Trigo sobe 13% no exterior e riscos de qualidade sustentam preços no Brasil
Tensões no Mar Negro, queda das exportações russas e excesso de chuvas no Sul elevam a preocupação com a oferta de trigo adequado à panificação
Publicado em: 17/09/2026 às 18:40hs
Os preços internacionais do trigo avançaram 13% entre 10 de agosto e 10 de setembro, impulsionados pelas incertezas geopolíticas no Mar Negro e pelas dificuldades enfrentadas pela Rússia para escoar sua produção. No Brasil, o risco de perda de qualidade nas lavouras do Sul também reduziu a pressão sazonal da colheita sobre as cotações.
A avaliação integra o Agro Mensal, relatório divulgado pela Consultoria Agro do Itaú BBA. Segundo a análise, a perspectiva para o mercado de trigo permanece construtiva, mesmo sem um quadro de escassez global, diante da menor disponibilidade de cereal de qualidade e dos riscos climáticos na América do Sul.
Guerra entre Rússia e Ucrânia eleva preços do trigo
O mercado internacional foi diretamente influenciado pelo agravamento da guerra entre Rússia e Ucrânia. Os riscos logísticos para a comercialização do trigo russo elevaram os prêmios e sustentaram a valorização do cereal.
No dia 10 de setembro, as cotações internacionais fecharam em US$ 7,23 por bushel, acumulando alta de 13% em 30 dias.
Rumores sobre um possível acordo de paz entre os dois países chegaram a pressionar os contratos no início de setembro. Apesar da correção pontual, os preços permaneceram em níveis elevados, refletindo as incertezas sobre a continuidade dos embarques pelo Mar Negro.
Enquanto os problemas logísticos persistirem, o Itaú BBA avalia que o prêmio de risco deverá continuar incorporado às cotações internacionais.
Exportações russas recuam com restrições logísticas
As dificuldades de escoamento já aparecem nos dados de exportação da Rússia. Em agosto, o país embarcou apenas 1,3 milhão de toneladas de trigo, volume significativamente inferior ao registrado no mesmo período do ano anterior.
O resultado evidencia os impactos das restrições logísticas e dos ataques na região do corredor Azov-Mar Negro, rota estratégica para o comércio mundial de grãos.
O mercado acompanha se os obstáculos serão temporários ou se poderão comprometer por mais tempo a presença russa nas exportações globais. Uma redução prolongada dos embarques tende a ampliar a demanda pelo trigo produzido em outras origens.
Trigo chega a R$ 77,96 por saca no Paraná
O ambiente externo mais firme contribuiu para sustentar os preços do trigo no Brasil, mesmo com o avanço da colheita nacional.
No Paraná, a saca foi comercializada, em média, a R$ 77,96, valorização de 4% nos últimos 30 dias.
Normalmente, o aumento da oferta durante a colheita exerce pressão sobre as cotações. Neste ciclo, porém, as preocupações com possíveis perdas de qualidade, provocadas pelo excesso de chuvas, limitaram o movimento de baixa.
A combinação entre preços internacionais elevados e incertezas sobre a qualidade do trigo brasileiro manteve as negociações domésticas em patamares mais firmes.
Excesso de chuva ameaça qualidade do trigo no Sul
O comportamento do clima durante setembro e outubro será determinante para a safra brasileira. As previsões associadas ao El Niño indicam a continuidade de condições mais úmidas na Região Sul.
Embora as chuvas reduzam o risco de estresse hídrico, o excesso de umidade e a menor luminosidade podem favorecer doenças fúngicas e comprometer a qualidade dos grãos.
No Paraná, as precipitações durante a colheita já aumentaram a preocupação com perdas qualitativas. No Rio Grande do Sul, o risco permanece elevado porque parte relevante das lavouras ainda atravessa as fases de floração e enchimento de grãos.
Além da produtividade, o setor acompanha parâmetros como peso hectolitro, germinação, nível de proteína e presença de micotoxinas, fatores decisivos para determinar a utilização do trigo pela indústria moageira.
Menor oferta de trigo de qualidade nos EUA reforça cenário
Nos Estados Unidos, a menor disponibilidade de trigo duro de inverno, conhecido pela sigla HRW, também deverá sustentar os preços do cereal destinado à panificação.
Os estoques exportáveis norte-americanos estão mais restritos. Dessa forma, problemas de qualidade ou de produção em outros fornecedores podem direcionar uma parcela maior da demanda mundial ao trigo dos Estados Unidos.
Para a temporada 2026/27, o USDA projeta produção norte-americana de 42 milhões de toneladas, retração de 23% em relação às 54 milhões estimadas para o ciclo anterior.
A menor oferta amplia a sensibilidade do mercado a eventuais perdas em outras regiões exportadoras.
Safra argentina pode chegar a 21 milhões de toneladas
Na América do Sul, a atenção está voltada para a qualidade da próxima safra argentina. As lavouras apresentam bom desenvolvimento, com aproximadamente 96% da área classificada em condições entre normais e excelentes.
A produção é estimada em cerca de 21 milhões de toneladas. Apesar do potencial elevado, o mercado monitora os níveis de proteína e a pressão de doenças sobre as plantações.
A qualidade do trigo argentino é especialmente relevante para o Brasil, que tem o país vizinho como seu principal fornecedor externo. A capacidade da nova safra de atender às especificações da indústria moageira brasileira será decisiva para o abastecimento nacional.
Produção mundial de trigo pode recuar para 822 milhões de toneladas
O balanço do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos indica produção mundial de 822 milhões de toneladas na safra 2026/27, queda de 3% em relação às 844 milhões de toneladas do ciclo anterior.
O consumo global também está projetado em 822 milhões de toneladas, crescimento anual de 1%. Já os estoques finais devem recuar 2%, para 276 milhões de toneladas.
A relação entre estoques e consumo é estimada em 34%, mesmo percentual da temporada anterior. Os números não apontam escassez global, mas escondem diferenças relevantes entre os tipos e as qualidades de trigo disponíveis.
Entre os principais produtores, as estimativas indicam retrações de 23% nos Estados Unidos, 8% na União Europeia, 14% na Austrália, 11% no Canadá e 3% na Rússia.
Brasil continuará dependente das importações
O Brasil deve produzir aproximadamente 6 milhões de toneladas de trigo na temporada 2026/27, redução de 24% em relação ao ciclo anterior, conforme os dados apresentados pelo USDA.
Como o consumo doméstico permanece superior à produção, o país continuará dependente das importações para abastecer a indústria. Nesse contexto, a oferta argentina e a qualidade do cereal disponível no Mercosul terão influência direta sobre os custos dos moinhos brasileiros.
A necessidade de trigo adequado à fabricação de farinha pode aumentar a disputa por lotes de melhor padrão, principalmente se as chuvas comprometerem parte da safra do Sul.
Mercado do trigo mantém tendência de preços firmes
A perspectiva para o trigo segue sustentada por três fatores centrais: os riscos logísticos no Mar Negro, a menor disponibilidade de cereal de qualidade nos Estados Unidos e as ameaças climáticas às safras da América do Sul.
Embora a oferta mundial permaneça suficiente para atender ao consumo, o mercado enfrenta dúvidas sobre a disponibilidade de trigo com as características exigidas pela indústria.
Esse cenário tende a manter as cotações internacionais firmes e a limitar quedas mais intensas no Brasil, especialmente enquanto persistirem as incertezas sobre a qualidade das colheitas no Paraná, no Rio Grande do Sul e na Argentina.
Fonte: Portal do Agronegócio
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