Bioinsumos ganham força no agronegócio com alta dos fertilizantes importados e dependência externa de 85%
Escalada dos custos globais, conflitos geopolíticos e vulnerabilidade da cadeia de suprimentos impulsionam o uso de bioinsumos produzidos no Brasil como estratégia para aumentar a eficiência da fertilização e reduzir riscos no campo.
Publicado em: 23/07/2026 às 10:10hs
A elevada dependência brasileira de fertilizantes importados continua sendo um dos principais desafios para a competitividade do agronegócio nacional. Atualmente, cerca de 85% dos fertilizantes utilizados na agricultura brasileira são importados, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), cenário que expõe produtores rurais às oscilações do câmbio, aos custos logísticos internacionais e às tensões geopolíticas que afetam o abastecimento mundial.
Diante desse contexto, os bioinsumos produzidos no Brasil vêm ganhando espaço como alternativa estratégica para aumentar a eficiência do uso de nutrientes, reduzir a vulnerabilidade da produção agrícola e fortalecer a sustentabilidade do setor.
Importações caem, mas custos aumentam
Os dados mais recentes do Comex Stat mostram que o Brasil importou 18,30 milhões de toneladas de fertilizantes no primeiro semestre de 2026, volume 5,9% inferior ao registrado no mesmo período de 2025, quando as compras externas somaram 19,44 milhões de toneladas.
Apesar da redução no volume adquirido, o custo aumentou significativamente.
O preço médio das matérias-primas importadas alcançou US$ 383,80 por tonelada, avanço de 16,8% em relação ao primeiro semestre do ano anterior, atingindo o maior nível para o período desde 2023.
Na prática, o país passou a importar menos fertilizantes, pagando mais por cada tonelada adquirida.
Conflitos internacionais pressionam mercado de fertilizantes
A valorização dos fertilizantes é consequência de uma série de fatores que vêm alterando o equilíbrio do mercado global.
Entre os principais estão:
- tensões geopolíticas no Estreito de Ormuz, rota estratégica para o comércio internacional;
- restrições na oferta mundial de ureia;
- redução da participação da China nas exportações de fosfatados;
- impactos prolongados da guerra entre Rússia e Ucrânia sobre o mercado de insumos agrícolas.
Esses eventos elevaram significativamente os custos da cadeia de fertilizantes e aumentaram a preocupação dos produtores brasileiros com a segurança do abastecimento.
Em alguns momentos de 2026, o preço da ureia nos portos brasileiros chegou a registrar aumentos de até 50% em apenas 30 dias, refletindo diretamente as incertezas internacionais.
Nitrogenados registram forte valorização
A pressão é ainda mais intensa no segmento dos fertilizantes nitrogenados.
Levantamento do Banco Mundial aponta que, no segundo trimestre de 2026, a ureia atingiu preço médio de US$ 693,50 por tonelada, muito acima da média de US$ 199,30 registrada em 2016, mesmo considerando os ajustes inflacionários.
O comportamento evidencia como fatores geopolíticos, energéticos e logísticos passaram a influenciar diretamente os custos de produção da agricultura mundial.
Bioinsumos avançam como alternativa estratégica
Nesse ambiente de maior incerteza, os bioinsumos consolidam sua posição como importante ferramenta para aumentar a eficiência agrícola.
Segundo dados da CropData e da CropLife Brasil, o mercado brasileiro de bioinsumos movimentou R$ 6,2 bilhões no último ano, mantendo ritmo acelerado de expansão.
Um dos principais diferenciais do setor é sua forte base produtiva nacional.
Atualmente, cerca de 85% dos bioinsumos utilizados nas lavouras brasileiras são fabricados por empresas instaladas no próprio país, reduzindo a dependência das cadeias globais de suprimentos e diminuindo a exposição às oscilações cambiais.
Além da maior segurança no abastecimento, os produtos biológicos contribuem para melhorar o aproveitamento dos nutrientes disponíveis no solo e ampliar a eficiência dos sistemas produtivos.
Bioinsumos complementam, mas não substituem fertilizantes
Especialistas destacam, entretanto, que os bioinsumos não devem ser vistos como substitutos integrais da adubação mineral.
Segundo Fellipe Parreira, especialista em bioinsumos e Portfólio e Acesso do Grupo GIROAgro, essas tecnologias exercem papel complementar dentro do sistema produtivo.
"Os bioinsumos são aliados valiosos na otimização de nutrientes e no controle biológico, mas substituir completamente os fertilizantes minerais seria um risco inaceitável para a escala da nossa agroindústria, que depende de precisão e volume para competir globalmente."
Na prática, os bioinsumos atuam sobre a biologia do solo, favorecendo a disponibilidade e o aproveitamento dos nutrientes pelas plantas, aumentando a eficiência dos fertilizantes já aplicados e contribuindo para sistemas agrícolas mais sustentáveis.
Agricultura busca maior autonomia produtiva
O atual cenário internacional reforça a necessidade de ampliar a produção nacional de tecnologias agrícolas e reduzir a vulnerabilidade do Brasil diante das oscilações do mercado externo.
Com custos elevados, cadeias logísticas pressionadas e riscos geopolíticos persistentes, os bioinsumos passam a integrar uma estratégia cada vez mais relevante para aumentar a eficiência da fertilização, fortalecer a resiliência das propriedades rurais e elevar a competitividade do agronegócio brasileiro.
Embora não substituam integralmente os fertilizantes minerais, essas soluções representam um importante avanço rumo a uma agricultura mais eficiente, tecnológica e menos dependente das importações.
Fonte: Portal do Agronegócio
◄ Leia outras notícias