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Aveia, Trigo e Cevada

Trigo: perdas em São Paulo podem chegar a 95%, enquanto qualidade amplia descontos no Sul

Estimativa preliminar aponta forte comprometimento da safra paulista pelas chuvas; avanço da colheita pressiona preços no Rio Grande do Sul, e escassez de grãos superiores aumenta atenção às importações


Publicado em: 23/10/2026 às 17:30hs

Trigo: perdas em São Paulo podem chegar a 95%, enquanto qualidade amplia descontos no Sul

As chuvas comprometeram a qualidade do trigo em São Paulo e agravaram as dificuldades de comercialização no Sul do Brasil. No estado paulista, uma estimativa informal aponta perdas entre 90% e 95% da safra, segundo Ruy Zanardi, presidente da Câmara Setorial do Trigo de São Paulo. O percentual ainda não foi consolidado oficialmente e será discutido na reunião da entidade em 29 de outubro.

Ao mesmo tempo, a entrada do trigo recém-colhido pressiona as cotações no Rio Grande do Sul. No Paraná, a escassez de produto de qualidade superior mantém indicações de preços, mas os negócios com lotes inferiores apresentam descontos expressivos.

O cenário combina restrição de trigo adequado à moagem e maior disponibilidade de grãos com limitações de qualidade. Por isso, as referências divulgadas nem sempre correspondem aos valores efetivamente recebidos pelos produtores.

Chuvas comprometem safra de trigo em São Paulo

Durante o 33º Congresso Internacional da Indústria do Trigo, promovido pela Abitrigo, Zanardi relatou que as lavouras paulistas apresentavam boas perspectivas até o fim de julho. O quadro mudou com a persistência das chuvas durante a colheita.

Segundo o dirigente, a deterioração foi intensa a ponto de alguns compradores recusarem lotes até mesmo para alimentação animal. Entre os problemas está o baixo falling number, também chamado de número de queda, parâmetro utilizado na avaliação da qualidade industrial do cereal.

Em entrevista à Agência Safras, Zanardi chegou a mencionar comprometimento total da safra. Entretanto, a dimensão das perdas permanece preliminar, sem um levantamento oficial fechado que confirme os percentuais citados.

São Paulo pode precisar de 600 mil toneladas adicionais de trigo importado

Na avaliação do presidente da Câmara Setorial, o comprometimento da produção paulista poderá exigir a importação de aproximadamente 600 mil toneladas adicionais, além dos volumes habitualmente adquiridos.

O principal desafio, segundo ele, será a logística de entrada do cereal pelo Porto de Santos, que já concentra elevada movimentação de cargas. Zanardi também considera que a necessidade de abastecimento externo pode pressionar os preços para cima.

A indicação de compra de trigo em São Paulo ficou em R$ 1.650 por tonelada, na condição CIF, com frete incluído até o destino, mas sem vendedores disponíveis na referência apresentada.

Qualidade determina preços e limita negócios

O mercado brasileiro encerrou a semana com baixa liquidez e maior diferenciação entre os lotes. Conforme Thiago Oleto, analista de Safras & Mercado, a oferta insuficiente de trigo Tipo 1 limita os negócios nessa categoria, enquanto as transações se concentram em produtos inferiores.

Nesse contexto, indicações para trigo de melhor padrão podem superestimar os valores efetivamente praticados no mercado. Os descontos aparecem conforme as características de cada lote e as exigências dos compradores.

A situação explica por que a dificuldade de encontrar trigo adequado à indústria pode coexistir com quedas nas cotações durante a colheita.

Preço do trigo cai até 9,2% em praças gaúchas

Entre 16 e 22 de outubro, o avanço da oferta de trigo novo reduziu as indicações de compra no Rio Grande do Sul:

  • Porto Alegre: de R$ 1.630 para R$ 1.500 por tonelada CIF, queda de 8,0%;
  • Carazinho: de R$ 1.550 para R$ 1.420 por tonelada, recuo de 8,4%;
  • Santa Rosa: de R$ 1.530 para R$ 1.390 por tonelada, redução de 9,2%.

Nos negócios relatados em 20 de outubro, os valores ficaram em R$ 1.350 por tonelada no interior e R$ 1.470 por tonelada CIF. No dia seguinte, as operações ocorreram entre R$ 1.350 e R$ 1.400 por tonelada FOB, na origem, e a R$ 1.500 por tonelada CIF moinho.

As diferenças refletem condições de entrega, localização e qualidade do produto negociado.

Paraná tem escassez de Tipo 1 e descontos nos lotes inferiores

No Paraná, as indicações permaneceram em R$ 1.520 por tonelada FOB em Cascavel e Ponta Grossa. Em Curitiba, a referência ficou em R$ 1.650 por tonelada CIF, ante R$ 1.560 um mês antes.

Segundo a análise de mercado, parte do trigo superior foi misturada a lotes inferiores no início da colheita, reduzindo a disponibilidade de produto segregado com padrão mais elevado.

Para entrega em outubro e pagamento em meados de novembro, as ofertas apresentaram as seguintes referências:

  • Tipo 1 posto moinho: R$ 1.650 por tonelada;
  • Tipo 2 CIF: R$ 1.450 por tonelada;
  • Tipo 3 CIF: R$ 1.350 por tonelada.

No Sudoeste paranaense, lotes com peso hectolitro (PH) de 75 e número de queda (FN) de 220 foram negociados a R$ 1.350 por tonelada FOB. Produtos com PH 73 e FN 200 saíram a R$ 1.280, diferença de R$ 70 por tonelada.

Diante da escassez de matéria-prima adequada às exigências industriais, Oleto aponta que os moinhos podem ampliar a busca por trigo do Paraguai, da Argentina e de outras origens.

Colheita chega a 82% no Paraná e a 19% no Rio Grande do Sul

O Departamento de Economia Rural (Deral) informou que 82% da área de trigo do Paraná estava colhida em 19 de outubro. Entre as lavouras ainda acompanhadas, 45% apresentavam boas condições e 13% estavam em situação ruim.

No Rio Grande do Sul, a Emater/RS-Ascar apontou 19% da área colhida em 22 de outubro, ante 9% na semana anterior. Estimativas de agentes de mercado indicaram percentuais superiores em determinados momentos, mas possuem bases distintas do acompanhamento estadual da entidade.

A qualidade também varia entre as regiões gaúchas. Nas Missões e em Santa Rosa, os relatos indicaram PH acima de 76, sem registro de grãos brotados nos lotes mencionados. Na região Celeiro, o PH variou de 70 a 76, com presença de brotamento em parte do produto. No Alto Jacuí, lavouras dessecadas que receberam chuva apresentaram PH entre 70 e 74.

Brotação e DON dificultam destinação do cereal

Além do peso hectolitro, outros parâmetros têm sido decisivos para a aceitação do trigo. O levantamento relata número de queda entre 210 e 220 em lotes gaúchos e devoluções de produto destinado à alimentação animal pela presença de desoxinivalenol (DON).

Os problemas reforçam a necessidade de avaliar diferentes características do cereal antes da comercialização. Um PH mais elevado, isoladamente, não assegura o atendimento às exigências do comprador.

Com a soja já em implantação em áreas paulistas, os produtores também começam a avaliar o próximo ciclo de inverno. Segundo Zanardi, a escolha das culturas dependerá das condições técnicas e financeiras, incluindo os preços das commodities, após uma temporada marcada por perdas e dificuldades de escoamento.

Fonte: Portal do Agronegócio

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