferta produzida a partir do cereal está modificando a dinâmica do mercado nacional e ampliando a necessidade de buscar novos consumidores.
A produção também deverá ser favorecida pela recuperação dos canaviais após a seca de 2024 e pelo menor direcionamento da cana-de-açúcar para a fabricação de açúcar.
Etanol de milho impulsiona expansão da oferta brasileira
O avanço das usinas dedicadas ao processamento de milho permite aumentar a produção de etanol durante todo o ano, reduzindo a dependência da sazonalidade da cana-de-açúcar.
A disponibilidade crescente do cereal e a instalação de novas unidades industriais transformaram o etanol de milho em um dos principais vetores de crescimento do setor de biocombustíveis.
Esse movimento cria uma necessidade estrutural de expansão da demanda. Além do mercado doméstico, as empresas precisam ampliar exportações e desenvolver novas aplicações para absorver a produção adicional.
Brasil precisa exportar 1,18 bilhão de litros até março
Entre abril e junho, o Brasil exportou 168,7 milhões de litros de etanol. Em julho, os embarques somaram mais 178,5 milhões.
Com isso, as exportações acumuladas nos quatro primeiros meses da safra atingiram aproximadamente 347,2 milhões de litros.
Para cumprir a projeção de 1,535 bilhão de litros, o país ainda precisará embarcar cerca de 1,188 bilhão entre agosto de 2026 e março de 2027.
Projeções para as exportações de etanol
- Exportações na safra anterior: 1,28 bilhão de litros;
- Projeção para 2026/27: 1,535 bilhão de litros;
- Crescimento esperado: aproximadamente 20%;
- Volume exportado entre abril e julho: 347,2 milhões de litros;
- Volume necessário entre agosto e março: cerca de 1,188 bilhão de litros.
Janela de competitividade favoreceu embarques brasileiros
Uma janela de oportunidade foi aberta em meados de julho, quando o etanol brasileiro se tornou mais competitivo do que o produto dos Estados Unidos em mercados disputados pelos dois países.
Essa condição favoreceu novas negociações e concentrou parte dos embarques contratados entre julho e setembro.
Segundo a Argus, essa janela já foi encerrada. A curta duração da vantagem brasileira aumenta o desafio de alcançar a projeção para o restante da temporada.
Grande parte do comércio internacional realiza operações de arbitragem, comparando os preços, os fretes e a disponibilidade do produto em diferentes origens antes de definir as compras.
Índia, Nigéria e Ásia aparecem entre os destinos
Entre os mercados envolvidos nas negociações recentes aparecem Índia, Nigéria, Filipinas, Coreia do Sul e países europeus.
Alguns destinos apresentam fluxos mais estáveis de compra do etanol brasileiro e dependem menos das mudanças pontuais na competitividade. Coreia do Sul e Japão estão entre os mercados considerados tradicionais para o produto nacional.
Nos demais destinos, o Brasil disputa espaço diretamente com os Estados Unidos. Nesses casos, pequenas alterações nos preços, no câmbio ou nos custos logísticos podem mudar rapidamente a origem mais competitiva.
Etanol dos Estados Unidos pode recuperar competitividade
A concorrência norte-americana deverá aumentar nos próximos meses.
Historicamente, o etanol dos Estados Unidos torna-se mais competitivo entre outubro e março, período de menor consumo de combustíveis no Hemisfério Norte.
A redução sazonal da demanda doméstica amplia a disponibilidade norte-americana para exportação e pode pressionar os preços internacionais.
Por isso, agentes do mercado consideram baixa a probabilidade de surgir uma nova janela tão favorável ao produto brasileiro antes do encerramento da safra 2026/27.
Alta do etanol no Brasil reduz competitividade externa
A recuperação dos preços domésticos também diminui a atratividade das exportações.
O etanol hidratado negociado em São Paulo recuou para R$ 2.513 por mil litros em 28 de julho, equivalente a R$ 2,513 por litro. Esse foi o menor patamar desde março de 2024.
Posteriormente, o produto recuperou aproximadamente R$ 230 por mil litros e chegou a R$ 2.743 em 13 de agosto, ou R$ 2,743 por litro.
A valorização melhora a remuneração das vendas internas, mas reduz a competitividade do etanol brasileiro no exterior. Para as usinas, a decisão entre exportar ou comercializar no país depende da comparação entre os preços líquidos disponíveis em cada mercado.
Câmbio e fretes influenciam decisões das usinas
A competitividade externa não depende exclusivamente das cotações do etanol brasileiro e norte-americano.
O dólar, os custos dos fretes marítimos, a disponibilidade de navios, as tarifas e as condições de entrega também interferem na formação dos preços.
Uma valorização da moeda norte-americana pode favorecer as receitas das exportações em reais. Em sentido contrário, preços domésticos elevados ou custos logísticos maiores podem eliminar essa vantagem.
As usinas avaliam continuamente a paridade entre mercado interno e externo para definir o destino mais rentável para a produção.
Produção crescente exige novos mercados
O avanço das exportações não deve ser interpretado apenas como uma alternativa para escoar eventuais excedentes.
A expansão da capacidade instalada cria uma necessidade permanente de ampliar o consumo. As novas usinas e os investimentos já incorporados ao planejamento do setor exigem canais adicionais para absorver o crescimento da oferta.
O mercado rodoviário continuará sendo o principal destino, mas novas aplicações poderão ganhar importância no médio e longo prazos.
Etanol pode avançar na aviação e no transporte marítimo
Entre as alternativas para ampliar a demanda estão o uso do etanol na produção de combustível sustentável de aviação, conhecido como SAF, e aplicações no transporte marítimo.
Na aviação, o etanol pode ser utilizado como matéria-prima em rotas tecnológicas destinadas à fabricação de combustíveis com menor emissão de gases de efeito estufa.
No setor marítimo, as metas internacionais de descarbonização estimulam a busca por combustíveis renováveis e derivados de baixo carbono.
O desenvolvimento desses mercados pode criar uma demanda estrutural e reduzir a dependência das janelas comerciais tradicionais.
Baixa intensidade de carbono favorece etanol brasileiro
Além do preço, a intensidade de carbono pode representar uma vantagem competitiva para o Brasil.
O etanol produzido a partir da cana-de-açúcar apresenta menor intensidade de carbono do que o etanol de milho fabricado nos Estados Unidos. Dependendo do processo industrial, o etanol de milho brasileiro também pode alcançar desempenho ambiental superior ao produto norte-americano.
Essa característica é especialmente relevante na Europa, onde as políticas de descarbonização podem diferenciar os combustíveis conforme a matéria-prima, o processo produtivo e o volume de emissões evitadas.
A vantagem ambiental, entretanto, não garante automaticamente o acesso aos mercados. As regras variam entre os países e incluem critérios específicos para classificar o etanol de primeira e de segunda geração.
Perspectiva é positiva, mas meta exige aceleração
A projeção de crescimento de 20% nas exportações é sustentada pela produção recorde e pela necessidade de diversificar os destinos do etanol brasileiro.
O cumprimento da estimativa, contudo, dependerá de uma forte aceleração dos embarques até março de 2027. A concorrência dos Estados Unidos, a recuperação dos preços no Brasil e a ausência de uma nova janela favorável representam os principais desafios.
No longo prazo, a menor intensidade de carbono e o desenvolvimento de aplicações na aviação e no transporte marítimo poderão ampliar o espaço do Brasil no comércio global de combustíveis renováveis.
Fonte: Portal do Agronegócio
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